Com o envelhecimento populacional, é comum que doenças crônicas, como hipertensão, diabetes ou síndromes demenciais, se tornem mais frequentes. Muitas vezes, essas condições não ocorrem de forma isolada, mas em associação. Quando pelo menos duas delas estão presentes ao mesmo tempo, isso pode ser chamado de multimorbidade ou múltiplas comorbidades. Essa condição tem sido associada a desfechos desfavoráveis ao longo do tempo, incluindo pior funcionamento diário, maior mortalidade e aumento do risco de prejuízo cognitivo.
A cognição envolve diferentes domínios, como atenção, linguagem, memória, habilidade visuoespacial e função executiva. Quando há déficit cognitivo e essas funções se alteram, não há cura. No entanto, a identificação de fatores de risco pode contribuir para retardar o início do quadro ou sua progressão. Nesse contexto, diversos estudos já avaliaram a relação entre doenças específicas e desfechos cognitivos, mas a associação entre multimorbidade e prejuízo cognitivo ainda não havia sido sintetizada de forma abrangente. Para aprofundar esse tema, Bai J et al. conduziram uma revisão sistemática com metanálise, publicada na revista Psychiatry Research em março de 2026.
Métodos
Seguindo as recomendações do PRISMA, os autores realizaram uma busca em seis bases de dados: PubMed, Web of Science, Embase, Cochrane Library, CINAHL e Scopus. A busca incluiu publicações disponíveis até julho de 2025. Foram avaliados estudos de coorte prospectivos ou retrospectivos, com participantes livres de prejuízo cognitivo no início do acompanhamento. Foram excluídos estudos publicados em idiomas diferentes do inglês, com participantes com menos de 50 anos ou com seguimento inferior a dois anos.
Ao todo, 18 estudos foram incluídos na revisão sistemática e 17 na metanálise. Como apenas estudos longitudinais de coorte foram avaliados, o número de trabalhos elegíveis foi menor, o que limitou algumas análises de subgrupo. Os autores também identificaram heterogeneidade entre os estudos, provavelmente relacionada a diferenças nas populações avaliadas, nos métodos de mensuração e nas estratégias de análise. Outro ponto importante é que poucos estudos especificaram o subtipo de demência avaliado.
Resultados e Discussão
Os resultados mostraram evidências longitudinais de que a multimorbidade aumenta o risco de prejuízo cognitivo. Esse risco cresce progressivamente conforme aumenta o número de doenças crônicas associadas. No artigo, os padrões de multimorbidade foram agrupados em quatro categorias principais: condições relacionadas à saúde mental, condições cardiometabólicas, condições ligadas a tumores e condições relacionadas à inflamação. Entre elas, o padrão ligado à saúde mental apresentou a maior associação com prejuízo cognitivo, seguido pelo padrão cardiometabólico. Dentro das combinações cardiometabólicas, a coexistência de diabetes, AVC e doença cardíaca conferiu o maior risco.
A metanálise indicou que pessoas com multimorbidade tiveram risco 49% maior de prejuízo cognitivo em comparação com aquelas sem essa condição. Esse achado pode ser explicado por diferentes mecanismos que se sobrepõem, como disfunção vascular, neurodegeneração, estresse oxidativo, inflamação crônica, alterações metabólicas, desregulação hormonal, ativação do sistema imunológico, deficiências nutricionais, alterações mitocondriais e polifarmácia.
Muitas doenças crônicas compartilham fatores de risco e vias fisiopatológicas. Por isso, sua coexistência pode acelerar o declínio cognitivo. Além disso, quando a multimorbidade envolve múltiplos sistemas do organismo, pode haver maior contribuição para uma neuropatologia mista do que quando há apenas uma condição isolada. Esses achados reforçam a importância do manejo precoce das doenças crônicas, tanto para prevenir a progressão para multimorbidade quanto para reduzir o risco de declínio cognitivo.
Na análise por subgrupos, os autores observaram que participantes com menos de 65 anos apresentaram maior risco de prejuízo cognitivo associado à multimorbidade. Condições que podem surgir na meia idade, como depressão, diabetes e hipertensão, são reconhecidas como fatores relevantes para o risco de demência. Assim, o aparecimento precoce de múltiplas doenças crônicas na vida adulta parece ter uma associação mais forte com demência posterior. A velocidade de progressão das condições também parece influenciar esse risco, com maior vulnerabilidade entre indivíduos que acumulam doenças mais rapidamente. Esses dados reforçam a importância de estratégias preventivas na meia idade.
A seguir serão apresentadas as associações por padrões de multimorbidades:
- Transtornos mentais
Entre os padrões de multimorbidade, as condições relacionadas à saúde mental apresentaram a associação mais forte com prejuízo cognitivo. Estudos incluídos na revisão apontam que adultos com esquizofrenia, transtorno bipolar ou depressão maior têm risco aumentado de demência. Os transtornos mentais podem atuar como pródromo, comorbidades ou fatores de risco independentes para declínio cognitivo. Algumas alterações neurais, especialmente a perda de massa cinzenta, podem estar envolvidas nesse processo.
