Na primeira parte deste texto, abordamos o tratamento farmacológico do transtorno do espectro autista (TEA) discutido em uma revisão recente publicada no jornal Brain Sciences. Agora, sintetizamos os pontos relevantes do tratamento não farmacológico.

Intervenções comportamentais para o TEA
Por meio da modificação de padrões comportamentais, essas medidas têm o objetivo de melhorar as habilidades sociais e diminuir comportamentos problemáticos nos pacientes com TEA.
Análise do Comportamento Aplicada (Applied Behavior Analysis – ABA)
Consiste em uma intervenção estruturada, conduzida por adultos, com objetivos claramente definidos, adequada para portadores de TEA de todas as faixas etárias. Técnicas essenciais, como o treinamento por tentativas discretas e a intervenção comportamental intensiva precoce, ensinam habilidades de forma sistemática e demonstraram eficácia na melhoria da capacidade de aprendizagem, dos comportamentos adaptativos, das habilidades sociais e da linguagem. No entanto, a alta intensidade e a demanda de recursos da ABA podem representar um fardo substancial para as famílias, limitando sua implementação em larga escala.
Intervenções comportamentais desenvolvimentais naturalistas (Naturalistic Developmental Behavioral Interventions – NDBIs)
Consistem em abordagens lúdicas e centradas na criança, aplicadas em ambientes naturais e utilizadas, principalmente, na primeira infância para aprimorar o desenvolvimento socioemocional.
Modelos, como o modelo Denver de intervenção precoce (early start Denver model – ESDM), o tratamento de resposta pivotal (pivotal response treatment – PRT) e o JASPER (joint attention symbolic play engagement regulation), demonstraram efeitos positivos na cognição, comportamento adaptativo, comunicação social e linguagem em crianças pequenas com TEA (ensaios randomizados mostraram melhorias na função cognitiva, habilidades adaptativas e interação social). Todavia, as evidências existentes baseiam-se, em grande parte, em amostras pequenas e períodos de acompanhamento curtos, e a eficácia a longo prazo das NDBIs permanece incerta; além disso, a implementação bem-sucedida depende fortemente do envolvimento da família e da comunidade, o que pode ser limitado por fatores culturais e socioeconômicos, particularmente em contextos de baixa e média renda.
Vantagens, limitações e direções de desenvolvimento
As intervenções comportamentais são a base do tratamento precoce do TEA, oferecendo protocolos de treinamento estruturados e individualizados, adaptados às necessidades de cada criança. Contudo, elas exigem envolvimento em longo prazo, alta especialização do terapeuta e intensidade suficiente, o que limita a viabilidade em contextos com recursos limitados e contribui para uma variabilidade grande nos resultados. Abordagens altamente repetitivas, como a ABA, também podem provocar resistência em algumas crianças.
As direções futuras incluem o desenvolvimento de modelos escaláveis e de baixo custo, como intervenções lideradas pelos pais e baseadas na comunidade, e a integração de sistemas de orientação remota e assistida por inteligência artificial (IA) para melhorar a acessibilidade, padronizar a aplicação e compreender melhor as diferenças individuais na resposta terapêutica.
Medicina tradicional chinesa (MTC)
Essa abordagem conceitua o TEA como um distúrbio da função cerebral associado a desequilíbrios em órgãos, como coração, fígado, baço e rins, enfatizando o tratamento holístico e individualizado.
Acupuntura
É comumente utilizada para o manejo do TEA e inclui técnicas no couro cabeludo, no corpo e na orelha. A acupuntura no couro cabeludo (particularmente o método de três agulhas de Jin) é a mais prevalente.
Estudos clínicos sugerem que a acupuntura pode melhorar os sintomas relacionados ao TEA, com alguns ensaios relatando melhorias maiores e mais rápidas em comparação com intervenções comportamentais, bem como benefícios em múltiplas escalas de avaliação; evidências de apoio também provêm de modelos animais e estudos de neuroimagem que indicam efeitos na função sináptica, conectividade neural e marcadores neuroendócrinos. Entretanto, as evidências atuais são limitadas pela heterogeneidade metodológica, dependência de medidas de resultados subjetivas, falta de protocolos padronizados e resultados de ensaios não relatados. As limitações práticas incluem dor, baixa cooperação da criança, risco de eventos adversos, contraindicações para eletroacupuntura e a necessidade de profissionais altamente qualificados.
