Um artigo intitulado HPV vaccination following cervical intraepithelial neoplasia grade 2 diagnosis and risk of progression, foi recentemente publicado na revista Acta Obstetricia et Gynecologica Scandinavica, com objetivo de avaliar se a vacinação contra o HPV após o diagnóstico de neoplasia intraepitelial cervical grau 2 (NIC2) está associada à redução do risco de progressão para neoplasia intraepitelial cervical grau 3 ou pior (NIC3+), além de investigar o impacto sobre o risco de outras lesões anogenitais associadas ao HPV.
A vacinação contra o HPV é altamente eficaz na prevenção do câncer do colo do útero quando realizada antes da exposição ao vírus. Entretanto, mulheres já diagnosticadas com lesões cervicais de alto grau apresentam maior risco de recorrência e de progressão da doença. Na prática clínica, alguns profissionais têm recomendado a vacinação após o diagnóstico de NIC, com a hipótese de potencial benefício terapêutico ou imunológico. No entanto, as evidências sobre esse possível efeito protetor são limitadas. Considerando que a vigilância ativa para NIC2 é uma estratégia crescente, especialmente em mulheres jovens com desejo reprodutivo, torna-se fundamental compreender se a vacinação nesse contexto poderia reduzir o risco de progressão para lesões mais graves.

Metodologia
Trata-se de estudo de coorte histórica, populacional e nacional realizado na Dinamarca, incluindo mulheres entre 18 e 40 anos com diagnóstico de NIC2 entre 2007 e 2020 e submetidas à vigilância ativa. Foram comparadas mulheres que receberam ao menos uma dose da vacina contra HPV em até 6 meses após o diagnóstico com aquelas não vacinadas. O desfecho primário foi progressão para NIC3 ou pior. Foram utilizados modelos de regressão de Cox para estimar hazard ratios ajustados para idade, ano do diagnóstico, citologia inicial, renda e escolaridade.
Resultados
Foram incluídas 4585 mulheres, das quais 583 (12,7%) receberam vacinação após o diagnóstico de NIC2. Durante o seguimento, 1391 mulheres (30,3%) evoluíram para NIC3+, incluindo 18 casos de câncer cervical (0,4%). O risco cumulativo de progressão em cinco anos foi de 29,9%. Entre as vacinadas, o risco de progressão foi de 33,7%, enquanto entre as não vacinadas foi de 29,3%. Após ajuste para fatores de confusão, não houve efeito protetor da vacinação, sendo observada associação com maior risco de progressão (aHR 1,45; IC95% 1,24–1,69). Em mulheres menores de 30 anos, o risco foi ainda maior entre vacinadas (aHR 1,58; IC95% 1,32–1,89), enquanto não houve diferença significativa em mulheres com 30 anos ou mais.
Discussão
Os resultados sugerem ausência de benefício terapêutico da vacinação contra HPV quando administrada após o diagnóstico de NIC2. O aparente aumento do risco de progressão entre mulheres vacinadas provavelmente reflete viés de indicação e fatores de confusão não mensurados, como comportamento sexual, tabagismo e características das lesões. Os achados reforçam o caráter profilático da vacina contra HPV, cujo benefício é maior quando administrada antes da exposição ao vírus e do desenvolvimento de lesões cervicais.
Em conclusão, a vacinação contra HPV após o diagnóstico de NIC2 não reduz o risco de progressão para NIC3 ou pior em mulheres em vigilância ativa. Dessa forma, a vacinação não deve ser indicada com finalidade terapêutica nesse cenário, sendo essencial orientar as pacientes quanto à importância da adesão ao seguimento clínico e às recomendações de tratamento.
Autoria

Ênio Luis Damaso
Doutor em Ciências Médicas pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP) ⦁ Professor no Curso de Medicina da Universidade Nove de Julho de Bauru (UNINOVE).
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