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Pediatria9 janeiro 2026

Revisão analisa as abordagens terapêuticas para o TEA – Parte 2

Trazemos a segunda parte do artigo um resumo da base teórica e os efeitos terapêuticos de cada método de intervenção no TEA

Na primeira parte deste texto, abordamos o tratamento farmacológico do transtorno do espectro autista (TEA) discutido em uma revisão recente publicada no jornal Brain Sciences. Agora, sintetizamos os pontos relevantes do tratamento não farmacológico.   

Revisão analisa as abordagens terapêuticas para o TEA – Parte 2

Intervenções comportamentais para o TEA  

Por meio da modificação de padrões comportamentais, essas medidas têm o objetivo de melhorar as habilidades sociais e diminuir comportamentos problemáticos nos pacientes com TEA.  

Análise do Comportamento Aplicada (Applied Behavior Analysis – ABA)  

Consiste em uma intervenção estruturada, conduzida por adultos, com objetivos claramente definidos, adequada para portadores de TEA de todas as faixas etárias. Técnicas essenciais, como o treinamento por tentativas discretas e a intervenção comportamental intensiva precoce, ensinam habilidades de forma sistemática e demonstraram eficácia na melhoria da capacidade de aprendizagem, dos comportamentos adaptativos, das habilidades sociais e da linguagem. No entanto, a alta intensidade e a demanda de recursos da ABA podem representar um fardo substancial para as famílias, limitando sua implementação em larga escala.  

Intervenções comportamentais desenvolvimentais naturalistas (Naturalistic Developmental Behavioral Interventions – NDBIs) 

Consistem em abordagens lúdicas e centradas na criança, aplicadas em ambientes naturais e utilizadas, principalmente, na primeira infância para aprimorar o desenvolvimento socioemocional.  

Modelos, como o modelo Denver de intervenção precoce (early start Denver model – ESDM), o tratamento de resposta pivotal (pivotal response treatment – PRT) e o JASPER (joint attention symbolic play engagement regulation), demonstraram efeitos positivos na cognição, comportamento adaptativo, comunicação social e linguagem em crianças pequenas com TEA (ensaios randomizados mostraram melhorias na função cognitiva, habilidades adaptativas e interação social). Todavia, as evidências existentes baseiam-se, em grande parte, em amostras pequenas e períodos de acompanhamento curtos, e a eficácia a longo prazo das NDBIs permanece incerta; além disso, a implementação bem-sucedida depende fortemente do envolvimento da família e da comunidade, o que pode ser limitado por fatores culturais e socioeconômicos, particularmente em contextos de baixa e média renda.  

Vantagens, limitações e direções de desenvolvimento 

As intervenções comportamentais são a base do tratamento precoce do TEA, oferecendo protocolos de treinamento estruturados e individualizados, adaptados às necessidades de cada criança. Contudo, elas exigem envolvimento em longo prazo, alta especialização do terapeuta e intensidade suficiente, o que limita a viabilidade em contextos com recursos limitados e contribui para uma variabilidade grande nos resultados. Abordagens altamente repetitivas, como a ABA, também podem provocar resistência em algumas crianças.  

As direções futuras incluem o desenvolvimento de modelos escaláveis ​​e de baixo custo, como intervenções lideradas pelos pais e baseadas na comunidade, e a integração de sistemas de orientação remota e assistida por inteligência artificial (IA) para melhorar a acessibilidade, padronizar a aplicação e compreender melhor as diferenças individuais na resposta terapêutica.   

Medicina tradicional chinesa (MTC) 

Essa abordagem conceitua o TEA como um distúrbio da função cerebral associado a desequilíbrios em órgãos, como coração, fígado, baço e rins, enfatizando o tratamento holístico e individualizado.  

Acupuntura 

É comumente utilizada para o manejo do TEA e inclui técnicas no couro cabeludo, no corpo e na orelha. A acupuntura no couro cabeludo (particularmente o método de três agulhas de Jin) é a mais prevalente.  