MTC à base de ervas
É usada no tratamento do TEA com base em uma regulação multicomponente, multialvo e multivia. Acorus calamus, alcaçuz, angélica, ginseng e Poria são as ervas mais comumente prescritas. Estudos clínicos sugerem que formulações fitoterápicas, como a decocção Yangxin Kangpi combinada com treinamento comportamental, podem melhorar os escores de gravidade do TEA e o funcionamento físico geral, apresentando boa tolerabilidade e menos efeitos colaterais em comparação com medicamentos ocidentais, tornando-as potencialmente adequadas para uso a longo prazo. No entanto, odores e sabores fortes podem reduzir a adesão ao tratamento oral em crianças, sendo necessárias mais evidências de alta qualidade para confirmar sua eficácia.
Terapia abrangente
Consiste na integração de modalidades, como acupuntura, fitoterapia chinesa, reabilitação moderna e a massagem terapêutica chinesa Tuina. A terapia abrangente tem demonstrado aumentar a eficácia do tratamento no TEA, com estudos mostrando melhorias significativas nos desfechos comportamentais, de linguagem e motores em comparação com intervenções de modalidade única ou focadas apenas em reabilitação.
Infelizmente, crianças pequenas podem não conseguir comunicar claramente o desconforto e apresentam menor tolerância e pele mais frágil. Além disso, a estrita adesão às diretrizes profissionais e o planejamento individualizado do tratamento são essenciais para garantir tanto a segurança quanto a eficácia.
Vantagens, limitações e direções de desenvolvimento
A MTC enfatiza o tratamento holístico e individualizado por meio da diferenciação de síndromes, mas requer profissionais altamente qualificados e carece de protocolos padronizados internacionalmente, particularmente para acupuntura. A adesão ao tratamento pode ser limitada por fatores relevantes, como o odor forte das formulações fitoterápicas, o que destaca a necessidade de inovação para melhorar a aceitabilidade em crianças. O desenvolvimento futuro deve se concentrar em pesquisas interculturais e no estabelecimento de padrões internacionalmente adaptáveis, incluindo a seleção de pontos e técnicas de acupuntura, tempo de permanência da agulha e parâmetros de estimulação.
Técnicas de neuromodulação
Consistem em técnicas para aliviar os sintomas do TEA por meio da modulação da atividade neural. São classificadas em técnicas exógenas (passivas) e endógenas (ativas).
Técnicas de neuromodulação exógena
Modulam a excitabilidade cortical em regiões cerebrais específicas, incluindo o córtex pré-frontal dorsolateral e as áreas temporoparietais, para melhorar a função executiva, a regulação emocional e a cognição social em indivíduos com TEA.
Estudos clínicos indicam que a estimulação magnética transcraniana repetitiva (repetitive transcranial magnetic stimulation – rTMS) pode normalizar a atividade cerebral e reduzir sintomas comportamentais, incluindo irritabilidade e comportamentos repetitivos. A estimulação transcraniana por corrente contínua (transcranial direct current stimulation – tDCS) pode aumentar a conectividade funcional e melhorar os desfechos sociais, cognitivos e comportamentais, com as vantagens de portabilidade e menos efeitos colaterais. No entanto, a resposta ao tratamento varia entre os indivíduos, os parâmetros ideais de estimulação ainda não foram padronizados, a eficácia em longo prazo permanece incerta e é necessário cautela em pacientes com epilepsia concomitante.
