O ano de 2025 foi marcado por uma série de diretrizes que redefiniram condutas essenciais na cardiologia. Sociedades como a European Society of Cardiology (ESC), American Heart Association (AHA) e a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) revisaram recomendações para o diagnóstico, estratificação de risco e manejo terapêutico de diferentes condições.
Confira, a seguir, as diretrizes que mais impactaram a prática cardiológica em 2025.
Saúde mental e doenças cardiovasculares
A diretriz destaca que saúde mental e doença cardiovascular possuem uma relação bidirecional: características psicológicas positivas se associam a menor risco e melhor evolução clínica, enquanto transtornos mentais como depressão, ansiedade e estresse aumentam a incidência e a gravidade das doenças cardiovasculares. Além disso, quando ambos coexistem, há piora de prognóstico, maior mortalidade e menor adesão ao tratamento, tornando essencial que cardiologistas reconheçam e avaliem sistematicamente o impacto da saúde mental na prática clínica para otimizar os desfechos.
Manejo de doenças cardiovasculares na gravidez
A diretriz coloca a doença cardiovascular como a principal causa de morte materna, mas altamente prevenível, e reforça que mulheres com cardiopatias devem ter autonomia reprodutiva com decisões compartilhadas. O cuidado deve ser centralizado em Heart Team para definir seguimento especializado. A diretriz atualizou o manejo farmacológico, evitando suspensões desnecessárias e mantendo betabloqueadores seletivos, HBPM nas próteses mecânicas e antipertensivos seguros, e manteve contraindicação a IECA/BRA, ARNI e DOACs na gestação. Trouxe recomendações específicas para cardiomiopatias, DCC, HAP e síndromes coronarianas, destacando o parto vaginal como via preferencial na maioria dos casos. Por fim, ressaltou a importância dos desfechos obstétricos adversos como marcadores de risco cardiovascular futuro, reforçando intervenção precoce e acompanhamento longitudinal.
A ESC reforçou que a redução intensiva do LDL-C continua sendo o principal alvo da prevenção cardiovascular, guiada pelo risco absoluto usando agora os algoritmos SCORE2 e SCORE2-OP, com modificadores como CAC e Lp(a) para melhor estratificação. Novas opções terapêuticas incluem ácido bempedoico para intolerância ou alto risco e evinacumabe em HF, além de indicar icosapentil para hipertrigliceridemia e volanesorsen para SQF. A dosagem de Lp(a) ao menos uma vez na vida passa a ser recomendada. Estatinas são agora recomendadas em prevenção primária para pessoas com HIV ≥40 anos e consideradas para pacientes oncológicos com alto risco de cardiotoxicidade.
Miocardite e pericardite traz novidades na abordagem clínica
A nova diretriz abordou miocardite e pericardite como uma síndrome inflamatória miopericárdica, destacando seu amplo espectro clínico e a importância da ressonância cardíaca na definição diagnóstica, reservando biópsia endomiocárdica para casos de alto risco ou falha terapêutica. Os critérios diagnósticos de pericardite incluem a suspeita clínica e achados de atrito pericárdico, infra de PR e supra de ST difusos, aumento de PCR, derrame novo ou em piora, edema pericárdico ou realce tardio na ressonância. Quando há pelo menos 2 critérios, a pericardite é definida, quando há apenas 1 é possível e quando não há nenhum é pouco provável/rejeitado. Mantida a recomendação de tratamento com AINE e colchicina. Em casos recorrentes ou falha do tratamento inicial pode-se utilizar corticosteroides, anti-IL-1 e uma nova recomendação foi de se usar betabloqueadores para pacientes sintomáticos, já com medicações otimizadas e com frequência cardíaca > 75bpm.
Na nova diretriz da ESC, o ecocardiograma permanece base diagnóstica, mas a tomografia, ressonância, eco de estresse e avaliação coronariana (preferencialmente angiotomografia em baixo risco) recebem destaque para estratificação, planejamento e seguimento. A diretriz amplia indicações intervencionistas: TAVI passa a ser opção em insuficiência aórtica importante em inelegíveis à cirurgia e pode ser considerada em bicúspide de alto risco; na estenose aórtica importante assintomática com FEVE ≥50% e baixo risco cirúrgico, a intervenção agora é alternativa à vigilância; e na dupla lesão sintomática ou com repercussão ventricular, a intervenção é recomendada. Para insuficiência mitral primária assintomática com VE preservado, a cirurgia é indicada quando há marcadores de pior prognóstico; já na secundária, o tratamento clínico é prioritário, considerando cirurgia ou abordagem percutânea conforme elegibilidade.

Diretrizes brasileiras para cardiologia
A nova diretriz brasileira redefine “pré-hipertensão” para PA 120–139/80–89 mmHg e mantém o diagnóstico ≥140/90 mmHg com confirmação por MAPA/MRPA. A meta universal agora é <130/80 mmHg, sem limite inferior se o paciente for assintomático, e o início do tratamento medicamentoso é indicado já no diagnóstico ≥140/90 mmHg ou em 130–139/80–89 mmHg se alto risco após 3 meses de medidas não farmacológicas. O manejo deve começar com combinação em baixa dose na maioria, reservando monoterapia para idosos frágeis e baixo risco. A crise hipertensiva passa a ser classificada apenas pela presença de lesão de órgão-alvo, eliminando o termo “urgência hipertensiva”.