Estudos clínicos sugerem que a acupuntura pode melhorar os sintomas relacionados ao TEA, com alguns ensaios relatando melhorias maiores e mais rápidas em comparação com intervenções comportamentais, bem como benefícios em múltiplas escalas de avaliação; evidências de apoio também provêm de modelos animais e estudos de neuroimagem que indicam efeitos na função sináptica, conectividade neural e marcadores neuroendócrinos. Entretanto, as evidências atuais são limitadas pela heterogeneidade metodológica, dependência de medidas de resultados subjetivas, falta de protocolos padronizados e resultados de ensaios não relatados. As limitações práticas incluem dor, baixa cooperação da criança, risco de eventos adversos, contraindicações para eletroacupuntura e a necessidade de profissionais altamente qualificados. 

MTC à base de ervas 

É usada no tratamento do TEA com base em uma regulação multicomponente, multialvo e multivia.  Acorus calamusalcaçuz, angélicaginseng e Poria são as ervas mais comumente prescritas. Estudos clínicos sugerem que formulações fitoterápicas, como a decocção Yangxin Kangpi combinada com treinamento comportamental, podem melhorar os escores de gravidade do TEA e o funcionamento físico geral, apresentando boa tolerabilidade e menos efeitos colaterais em comparação com medicamentos ocidentais, tornando-as potencialmente adequadas para uso a longo prazo. No entanto, odores e sabores fortes podem reduzir a adesão ao tratamento oral em crianças, sendo necessárias mais evidências de alta qualidade para confirmar sua eficácia. 

Terapia abrangente  

Consiste na integração de modalidades, como acupunturafitoterapia chinesareabilitação moderna e a massagem terapêutica chinesa Tuina. A terapia abrangente tem demonstrado aumentar a eficácia do tratamento no TEA, com estudos mostrando melhorias significativas nos desfechos comportamentais, de linguagem e motores em comparação com intervenções de modalidade única ou focadas apenas em reabilitação.  

Infelizmente, crianças pequenas podem não conseguir comunicar claramente o desconforto e apresentam menor tolerância e pele mais frágil. Além disso, a estrita adesão às diretrizes profissionais e o planejamento individualizado do tratamento são essenciais para garantir tanto a segurança quanto a eficácia.  

Vantagens, limitações e direções de desenvolvimento 

A MTC enfatiza o tratamento holístico e individualizado por meio da diferenciação de síndromes, mas requer profissionais altamente qualificados e carece de protocolos padronizados internacionalmente, particularmente para acupuntura. A adesão ao tratamento pode ser limitada por fatores relevantes, como o odor forte das formulações fitoterápicas, o que destaca a necessidade de inovação para melhorar a aceitabilidade em crianças. O desenvolvimento futuro deve se concentrar em pesquisas interculturais e no estabelecimento de padrões internacionalmente adaptáveis, incluindo a seleção de pontos e técnicas de acupuntura, tempo de permanência da agulha e parâmetros de estimulação.  

Técnicas de neuromodulação 

Consistem em técnicas para aliviar os sintomas do TEA por meio da modulação da atividade neural. São classificadas em técnicas exógenas (passivas) e endógenas (ativas).   

Técnicas de neuromodulação exógena 

Modulam a excitabilidade cortical em regiões cerebrais específicas, incluindo o córtex pré-frontal dorsolateral e as áreas temporoparietais, para melhorar a função executiva, a regulação emocional e a cognição social em indivíduos com TEA.  

Estudos clínicos indicam que a estimulação magnética transcraniana repetitiva (repetitive transcranial magnetic stimulation – rTMS) pode normalizar a atividade cerebral e reduzir sintomas comportamentais, incluindo irritabilidade e comportamentos repetitivos. A estimulação transcraniana por corrente contínua (transcranial direct current stimulation – tDCS) pode aumentar a conectividade funcional e melhorar os desfechos sociais, cognitivos e comportamentais, com as vantagens de portabilidade e menos efeitos colaterais. No entanto, a resposta ao tratamento varia entre os indivíduos, os parâmetros ideais de estimulação ainda não foram padronizados, a eficácia em longo prazo permanece incerta e é necessário cautela em pacientes com epilepsia concomitante.  