Técnicas de neuromodulação endógena
Em especial o neurofeedback, essas técnicas se baseiam no condicionamento operante e na neuroplasticidade e permitem que indivíduos com TEA autorregulem ativamente a atividade neural por meio de feedback em tempo real. Evidências sugerem que o neurofeedback baseado em eletroencefalograma (EEG), ressonância magnética funcional (functional magnetic resonance imaging – fMRI) e espectroscopia funcional no infravermelho próximo (functional spectroscopy in the near-infrared – fNIRS) pode melhorar a atenção, a função executiva, o comportamento social, a comunicação e o funcionamento adaptativo, com alguns estudos demonstrando benefícios sustentados após o tratamento.
Embora o neurofeedback evite os efeitos colaterais relacionados a medicamentos e mostre efeitos promissores em longo prazo, as evidências atuais são limitadas pelo pequeno tamanho das amostras e pelo foco em indivíduos com TEA de alto funcionamento, e sua eficácia em populações com funcionamento mais baixo ainda precisa ser estabelecida.
Vantagens, limitações e direções de desenvolvimento
As técnicas de neuroregulação utilizam o condicionamento operante e a neuroplasticidade para melhorar os desfechos comportamentais e cognitivos em pacientes com TEA, mas são limitadas pelos altos custos, complexidade técnica e ausência de protocolos padronizados para alvos e parâmetros de estimulação. Direções futuras incluem o uso de conjuntos de dados em larga escala para desenvolver modelos de estímulo-resposta, otimizar e personalizar parâmetros de tratamento, integrar ferramentas inteligentes de avaliação e intervenção, e possibilitar um monitoramento abrangente, apoiando estratégias de reabilitação personalizadas mais precisas, eficientes e tecnicamente embasadas.
Medicina complementar e alternativa (MCA)
Engloba abordagens diagnósticas e terapêuticas não convencionais, utilizadas para complementar ou substituir os tratamentos tradicionais.
Musicoterapia (MT)
A MT, incluindo abordagens improvisacionais, centradas na família, em grupo e baseadas na imitação, tem demonstrado melhorar a atenção, o reconhecimento emocional, os comportamentos sociais e as interações entre pais e crianças com TEA. Existem algumas evidências de ativação e alterações estruturais ou funcionais associadas em regiões cerebrais relacionadas à emoção e à comunicação social. No entanto, os resultados permanecem inconsistentes, visto que grandes ensaios clínicos randomizados não conseguiram demonstrar melhorias significativas em desfechos centrais da comunicação social, e a base de evidências atual é limitada por amostras pequenas, metodologias heterogêneas e falta de parâmetros de intervenção padronizados.
Intervenções assistidas por animais (IAA)
Intervenções assistidas por animais (IAA), geralmente envolvendo cães, cavalos e golfinhos, têm demonstrado benefícios para a cognição social, comunicação social, linguagem expressiva e habilidades motoras, conforme comprovado por estudos randomizados e controlados. No entanto, apesar das melhorias consistentes nos domínios social e de comunicação, a maioria dos estudos relata efeitos limitados ou inexistentes sobre comportamentos restritivos e repetitivos.
Intervenções com exercícios físicos
São cada vez mais utilizadas em indivíduos com TEA devido ao seu baixo custo, viabilidade e alta aceitabilidade, apesar de os mecanismos neurobiológicos subjacentes ainda não estarem totalmente esclarecidos. Evidências sugerem que atividades físicas, como natação, corrida, futebol e ioga, podem melhorar comportamentos estereotipados, interação social, flexibilidade cognitiva e sono, enquanto abordagens complementares, incluindo terapia com caixa de areia e terapias artísticas, podem apoiar ainda mais a comunicação e a interação social em pacientes com TEA.
Vantagens, limitações e direções de desenvolvimento
A MCA envolve integração multissensorial e apresenta um potencial considerável no alívio dos principais sintomas e comorbidades do TEA. Caracteriza-se por ser de baixo risco e de fácil uso para o paciente, mas segundo os autores da revisão, “pesquisas futuras devem considerar a integração de tecnologias de neuroimagem para explorar os potenciais mecanismos neurais e fornecer suporte empírico para o desenvolvimento de programas de intervenção cientificamente eficazes”.
Autoria

Roberta Esteves Vieira de Castro
Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra
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