A gravidez na adolescência, por si só, já representa um desafio clínico e social relevante. Quando essa gestação é resultado de violência sexual, o cuidado médico exige ainda mais atenção, preparo técnico e sensibilidade. Nesse contexto, o papel do médico vai muito além do acompanhamento obstétrico: envolve acolhimento, proteção, escuta qualificada e respeito absoluto aos direitos da adolescente.
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Segundo a ginecologista e obstetra Adriene Ferreira, é fundamental que, logo no início do atendimento, o profissional diferencie as circunstâncias em que a gravidez ocorreu. “O consentimento dado por um adolescente deve sempre ser questionado, porque a capacidade de autonomia ainda está em construção. Além disso, a legislação brasileira define como estupro de vulnerável, qualquer ato sexual envolvendo menores de 14 anos, independentemente de consentimento”, explica.
Essa distinção não é apenas jurídica: ela orienta toda a abordagem clínica e ética. Identificar se a gestação decorre de violência sexual ou estupro de vulnerável permite que o médico siga corretamente os protocolos de proteção, realize a notificação compulsória e informe a paciente sobre seus direitos, incluindo a possibilidade de aborto legal nos casos previstos em lei.
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Escuta e do acolhimento na gravidez na adolescência
O primeiro contato costuma ser um dos momentos mais delicados. Para muitos médicos, especialmente fora da ginecologia, a insegurança é comum. Nessa etapa, a orientação é clara: empatia, privacidade e ausência total de julgamentos. “Estabelecer uma boa relação médico-paciente é essencial para que essa adolescente se sinta segura e protegida. O acolhimento é a base de todo o cuidado”, destaca Dra. Adriene.
Evitar a revitimização significa permitir que a jovem fale no seu tempo, respeitar silêncios e jamais minimizar o sofrimento relatado. A escuta qualificada não é apenas um gesto humanizado, mas parte fundamental do cuidado em saúde.
Riscos físicos e impactos emocionais
Do ponto de vista clínico, a gravidez na adolescência é considerada de alto risco. Quando associada à violência sexual, os impactos podem ser ainda mais profundos. Entre as principais complicações estão parto prematuro, baixo peso ao nascer, maior risco de pré-eclâmpsia e aumento das taxas de cesariana. Soma-se a isso o risco de desnutrição, anemia e transtornos emocionais como depressão, isolamento social e evasão escolar, por parte dessa mãe.
Diante desse cenário, a atuação de uma equipe multidisciplinar é fundamental. O acompanhamento pré-natal deve integrar assistência médica, psicológica e social, garantindo suporte contínuo à adolescente.
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Família, conflitos e rede de apoio
O atendimento raramente envolve apenas a paciente. A família, muitas vezes também fragilizada, pode apresentar negação da violência, conflitos ou sofrimento intenso. Para a especialista, o médico precisa compreender esse contexto sem perder de vista o melhor interesse da adolescente. “O apoio familiar é essencial, tanto emocionalmente quanto para garantir adesão ao pré-natal e continuidade do cuidado”, afirma.
Além disso, é importante olhar para além da gestação: apoiar a retomada dos estudos, reduzir o isolamento social e orientar sobre planejamento reprodutivo fazem parte de um cuidado verdadeiramente integral.
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Pós-parto: o cuidado não termina no nascimento
Os desafios persistem após o parto. O acompanhamento no puerpério deve incluir atenção à saúde mental, planejamento reprodutivo e suporte psicológico. A depressão pós-parto tem alta prevalência nessa população e pode ser agravada pela ausência de rede de apoio e por dificuldades socioeconômicas. Manter o vínculo com os serviços de saúde é essencial para reduzir riscos futuros.
Formação médica e responsabilidade ética
Para Dra. Adriene Ferreira, todo médico precisa estar minimamente preparado para lidar com situações como essa. “A gravidez na adolescência envolve múltiplas questões éticas, médicas e sociais. O profissional precisa exercer escuta ativa, empatia e acolhimento, sem julgamentos, avaliando a adolescente de forma integral, não apenas do ponto de vista obstétrico”.
Na Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência, a reflexão é clara: acolher uma jovem grávida vítima de violência sexual é um dever ético, legal e humano. E começa, sempre, por uma escuta atenta e responsável.
Autoria

Redação Afya
Produção realizada por jornalistas da Afya, em colaboração com a equipe de editores médicos.
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