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Pediatria18 novembro 2024

Hipovitaminose D em pediatria: diagnóstico e manejo

Entenda como avaliar e tratar a deficiência de vitamina D em crianças e adolescentes, segundo recomendações da SBP.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), por meio do Departamento Científico de Endocrinologia, publicou uma atualização sobre diagnóstico, tratamento e prevenção da hipovitaminose D em pediatria.

A deficiência de vitamina D é uma condição relevante em todo o mundo e pode acometer diferentes faixas etárias, inclusive no Brasil.

Novas diretrizes sobre tratamento e prevenção de hipovitaminose D em pediatria 

Imagem de pixabay

Formas da vitamina D e metabolismo

A vitamina D existe em duas formas principais:

  • ergocalciferol, ou vitamina D2;
  • colecalciferol, ou vitamina D3.

A vitamina D3 é sintetizada na pele pela ação dos raios ultravioleta B. Após esse processo, tanto a vitamina D2 quanto a D3 são convertidas no fígado em 25(OH)vitamina D2 e 25(OH)vitamina D3, respectivamente.

Essas são formas de depósito que, ao serem transportadas para os rins, formam o calcitriol, ou 1,25(OH)2vitamina D, a forma metabolicamente ativa desse hormônio.

Mecanismos de ação da vitamina D

A vitamina D tem ação comprovada na mineralização óssea e na homeostasia do cálcio.

Além disso, está envolvida na regulação de mais de 1.000 genes, motivo pelo qual se acredita que possa atuar em outros processos fisiológicos.

Com base em estudos epidemiológicos, especula-se que a hipovitaminose D possa estar associada a condições como asma brônquica, dermatite atópica, doenças cardiovasculares e neoplasias.

Fontes de vitamina D

As principais fontes de vitamina D incluem:

  • síntese cutânea;
  • sardinha enlatada;
  • salmão;
  • fígado de boi;
  • iogurte;
  • gema de ovo.

A síntese cutânea pode diminuir em até 90% com o uso de filtro solar com fator de proteção maior que 30.

Embora seja o melhor alimento para o recém-nascido, o leite materno contém apenas 20 a 50 UI de vitamina D por litro.

Manifestações clínicas da hipovitaminose D em pediatria

A hipovitaminose D pode ser assintomática, dependendo da gravidade e da duração da deficiência.

Quando sintomática, pode se manifestar com:

  • atraso do crescimento e do desenvolvimento;
  • irritabilidade;
  • dores ósseas;
  • hipocalcemia, nos casos mais graves;
  • raquitismo em crianças;
  • osteomalácia em adolescentes.

Na pediatria, a deficiência e a insuficiência de vitamina D são mais comuns em crianças de pele escura, prematuros, filhos de mães com deficiência de vitamina D durante a gestação e lactentes alimentados exclusivamente ao seio materno.

No primeiro ano de vida e durante a adolescência também há risco aumentado de hipovitaminose, devido ao acelerado crescimento do esqueleto.

Diagnóstico da hipovitaminose D em crianças e adolescentes

Quando investigar hipovitaminose D

A triagem para hipovitaminose D é recomendada apenas para grupos de risco, conforme orientação dos principais consensos nacionais e internacionais.

Entre os grupos citados estão pacientes com:

  • exposição insuficiente à luz solar;
  • nefropatias;
  • hepatopatias;
  • má absorção intestinal;
  • uso de determinados medicamentos, como anticonvulsivantes, corticoides sistêmicos, espironolactona e nifedipina.

Exame indicado para avaliação da vitamina D

A avaliação deve ser feita por meio da dosagem sérica de 25(OH)vitamina D, também chamada de calcidiol ou calcifediol.

Essa é a forma de depósito da vitamina D.

A 1,25(OH)2vitamina D não deve ser utilizada nessa avaliação, pois tem meia-vida curta e sofre interferência do paratormônio.

Metodologia do exame e valores de referência

A metodologia do exame também influencia a interpretação dos resultados.

O padrão-ouro é a dosagem por espectro-cromatografia líquida de massa em tandem, ou LC-MS. No entanto, esse método é caro e trabalhoso.

Na prática clínica, os testes mais utilizados são imunoensaios e quimioluminescência, embora apresentem acurácia não ideal. Além disso, os resultados podem variar entre laboratórios e métodos diferentes.

Por essas variações, não há consenso absoluto sobre os valores ideais de vitamina D. Atualmente, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia recomenda valores entre 30 e 60 ng/mL para grupos de risco.

Investigação de raquitismo  

Crianças com valores de vitamina D inferiores a 20 ng/mL devem ser investigadas para raquitismo.

A avaliação laboratorial deve incluir:

  • cálcio;
  • fósforo;
  • magnésio;
  • fosfatase alcalina;
  • proteínas totais e frações;

Quando os exames laboratoriais sugerirem raquitismo, recomenda-se avaliação radiológica com radiografia de mãos e punhos ou joelhos, em incidência anteroposterior, e tórax, em incidência posteroanterior e perfil.

