O transtorno do espectro autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento altamente heterogênea, de início precoce, com curso crônico, altas taxas de incapacidade e considerável impacto socioeconômico, afetando cerca de 1 em cada 100 crianças. Raramente, o TEA se manifesta de forma isolada, coexistindo, frequentemente, com comorbidades psiquiátricas e neurológicas, incluindo transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), ansiedade, distúrbios do sono e do humor, epilepsia e paralisia cerebral, sendo que a maioria dos pacientes apresenta, pelo menos, uma comorbidade.
Uma revisão publicada no jornal Brain Sciences trouxe uma visão abrangente das intervenções atuais para TEA, servindo como uma referência para a prática clínica e pesquisas futuras, além de promover o desenvolvimento e o estabelecimento de estratégias de intervenção eficazes e personalizadas. Nessa primeira parte, condensamos os principais pontos do tratamento farmacológico.

Tratamento farmacológico para o TEA
Por meio da modulação de neurotransmissores, estados emocionais e comportamentos, a abordagem farmacológica alivia e controla os sintomas comórbidos do TEA. Pode ser amplamente categorizado em antipsicóticos atípicos, antidepressivos, estimulantes e outros medicamentos terapêuticos potenciais, segundo seus mecanismos de ação.
Antipsicóticos atípicos
Em pacientes com TEA, modulam as vias da dopamina e da serotonina para reduzir a irritabilidade e a impulsividade. Risperidona e aripiprazol são os únicos agentes aprovados pelo órgão americano Food and Drug Administration (FDA). A risperidona é eficaz para o controle de curto prazo da agressividade e irritabilidade graves, enquanto o aripiprazol, com melhor tolerabilidade e menos efeitos metabólicos, é mais adequado para o tratamento em longo prazo: ambos demonstraram superioridade em relação ao placebo em ensaios clínicos. Agentes mais recentes, como brexpiprazol, cariprazina e lurasidona, estão em investigação, com dados pediátricos preliminares sugerindo tolerabilidade aceitável para a cariprazina, mas eficácia limitada para o brexpiprazol.
No geral, os antipsicóticos atípicos proporcionam controle rápido do comportamento e uma janela terapêutica para outras intervenções, mas têm impacto limitado nos sintomas centrais do TEA e apresentam riscos de efeitos adversos, incluindo potenciais complicações cardíacas, ganho de peso, sedação e síndrome metabólica.
Antidepressivos
São comumente usados no TEA para aliviar a depressão, a ansiedade e os comportamentos repetitivos ou compulsivos comórbidos, aumentando os níveis de serotonina, particularmente os inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS). Agentes como sertralina, fluoxetina e fluvoxamina demonstraram eficácia moderada na redução da desregulação comportamental, dos comportamentos repetitivos, da perseveração e da agressividade, embora os efeitos adversos limitem seu uso, incluindo distúrbios do sono, sintomas gastrointestinais e, ocasionalmente, piora do comportamento. Estão surgindo novos antidepressivos, como a venlafaxina, desvenlafaxina e a vortioxetina, e dados de estudos controlados randomizados sugerem que a venlafaxina em baixa dose pode oferecer uma opção farmacológica adicional promissora para melhorar os sintomas comportamentais.
Estimulantes
Aumentam os níveis de dopamina e norepinefrina para melhorar a atenção e o controle dos impulsos, sendo utilizados em pacientes com TEA que apresentam sintomas comórbidos de TDAH, os quais afetam aproximadamente 30% a 50% dessa população. Os agentes mais comuns incluem o metilfenidato e medicamentos à base de anfetaminas, com evidências demonstrando que o metilfenidato pode reduzir a desatenção, a impulsividade e a hiperatividade, embora tenha pouco efeito sobre os sintomas centrais do TEA. Apesar do risco de efeitos adversos, como distúrbios do sono, irritabilidade e supressão do apetite, os estimulantes continuam sendo uma importante opção terapêutica para o manejo dos sintomas relacionados ao TDAH em pacientes com TEA.
Terapias neuroendocrinológicas
Demonstram potencial para melhorar os sintomas relacionados ao TEA, como comportamentos repetitivos, interação social, regulação emocional e sono. Agentes como bumetanida, canabidiol, oxitocina, tratamentos hormonais e fármacos moduladores de glutamato podem influenciar o equilíbrio entre excitação e inibição neural e o funcionamento social. Por outro lado, suplementos nutricionais, como melatonina e vitamina D, podem oferecer benefícios complementares para o sono e o comportamento.
Apesar de resultados preliminares promissores, essas abordagens permanecem em grande parte experimentais e ainda não foram aprovadas para o tratamento do TEA, necessitando de validação adicional por meio de ensaios clínicos randomizados e controlados de alta qualidade.
Vantagens, limitações e direções de desenvolvimento do tratamento farmacológico
Os tratamentos farmacológicos são eficazes no controle rápido de sintomas comportamentais e emocionais comórbidos do TEA, modulando os sistemas de neurotransmissores, particularmente em indivíduos com distúrbios comportamentais graves. No entanto, seu impacto sobre os sintomas centrais do TEA é limitado e seu uso está associado a potenciais efeitos adversos.
As direções futuras incluem o desenvolvimento de terapias mais direcionadas, estudos longitudinais de longo prazo para avaliar os efeitos sobre os sintomas centrais e a progressão da doença, monitoramento sistemático de reações adversas a medicamentos, modelagem de predição de risco e estratégias de dosagem personalizadas para otimizar a eficácia e minimizar os efeitos colaterais.
Na parte 2 desta série trataremos da compreensão do tratamento não farmacológico.
Autoria

Roberta Esteves Vieira de Castro
Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra
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