A neoplasia intraepitelial cervical (NIC) é uma lesão precursora do câncer de colo do útero, e a infecção persistente por HPV de alto risco é considerada o principal fator etiológico do seu desenvolvimento e progressão. As lesões de alto grau, especialmente NIC2 e NIC3, associam-se a risco substancialmente maior de evolução para câncer invasivo quando não tratadas. A excisão eletrocirúrgica com alça (LEEP) é um dos tratamentos mais empregados, sobretudo nas lesões de alto grau.
Apesar da boa eficácia, parte das pacientes apresenta doença recorrente, o que pode implicar novos procedimentos, vigilância prolongada, custos e impacto psicológico. Recorrências de alto grau não detectadas a tempo podem elevar o risco de progressão para câncer. Margens comprometidas, HPV persistente, idade, tabagismo e grau da lesão já foram propostos como preditores, porém os resultados são inconsistentes. Para esclarecer o tema, Ge e colaboradores conduziram uma revisão sistemática com metanálise sobre os fatores de risco de recidiva após LEEP em mulheres com NIC, com o objetivo de apoiar o seguimento individualizado.
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Como a revisão sistemática avaliou os estudos observacionais?
Trata-se de revisão sistemática com metanálise de estudos observacionais (coortes e caso-controle), conduzida segundo o PRISMA, com protocolo registrado previamente no PROSPERO. A busca abrangeu PubMed, Embase, Web of Science, Cochrane Library, Scopus e as bases chinesas CNKI, WanFang e VIP, da criação de cada base até 10 de fevereiro de 2026.
Eram elegíveis estudos com pacientes com NIC submetidas à LEEP, nos quais o desfecho fosse falha do tratamento excisional (doença persistente, residual ou recorrente) e que avaliassem ao menos um fator de risco. Excluíram-se revisões, relatos de caso, resumos de congresso e estudos sem dados suficientes. Dois revisores independentes realizaram seleção, extração e avaliação da qualidade metodológica pela Newcastle–Ottawa Scale, e a certeza da evidência foi classificada pelo GRADE. O desfecho foi a doença recorrente após LEEP segundo cada fator avaliado. Priorizaram-se odds ratios (OR) ajustados, combinados em modelos de efeitos aleatórios; hazard ratios de modelos de Cox não foram agrupados com os OR. A heterogeneidade foi avaliada pelo teste Q de Cochran e pelo I², e o viés de publicação, por gráficos de funil, teste de Egger e método trim-and-fill.
Foram incluídos 17 estudos, com 8.347 pacientes, das quais 1.013 apresentaram doença recorrente. As publicações datam de 2010 a 2024, provêm de China, Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul, Chile, Itália, Canadá, Grécia e Austrália, e a maioria é de coortes retrospectivas. A média ou mediana de idade variou de 31 a 45 anos, e a recorrência foi definida, na maior parte, como NIC2+ após LEEP durante o seguimento. A qualidade foi majoritariamente moderada a alta.
Infecção persistente por HPV de alto risco mostra a associação mais forte com a recorrência
- Infecção persistente por HPV de alto risco teve o maior efeito (OR 10,44; IC95% 7,77–14,03; seis estudos), sem heterogeneidade relevante (I² 0%; p = 0,517).
- Margens cirúrgicas comprometidas (11 estudos) apresentaram OR de 4,55 (IC95% 3,00–6,90), com heterogeneidade moderada (I² 59,5%; p = 0,006).
- Lesões de maior grau estiveram associadas a maior chance de recorrência, com OR de 1,85 (IC95% 1,27–2,70), considerando oito estudos e heterogeneidade (I²) de 39,5%.
- Tabagismo (seis estudos) associou-se ao OR de 2,09 (IC95% 1,34–3,25; I² 54,5%), e o resultado permaneceu estável após exclusão sequencial dos estudos.
- A idade mais avançada, conforme a definição de cada estudo (11 estudos), teve OR de 1,32 (IC95% 1,08–1,61; I² 44,9%); entretanto, após o ajuste pelo método trim-and-fill, a associação com a idade deixou de ser estatisticamente significativa.
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Individualize a vigilância pós-operatória de cada paciente
A principal contribuição do estudo é reforçar que a avaliação do risco de doença residual ou recorrente após LEEP não deve depender exclusivamente do resultado histopatológico das margens cirúrgicas.
A persistência do HPV de alto risco apresentou a associação mais expressiva com falha terapêutica, destacando a importância da testagem viral no acompanhamento após o tratamento de lesões cervicais de alto grau. O comprometimento das margens permanece como informação relevante, mas sua interpretação deve ser integrada aos resultados dos testes de HPV, aos achados citológicos e histopatológicos e às características clínicas da paciente. A presença de margens comprometidas, isoladamente, não determina a necessidade de nova excisão.
O grau da lesão e o tabagismo também podem refinar a intensidade do seguimento e o aconselhamento, incluindo orientação para cessação do tabagismo no pós-operatório. Por outro lado, os achados relativos à idade devem ser interpretados com maior cautela, considerando a possibilidade de viés de publicação e a perda de significância estatística após a análise de ajuste.
Embora a revisão tenha incluído mais de oito mil pacientes, a certeza das evidências permaneceu baixa a moderada. Portanto, os resultados são úteis para identificar associações prognósticas, mas não permitem estabelecer isoladamente novos protocolos de seguimento ou definir quais pacientes devem ser submetidas a novo procedimento excisional.
É importante ressaltar que o Brasil não consta entre os locais dos estudos incluídos e que os autores indicam a necessidade de estudos prospectivos de maior porte para confirmar essas associações. A principal mensagem para a prática clínica é que a persistência do HPV de alto risco após o tratamento excisional constitui um importante marcador de maior chance de doença residual ou recorrente, enquanto a avaliação das margens cirúrgicas e de outros fatores clínicos contribui para complementar a estratificação de risco.
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Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.
Autoria

Sérgio Okano
Conteudista médico na Afya. Formado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), com residência médica em Ginecologia e Obstetrícia e na área de atuação em Sexologia. Possui mestrado e doutorado pela mesma instituição. Atende no serviço público, particular e trabalha com graduação médica e residência.
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