Achados que indicam este diagnóstico incluem alargamento das metáfises com perda de seus contornos, alargamento das junções costocondrais, fratura em “galho verde”, geno varo ou valgo e deformidades torácicas. 

Tratamento da hipovitaminose D em pediatria

Quando indicar suplementação

A suplementação está indicada sempre que houver deficiência de vitamina D, mesmo na ausência de sintomas.

Pacientes com níveis insuficientes devem ser tratados quando pertencem a grupos de risco ou quando a adequação da dieta não pode ser realizada.

Escolha da formulação de vitamina D

Na maioria dos casos, a preferência é pelo uso de colecalciferol, considerado o metabólito mais ativo.

Situações excepcionais, como hipoparatireoidismo e insuficiência renal crônica, podem exigir o uso de calcitriol, ou 1,25(OH)2vitamina D.

Doses recomendadas para tratamento

As doses recomendadas para tratamento da hipovitaminose D (Tabela 1). O uso diário é preferencial e deve ser priorizado, podendo ser recomendada administração semanal quando há baixa adesão.   

Faixa Etária Dose Terapêutica Dose de Manutenção 
Consenso Global de Recomendações de Prevenção e Manejo de Raquitismo Nutricional 
< 12 meses 2.000 UI/dia por 12 semanas 400 UI/dia 
1-12 anos 3.000-6.000 UI/dia por 12 semanas 600 UI/dia 
> 12 anos 6.000 UI/dia por 12 semanas 600 UI/dia 
Academia Americana de Pediatria 
< 1 mês 1.000 UI/dia por 8-12 semanas pelo menos 400 UI/dia 
1-12 meses 1.000-5.000 UI/dia por 8-12 semanas pelo menos 600 UI/dia 
> 12 meses 5.000 UI/dia por 8-12 semanas pelo menos 600 UI/dia 
Diretriz de Prática Clínica da Sociedade de Endocrinologia 
< 12 meses 2.000 UI/dia por 6 semanas 400-1.000 UI/dia 
1-18 anos 2.000 UI/dia por 6 semanas 600-1.000 UI/dia 
> 18 anos 6.000 UI/dia por 6 semanas 1.500-2.000 UI/dia 

Tabela 1. Tratamento de hipovitaminose D conforme as recomendações das principais diretrizes internacionais. 

Monitorização após suplementação

Em indivíduos saudáveis em uso profilático de vitamina D com doses inferiores a 2.000 UI/dia, não se recomenda dosagem rotineira dos níveis séricos da vitamina.

A dosagem pode ser solicitada se houver suspeita de baixa adesão, geralmente entre 8 e 12 semanas após o início da suplementação.

Em pacientes com raquitismo, a avaliação deve ser feita a cada 3 meses, até que sejam atingidos níveis superiores a 20-30 ng/mL.

Prevenção da hipovitaminose D em crianças e adolescentes

Para prevenção da hipovitaminose D, o colecalciferol, ou vitamina D3, também é a primeira escolha.

O consenso de 2024 da Endocrine Society recomenda suplementação rotineira até os 18 anos, mesmo na ausência de fatores de risco, com o objetivo de prevenir raquitismo nutricional e potencialmente reduzir o risco de infecções respiratórias.

As doses indicadas são:

  • 400 UI/dia para menores de 1 ano;
  • 600 UI/dia entre 1 e 18 anos.

Pacientes com comorbidades associadas a maior risco de hipovitaminose D devem receber dose individualizada de 1.200 a 1.800 UI/dia, conforme a condição clínica.

Conclusão

A hipovitaminose D em pediatria deve ser abordada com foco na identificação de grupos de risco, na dosagem adequada de 25(OH)vitamina D e na investigação de raquitismo quando indicada.

O tratamento deve ser realizado sempre que houver deficiência, com preferência pelo colecalciferol na maioria dos casos. Na prevenção, a suplementação até a adolescência tem papel importante, especialmente em períodos de maior crescimento e em pacientes com maior risco de deficiência.

 

*Este conteúdo foi atualizado em: 15/05/2026 pela equipe editorial do Portal Afya.

Autoria

Foto de Bárbara Carvalho Santos dos Reis

Bárbara Carvalho Santos dos Reis

Editora Médica Associada B2B da Afya • Mestre e Doutoranda em Saúde Materno-Infantil (IFF/FIOCRUZ) • Residência médica em Pediatria pelo Hospital Universitário Pedro Ernesto (UERJ) e Título de Especialista em Pediatria pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) • Residência médica em Alergia e Imunologia Pediátrica no Instituto Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) e Título de Especialista em Alergia e Imunologia Pediátrica pela Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI) • Graduação em Medicina pela Universidade Estácio de Sá (UNESA) • Membro da Comissão de Erros Inatos da Imunidade da ASBAI-RJ • Analista Senior de Sequenciamento Genético da Rede Nacional de Genômica para Erros Inatos dos Imunidade (RENOMIEII) • Preceptora da residência médica de Alergia e Imunologia Pediátrica do IFF/Fiocruz • Instagram: @barbarareis.alergoped

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Referências bibliográficas

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