Dor torácica na unidade de emergência
A diretriz de dor torácica reforça que o protocolo deve ser aberto para qualquer dor atual entre mandíbula e cicatriz umbilical ou dor >10 min, incluindo equivalentes isquêmicos como dispneia e diaforese, com ECG em até 10 minutos e seriado para aumentar sensibilidade diagnóstica. O grande ponto forte foi incluir outros padrões de ECG sugestivos de oclusão coronariana aguda/alto risco, como De Winter, T hiperaguda, Aslanger, distorção terminal do QRS, elevação isolada em aVR/V1 e Wellens.
Dislipidemias e prevenção da aterosclerose
A diretriz brasileira passa a indicar o escore de risco PREVENT e define cinco categorias de risco com metas mais agressivas para LDL e não-HDL, com foco especial em diabetes e eventos recentes para categorias de muito alto e extremo risco. O tratamento segue metas individualizadas com estatinas como terapia de primeira linha, associando ezetimibe e anti-PCSK9 quando necessário, e reservando ácido bempedoico para intolerância a estatinas. A diretriz reforça a necessidade da dosagem de lipoproteína A pelo menos uma vez na vida.
Obesidade e doença cardiovascular
A primeira diretriz brasileira de obesidade enfatiza que o risco cardiovascular deve ser avaliado em todos os adultos com sobrepeso ou obesidade, indo além do IMC, valorizando marcadores de adiposidade visceral como relação cintura/estatura. O escore PREVENT é recomendado para estratificação em risco para DAC e IC, com reclassificação por CAC em grupos moderado. Destaque também ao diagnóstico precoce de IC, especialmente ICFEP — frequente e subdiagnosticada nessa população.
A diretriz reforça que a avaliação da DAC crônica deve começar com anamnese detalhada, reconhecendo que a maioria dos pacientes apresenta sintomas atípicos e que isquemia pode ocorrer sem doença epicárdica obstrutiva (INOCA). A escolha dos exames parte da probabilidade pré-teste. O tratamento clínico otimizado continua sendo a base, com metas mais intensas para LDL-C (<50 mg/dL; <40 mg/dL em recorrências), uso escalonado de estatina → ezetimibe → anti-PCSK9, AAS na prevenção secundária, tempo de DAPT individualizado conforme risco isquêmico/sangramento e preferência pelo uso de IECA, iSGLT2 e agonistas de GLP-1 quando diabetes. Há destaque crescente para diagnóstico e manejo de vasoespasmo e disfunção microvascular, reforçando abordagem personalizada do mecanismo da angina.
A diretriz de FA reforça uma abordagem estruturada baseada em três pilares: prevenção tromboembólica, controle de ritmo e controle de frequência, com manejo multidisciplinar. O diagnóstico segue baseado em ECG, com maior valorização de Holter/dispositivos vestíveis, e a classificação passa a usar o CHA₂DS₂-VA (sexo feminino não pontua mais). A recomendação para reversão de FA aguda ficou mais rígida: cardioversão segura até 24h de início e baixo risco tromboembólico; acima desse período, anticoagulação plena ≥3 semanas ou eco transesofágico sem trombo. O controle de ritmo ganha prioridade — especialmente em pacientes mais jovens, sintomáticos, com IC ou taquicardiomiopatia — com destaque para ablação como opção precoce, inclusive primeira linha em alguns cenários.
Posicionamento sobre a saúde cardiometabólica ao longo do ciclo de vida da mulher
Nessa diretriz, o destaque é para a saúde cardiometabólica feminina, a qual é marcada por vulnerabilidades hormonais e reprodutivas que se traduzem em maior risco e apresentação mais precoce de hipertensão, diabetes, dislipidemia, doença coronariana e insuficiência cardíaca. Complicações gestacionais (pré-eclâmpsia, DMG), SOP, endometriose e menopausa aceleram inflamação, disfunção endotelial, rigidez arterial e obesidade visceral, atuando como marcadores precoces de risco cardiovascular e exigindo rastreio e intervenção antecipados. O manejo inclui metas agressivas para LDL-c (estatinas ± ezetimiba/PCSK9), uso de GLP-1 e SGLT2i em DM2 e obesidade, controle criterioso da PA e atenção ao rim durante e após a gestação. A terapia hormonal deve ser individualizada, restrita ao tratamento de sintomas, preferindo via transdérmica em mulheres com fatores de risco.
A diretriz americana mantém a classificação da pressão arterial, classificando a PA como “elevada” quando PAS entre 120–129 mmHg e PAD menor que 80 mmHg. Entre as principais mudanças, destaca-se que o termo “urgência hipertensiva” deixou de existir: pacientes com PA acima de 180×120 mmHg sem lesão de órgão-alvo não devem receber anti-hipertensivos de forma aguda. Ao invés disso, recomenda-se ajuste terapêutico e reavaliação ambulatorial precoce. Na estratificação de risco, foi incorporada a calculadora PREVENT™, que inclui fatores mais contemporâneos como função renal e risco social, adotando como novo limiar de alto risco valores maiores ou iguais a 7,5% em 10 anos. Quanto às causas secundárias, o rastreio de hiperaldosteronismo primário passa a ser recomendado em todos os hipertensos resistentes, mesmo sem hipocalemia, sendo orientada a manutenção das medicações usuais, exceto antagonistas do receptor mineralocorticoide, suspensos por 4 a 6 semanas para uma investigação mais acurada.
Autoria

Juliana Avelar
Médica formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Cardiologista pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia
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