A violência doméstica e sexual não deixa marcas apenas onde a agressão aconteceu. Seus efeitos podem permanecer no corpo por meses ou até anos, atravessando a saúde ginecológica, sexual e reprodutiva da mulher. Dor pélvica crônica, infecções recorrentes, alterações menstruais, disfunções sexuais, gestações não planejadas e complicações obstétricas estão entre as possíveis repercussões de uma história de violência.
O tema ganha ainda mais relevância durante o Agosto Lilás, campanha de conscientização, prevenção e enfrentamento à violência contra a mulher. Em 2026, a mobilização acontece no ano em que a Lei Maria da Penha completa 20 anos, reforçando a necessidade de discutir não apenas a prevenção da violência, mas também suas consequências de longo prazo para a saúde.
A própria Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), por meio da campanha #EuVejoVocê, chama atenção para a violência contra a mulher em diferentes fases da vida e para a importância da atuação dos profissionais de ginecologia e obstetrícia nesse enfrentamento.
Segundo a ginecologista Dra. Adriene Ferreira, a exposição repetida a agressões pode produzir repercussões físicas e psicológicas que se prolongam mesmo depois que o episódio de violência termina. “A violência doméstica e sexual pode impactar profundamente a integridade física, mental e psicológica da mulher, ocasionando marcas crônicas de natureza ginecológica e reprodutiva que se estendem ao longo da vida”, explica.
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Quando a violência aparece no corpo
Nem sempre existe uma lesão evidente. Algumas consequências se manifestam como sintomas persistentes, que podem ser tratados isoladamente sem que a origem esteja necessariamente identificada.
Entre as repercussões ginecológicas associadas a situações de violência estão dor pélvica crônica, infecções sexualmente transmissíveis, candidíase recorrente, alterações menstruais e disfunções sexuais, como vaginismo e dor durante a relação sexual. O trauma também pode repercutir sobre o desejo sexual e sobre a relação da mulher com o próprio corpo.
Para Dra. Adriene, o componente psicológico não pode ser separado dessas manifestações. Medo, estresse e exposição contínua a situações de ameaça podem contribuir para a manutenção ou agravamento de sintomas físicos.
No campo reprodutivo, as consequências também podem ser importantes. Infecções e processos inflamatórios pélvicos podem comprometer a fertilidade, enquanto a violência durante a gestação está associada a maior vulnerabilidade obstétrica, incluindo perdas gestacionais e parto prematuro.
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Violência também pode significar controle sobre a reprodução
A violência contra a mulher nem sempre assume a forma de uma agressão física. Ela também pode acontecer quando o parceiro interfere deliberadamente nas decisões sobre contracepção, gravidez e sexualidade.
Essa prática é conhecida como coerção reprodutiva. O agressor pode esconder ou impedir o uso de contraceptivos, furar preservativos, pressionar pela gravidez ou dificultar que a mulher tenha acesso a consultas e serviços de saúde.
“Parceiros agressores frequentemente escondem pílulas, furam preservativos ou proíbem o uso de métodos contraceptivos. O isolamento social também impede a mulher de ir a consultas médicas, enquanto o medo da agressão não permite que ela exija o uso de preservativos”, afirma a ginecologista.
O resultado pode ser uma gravidez não planejada em um contexto no qual a mulher já tem sua autonomia comprometida. Durante a gestação, o controle pode continuar por meio da dificuldade de acesso ao pré-natal e aos serviços de saúde.
Segundo a especialista, o medo e o estresse associados à violência, somados à ausência de assistência adequada, podem aumentar a vulnerabilidade da mulher e trazer consequências para o acompanhamento da gestação e do parto. Além dos impactos físicos, a violência pode dificultar o acesso regular aos cuidados de saúde e comprometer a capacidade da mulher de participar das decisões sobre sua própria gestação.
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O consultório pode revelar o que não foi dito
A violência também pode aparecer de forma indireta durante uma consulta ginecológica. Queixas como dor pélvica persistente, infecções recorrentes, dor durante as relações sexuais e traumas sem explicação clara podem funcionar como sinais de alerta.
A médica também chama atenção para aspectos comportamentais. Baixa adesão ao pré-natal, ansiedade e a presença de um parceiro que tenta responder por ela, controla suas atitudes ou impede que fale livremente podem indicar uma situação de violência.
Isso não significa presumir que toda paciente com esses sinais esteja sendo vítima de agressão. O ponto é criar espaço para que essa possibilidade possa ser reconhecida e, se necessário, investigada com cuidado.
Para Dra. Adriene, a abordagem deve começar pela segurança. “O atendimento precisa ser pautado no acolhimento, no respeito à autonomia da mulher e na criação de um ambiente seguro”, diz. Privacidade, escuta ativa e ausência de julgamentos são fundamentais para que a paciente tenha condições de falar sobre o que está vivendo.
O cuidado não termina depois da urgência
Nos casos de violência sexual, o atendimento inicial pode envolver medidas como profilaxia para infecções sexualmente transmissíveis, prevenção da infecção pelo HIV e contracepção de emergência, quando indicada. Mas a assistência precisa continuar depois desse primeiro momento.
“A mulher necessita de um acompanhamento intersetorial continuado que promova sua reabilitação física, psicológica e social”, afirma.
Esse acompanhamento pode incluir tratamento de dores e infecções recorrentes, atenção à saúde mental, acompanhamento ginecológico, planejamento reprodutivo e suporte psicoterapêutico, além de encaminhamentos para os serviços que integram a rede de proteção.
A atuação do ginecologista, portanto, não se resume a identificar uma lesão ou tratar um sintoma. O profissional pode ajudar a reconhecer padrões, oferecer informação, preservar a autonomia da paciente e conectá-la aos serviços capazes de garantir proteção e continuidade do cuidado.
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Uma marca que não aparece no exame
A violência doméstica pode desaparecer da superfície do corpo muito antes de desaparecer da vida da mulher. Seus efeitos podem permanecer na sexualidade, na relação com o próprio corpo, no desejo de ter filhos e na capacidade de tomar decisões sobre a própria saúde.
A dimensão desse impacto também aparece em estudo de 2026 baseado em dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019. A pesquisa encontrou associação entre vitimização conjugal e pior percepção do próprio estado de saúde, além de repercussões físicas e mentais, como lesões, ansiedade, depressão e problemas ginecológicos e de saúde reprodutiva.
Por isso, falar sobre violência no consultório não significa apenas perguntar sobre agressões. Significa reconhecer que determinadas queixas podem carregar uma história que a paciente ainda não conseguiu, ou não se sentiu segura para, contar.
É também reconhecer que a violência pode atingir a mulher em uma dimensão particularmente íntima: sua autonomia para decidir sobre o próprio corpo, sua sexualidade e sua reprodução.
No Agosto Lilás, ampliar esse olhar é parte do enfrentamento. Porque cuidar das consequências da violência também significa devolver à mulher algo que a própria violência tenta retirar: autonomia sobre o corpo, sobre a saúde e sobre as escolhas que dizem respeito à própria vida.
Autoria

Roberta Santiago
Roberta Santiago é jornalista desde 2010 e estudante de Nutrição. Com mais de uma década de experiência na área digital, é especialista em gestão de conteúdo e contribui para o Portal trazendo novidades da área da Saúde.
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