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Infectologia20 agosto 2026

AmpC: o que muda no tratamento segundo a IDSA 2026 

Neste artigo analisaremos a atualização de 2026 da IDSA sobre o tratamento de AmpC-E (Enterobacterales produtoras de AmpC)

As β-lactamases AmpC são enzimas produzidas em níveis basais por várias enterobactérias, que participam da reciclagem da parede celular e podem hidrolisar antibióticos β-lactâmicos, alterando a resposta ao tratamento mesmo quando o antibiograma inicial aponta suscetibilidade. A atualização de 2026 da Infectious Diseases Society of America (IDSA) concentra-se, no capítulo de AmpC-E (Enterobacterales produtoras de AmpC), nas espécies com risco moderado de expressão induzível clinicamente significativa e organiza as escolhas terapêuticas a partir do potencial de indução, da estabilidade do antibiótico à hidrólise e do perfil de sensibilidade no antibiograma.

Na prática, a diretriz destaca as espécies Enterobacter cloacae complex, Klebsiella aerogenes (anteriormente chamada de Enterobacter aerogenes), Citrobacter freundii e, com menor experiência clínica, Hafnia alvei. Para o médico que atende em ambulatório, enfermaria ou plantão, a principal consequência é não interpretar a suscetibilidade inicial à ceftriaxona de forma isolada nesses microrganismos, podendo levar à falha terapêutica.

AmpC: o que muda no tratamento segundo a IDSA 2026 

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A diretriz da IDSA redefine o manejo das AmpC-E

O documento foi elaborado por seis especialistas em doenças infecciosas com experiência em resistência antimicrobiana. As recomendações resultam de revisão abrangente da literatura, descrita pelos autores como não necessariamente sistemática, associada à experiência clínica e ao consenso do painel. A metodologia GRADE não foi empregada; por isso, o texto apresenta abordagens sugeridas, sem níveis formais de evidência ou graus de recomendação.

A atualização substitui versões anteriores do guia de resistência antimicrobiana e reflete evidências e consenso disponíveis até 1º de março de 2026. Seu foco é a prática clínica nos Estados Unidos, aspecto importante ao interpretar sua aplicação no contexto brasileiro.

Saiba mais: Infecções por bactérias Gram-negativas multirresistentes: Nova diretriz brasileira

Quais Enterobacterales têm maior risco de AmpC induzível?

Ecloacae complex, K. aerogenes e C. freundii são os microrganismos mais frequentemente associados a risco moderado de produção induzível de AmpC clinicamente significativa; H. alvei pode ser incluída na mesma categoria com base sobretudo em dados in vitro. Nesses agentes, a exposição a determinados β-lactâmicos pode elevar a produção de AmpC e aumentar a concentração inibitória mínima durante o tratamento.

Relatos clínicos indicam emergência de resistência após exposição a fármacos como ceftriaxona em aproximadamente 20% das infecções por E. cloacae, K. aerogenes ou C. freundii. Já Morganella morganii, Providencia spp. e Serratia marcescens parecem apresentar esse fenômeno em menos de 5% das infecções e a escolha do tratamento pode seguir o antibiograma.

Priorize cefepime quando a CIM for até 8 µg/mL

Para E. cloacae complex, K. aerogenes, C. freundii e H. alvei, recomenda-se o uso de cefepime quando a CIM estiver na faixa suscetível ou suscetível dose-dependente, até 8 µg/mL, desde que não tenha sido identificado gene de ESBL. Uma metanálise de 2025 reuniu sete estudos e 1.099 pacientes com bacteremia por diferentes Enterobacterales potencialmente produtores de AmpC e não encontrou diferenças em mortalidade, cura clínica ou recidiva entre cefepime e carbapenêmicos. Entretanto, a análise apresentou heterogeneidade entre estudos, possível confundimento pela preferência por carbapenêmicos em pacientes mais graves e variação entre espécies quanto ao risco real de AmpC.

Saiba mais: Colonização por ESBL e AmpC na leucemia aguda: risco de bacteremia

Ceftriaxona pode selecionar resistência em cerca de 20%

A diretriz sugere evitar o uso de ceftriaxona, cefotaxima e ceftazidima em infecções invasivas pelos microrganismos de risco moderado, mesmo diante de suscetibilidade inicial. Em infecções não graves, se ceftriaxona tiver sido iniciada empiricamente, houver melhora clínica e controle do foco for adequado, o tratamento pode ser completado com a droga.

A incerteza é relevante: não há ensaios clínicos comparando ceftriaxona com alternativas como cefepime nesses casos. Estudos observacionais são heterogêneos, usam diferentes pontos de corte, por vezes misturam espécies com riscos distintos e nem sempre confirmam molecularmente o mecanismo de resistência.

Piperacilina-tazobactam também não é sugerida como opção para tratamento de infecções invasivas por Enterobacterales com risco moderado de AmpC induzível. O painel fundamenta a cautela na proteção limitada do tazobactam contra hidrólise por AmpC e em estudos observacionais que apontaram piores resultados em comparação com cefepime e/ou carbapenêmicos.

Saiba mais: Tratamento antimicrobiano contra bactérias gram-negativas multirresistentes

Se houver suscetibilidade, opções não β-lactâmicas são úteis

Agentes não β-lactâmicos não são substratos das enzimas AmpC e permanecem opções quando o isolado é suscetível, considerando sítio da infecção, gravidade e toxicidade.

Para infecção urinária não complicada por AmpC-E, nitrofurantoína ou TMP-SMX (sulfametoxazol + trimetoprima) são preferidas; aminoglicosídeo em dose única, ciprofloxacino, levofloxacino, pivmecilinam e sulopenem aparecem como alternativas. Na infecção urinária complicada, ciprofloxacino, levofloxacino ou TMP-SMX são preferidos, com aminoglicosídeos e sulopenem como alternativas. Em infecções invasivas, transição oral para ciprofloxacino, levofloxacino ou TMP-SMX pode ser considerada após confirmação da suscetibilidade e estabilidade clínica.

A mensagem prática da diretriz sobre AmpC é reconhecer primeiro a espécie e seu risco de indução de resistência e integrar essa análise durante a avaliação do antibiograma, para que a escolha do tratamento seja assertiva. O cefepime ocupa posição preferencial quando os critérios de suscetibilidade são atendidos, enquanto decisões com ceftriaxona ou piperacilina-tazobactam exigem maior cautela. Como o documento é direcionado ao contexto dos Estados Unidos, sua aplicação à prática brasileira deve preservar essa limitação de escopo.

Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.

Autoria

Foto de Camila Rangel

Camila Rangel

Médica graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 2018. Infectologista pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais de 2019 a 2022. Mestra pela Faculdade de Medicina da UFMG em 2025. Infectologista do Controle de Infecção Hospitalar do HC-UFMG e Auditora Médica da Unimed Federação Minas.

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Referências bibliográficas

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