Técnicas de neuromodulação endógena 

Em especial o neurofeedback, essas técnicas se baseiam no condicionamento operante e na neuroplasticidade e permitem que indivíduos com TEA autorregulem ativamente a atividade neural por meio de feedback em tempo real. Evidências sugerem que o neurofeedback baseado em eletroencefalograma (EEG), ressonância magnética funcional (functional magnetic resonance imaging – fMRI) e espectroscopia funcional no infravermelho próximo (functional spectroscopy in the near-infrared – fNIRS) pode melhorar a atenção, a função executiva, o comportamento social, a comunicação e o funcionamento adaptativo, com alguns estudos demonstrando benefícios sustentados após o tratamento.  

Embora o neurofeedback evite os efeitos colaterais relacionados a medicamentos e mostre efeitos promissores em longo prazo, as evidências atuais são limitadas pelo pequeno tamanho das amostras e pelo foco em indivíduos com TEA de alto funcionamento, e sua eficácia em populações com funcionamento mais baixo ainda precisa ser estabelecida.  

Vantagens, limitações e direções de desenvolvimento 

As técnicas de neuroregulação utilizam o condicionamento operante e a neuroplasticidade para melhorar os desfechos comportamentais e cognitivos em pacientes com TEA, mas são limitadas pelos altos custos, complexidade técnica e ausência de protocolos padronizados para alvos e parâmetros de estimulação. Direções futuras incluem o uso de conjuntos de dados em larga escala para desenvolver modelos de estímulo-resposta, otimizar e personalizar parâmetros de tratamento, integrar ferramentas inteligentes de avaliação e intervenção, e possibilitar um monitoramento abrangente, apoiando estratégias de reabilitação personalizadas mais precisas, eficientes e tecnicamente embasadas.  

Medicina complementar e alternativa (MCA) 

Engloba abordagens diagnósticas e terapêuticas não convencionais, utilizadas para complementar ou substituir os tratamentos tradicionais.   

Musicoterapia (MT) 

A MT, incluindo abordagens improvisacionais, centradas na família, em grupo e baseadas na imitação, tem demonstrado melhorar a atenção, o reconhecimento emocional, os comportamentos sociais e as interações entre pais e crianças com TEA. Existem algumas evidências de ativação e alterações estruturais ou funcionais associadas em regiões cerebrais relacionadas à emoção e à comunicação social. No entanto, os resultados permanecem inconsistentes, visto que grandes ensaios clínicos randomizados não conseguiram demonstrar melhorias significativas em desfechos centrais da comunicação social, e a base de evidências atual é limitada por amostras pequenas, metodologias heterogêneas e falta de parâmetros de intervenção padronizados.  

Intervenções assistidas por animais (IAA) 

Intervenções assistidas por animais (IAA), geralmente envolvendo cãescavalos golfinhos, têm demonstrado benefícios para a cognição social, comunicação social, linguagem expressiva e habilidades motoras, conforme comprovado por estudos randomizados e controlados. No entanto, apesar das melhorias consistentes nos domínios social e de comunicação, a maioria dos estudos relata efeitos limitados ou inexistentes sobre comportamentos restritivos e repetitivos.  

Intervenções com exercícios físicos  

São cada vez mais utilizadas em indivíduos com TEA devido ao seu baixo custo, viabilidade e alta aceitabilidade, apesar de os mecanismos neurobiológicos subjacentes ainda não estarem totalmente esclarecidos. Evidências sugerem que atividades físicas, como nataçãocorridafutebol ioga, podem melhorar comportamentos estereotipados, interação social, flexibilidade cognitiva e sono, enquanto abordagens complementares, incluindo terapia com caixa de areia e terapias artísticas, podem apoiar ainda mais a comunicação e a interação social em pacientes com TEA.  

Vantagens, limitações e direções de desenvolvimento 

A MCA envolve integração multissensorial e apresenta um potencial considerável no alívio dos principais sintomas e comorbidades do TEA. Caracteriza-se por ser de baixo risco e de fácil uso para o paciente, mas segundo os autores da revisão, “pesquisas futuras devem considerar a integração de tecnologias de neuroimagem para explorar os potenciais mecanismos neurais e fornecer suporte empírico para o desenvolvimento de programas de intervenção cientificamente eficazes”.

Autoria

Foto de Roberta Esteves Vieira de Castro

Roberta Esteves Vieira de Castro

Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra

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Referências bibliográficas

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