Logotipo Afya
Anúncio
Pediatria8 janeiro 2026

Revisão analisa as abordagens terapêuticas para o TEA – Parte 1 

Artigo em duas partes descreve a base teórica e os efeitos terapêuticos de cada método de intervenção no Transtorno do Espectro Autista (TEA)

O transtorno do espectro autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento altamente heterogênea, de início precoce, com curso crônico, altas taxas de incapacidade e considerável impacto socioeconômico, afetando cerca de 1 em cada 100 crianças. Raramente, o TEA se manifesta de forma isolada, coexistindo, frequentemente, com comorbidades psiquiátricas e neurológicas, incluindo transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), ansiedade, distúrbios do sono e do humor, epilepsia e paralisia cerebral, sendo que a maioria dos pacientes apresenta, pelo menos, uma comorbidade.  

Uma revisão publicada no jornal Brain Sciences trouxe uma visão abrangente das intervenções atuais para TEA, servindo como uma referência para a prática clínica e pesquisas futuras, além de promover o desenvolvimento e o estabelecimento de estratégias de intervenção eficazes e personalizadas. Nessa primeira parte, condensamos os principais pontos do tratamento farmacológico.  

Tratamento farmacológico para o TEA 

Por meio da modulação de neurotransmissores, estados emocionais e comportamentos, a abordagem farmacológica alivia e controla os sintomas comórbidos do TEA. Pode ser amplamente categorizado em antipsicóticos atípicosantidepressivosestimulantes e outros medicamentos terapêuticos potenciais, segundo seus mecanismos de ação.   

Antipsicóticos atípicos 

Em pacientes com TEA, modulam as vias da dopamina e da serotonina para reduzir a irritabilidade e a impulsividade. Risperidona aripiprazol são os únicos agentes aprovados pelo órgão americano Food and Drug Administration (FDA). A risperidona é eficaz para o controle de curto prazo da agressividade e irritabilidade graves, enquanto o aripiprazol, com melhor tolerabilidade e menos efeitos metabólicos, é mais adequado para o tratamento em longo prazo: ambos demonstraram superioridade em relação ao placebo em ensaios clínicos. Agentes mais recentes, como brexpiprazolcariprazina lurasidona, estão em investigação, com dados pediátricos preliminares sugerindo tolerabilidade aceitável para a cariprazina, mas eficácia limitada para o brexpiprazol.  

No geral, os antipsicóticos atípicos proporcionam controle rápido do comportamento e uma janela terapêutica para outras intervenções, mas têm impacto limitado nos sintomas centrais do TEA e apresentam riscos de efeitos adversos, incluindo potenciais complicações cardíacas, ganho de peso, sedação e síndrome metabólica.   

Antidepressivos 

São comumente usados ​​no TEA para aliviar a depressão, a ansiedade e os comportamentos repetitivos ou compulsivos comórbidos, aumentando os níveis de serotonina, particularmente os inibidores seletivos da recaptação da serotonina (ISRS). Agentes como sertralinafluoxetina fluvoxamina demonstraram eficácia moderada na redução da desregulação comportamental, dos comportamentos repetitivos, da perseveração e da agressividade, embora os efeitos adversos limitem seu uso, incluindo distúrbios do sono, sintomas gastrointestinais e, ocasionalmente, piora do comportamento. Estão surgindo novos antidepressivos, como a venlafaxina, desvenlafaxina e a vortioxetina, e dados de estudos controlados randomizados sugerem que a venlafaxina em baixa dose pode oferecer uma opção farmacológica adicional promissora para melhorar os sintomas comportamentais.  

Estimulantes 

Aumentam os níveis de dopamina e norepinefrina para melhorar a atenção e o controle dos impulsos, sendo utilizados em pacientes com TEA que apresentam sintomas comórbidos de TDAH, os quais afetam aproximadamente 30% a 50% dessa população. Os agentes mais comuns incluem o metilfenidato medicamentos à base de anfetaminas, com evidências demonstrando que o metilfenidato pode reduzir a desatenção, a impulsividade e a hiperatividade, embora tenha pouco efeito sobre os sintomas centrais do TEA. Apesar do risco de efeitos adversos, como distúrbios do sono, irritabilidade e supressão do apetite, os estimulantes continuam sendo uma importante opção terapêutica para o manejo dos sintomas relacionados ao TDAH em pacientes com TEA.  

Terapias neuroendocrinológicas  

Demonstram potencial para melhorar os sintomas relacionados ao TEA, como comportamentos repetitivos, interação social, regulação emocional e sono. Agentes como bumetanida, canabidiol, oxitocina, tratamentos hormonais e fármacos moduladores de glutamato podem influenciar o equilíbrio entre excitação e inibição neural e o funcionamento social. Por outro lado, suplementos nutricionais, como melatonina e vitamina D, podem oferecer benefícios complementares para o sono e o comportamento.  

Apesar de resultados preliminares promissores, essas abordagens permanecem em grande parte experimentais e ainda não foram aprovadas para o tratamento do TEA, necessitando de validação adicional por meio de ensaios clínicos randomizados e controlados de alta qualidade.  

Vantagens, limitações e direções de desenvolvimento do tratamento farmacológico 

Os tratamentos farmacológicos são eficazes no controle rápido de sintomas comportamentais e emocionais comórbidos do TEA, modulando os sistemas de neurotransmissores, particularmente em indivíduos com distúrbios comportamentais graves. No entanto, seu impacto sobre os sintomas centrais do TEA é limitado e seu uso está associado a potenciais efeitos adversos.  

As direções futuras incluem o desenvolvimento de terapias mais direcionadas, estudos longitudinais de longo prazo para avaliar os efeitos sobre os sintomas centrais e a progressão da doença, monitoramento sistemático de reações adversas a medicamentos, modelagem de predição de risco e estratégias de dosagem personalizadas para otimizar a eficácia e minimizar os efeitos colaterais.  

Na parte 2 desta série trataremos da compreensão do tratamento não farmacológico.

Autoria

Foto de Roberta Esteves Vieira de Castro

Roberta Esteves Vieira de Castro

Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Psiquiatria