Depressão e ansiedade também podem contribuir para o risco cognitivo por meio da desregulação neuroendócrina relacionada ao estresse, atrofia hipocampal e inflamação sistêmica. Além disso, transtornos mentais podem influenciar comportamentos de saúde que modulam o risco de demência. A presença de multimorbidade em saúde mental foi associada a pior recuperação do prejuízo cognitivo, maior risco de demência e menor expectativa de vida. Esses achados sugerem que o manejo adequado de múltiplas condições em saúde mental é importante não apenas para a cognição, mas também para a funcionalidade e a sobrevida.
O artigo também destaca que a presença isolada de uma doença física ou mental pode não aumentar substancialmente o risco de demência, enquanto a coexistência de condições físicas e psicológicas parece elevar esse risco de forma importante. Esse ponto reforça a necessidade de avaliar conjuntamente a saúde física e mental, especialmente em indivíduos com maior risco de demência de início precoce.
Um estudo indica que a presença de uma única doença física ou mental sozinhas não aumentam o risco de demência, mas a presença de condições que ocorrem ao mesmo tempo, aumentam substancialmente. Os transtornos mentais seriam particularmente relevantes para a demência de início precoce, ressaltando a necessidade de avaliar conjuntamente condições físicas e mentais.
- Condições cardiometabólicas
O segundo padrão mais associado ao prejuízo cognitivo foi o cardiometabólico. Condições como diabetes, AVC e doença cardiovascular estiveram relacionadas a maior risco de demência. O diabetes pode acelerar o declínio cognitivo por mecanismos como lesão microvascular, inflamação crônica, disfunção endotelial e alteração da barreira hematoencefálica. Já a hipertensão e a doença coronariana podem contribuir para piora cognitiva ao favorecer ativação plaquetária, processos trombóticos e redução do débito cardíaco.
Inflamação crônica, menor débito cardíaco e prejuízos metabólicos são possíveis vias que conectam a multimorbidade cardiometabólica ao declínio cognitivo. Esses mecanismos frequentemente interagem entre si, ampliando o impacto sobre a neurodegeneração. Mediadores inflamatórios podem atravessar a barreira hematoencefálica e desencadear processos de neuroinflamação capazes de causar lesão neuronal. Estudos de imagem também sugerem associação entre multimorbidade cardiometabólica e menor volume cerebral.
Diabetes, AVC e doença cardíaca podem contribuir para arteriosclerose cerebral, pior perfusão, isquemia, lesão de substância branca e microinfartos. Essas alterações comprometem redes cognitivas importantes. Além disso, alterações no metabolismo da glicose e dos lipídeos, especialmente a resistência insulínica, podem acelerar o acúmulo de beta amiloide e proteína tau. Fatores genéticos compartilhados também podem contribuir para a ocorrência simultânea de doenças cardiometabólicas e demência.
Quando avaliadas em combinação, as três condições cardiometabólicas pesquisadas, diabetes, AVC e doença cardíaca, apresentaram o maior risco de prejuízo cognitivo, sugerindo efeito cumulativo. No entanto, as combinações em pares ainda precisam ser mais bem investigadas, especialmente devido à heterogeneidade entre os estudos.
- Tumores
O padrão relacionado aos tumores foi avaliado com um aumento de risco de 43% de prejuízo cognitivo. Um dos estudos incluídos observou que indivíduos com multimorbidade envolvendo câncer ou prejuízos sensoriais tiveram menor chance de recuperação do comprometimento cognitivo e maior risco de progressão para demência.
A relação entre tumores e demência é complexa, sendo influenciada pelo tipo de tumor, sua localização e formas de tratamento. Algumas quimioterapias e terapias adjuvantes podem ter efeito neurotóxico, contribuindo para acelerar o declínio cognitivo. Câncer e doença de Alzheimer também compartilham algumas características, como início relacionado à idade, prejuízo de memória, lentificação psicomotora e atrofia do hipocampo e do lobo frontal, o que sugere possível sobreposição de vias biológicas. Para sobreviventes de câncer, intervenções voltadas à cognição podem ajudar a mitigar ou retardar esse declínio.
- Inflamação
O padrão relacionado à inflamação, que inclui doenças autoimunes como artrite reumatoide, apresentou uma possível associação com prejuízo cognitivo. No entanto, os autores ressaltam que essa análise deve ser interpretada com cautela, pois houve alta heterogeneidade entre os estudos. Embora a inflamação sistêmica e o envolvimento neurológico tenham sido propostos como possíveis mecanismos, ainda não está claro como a artrite reumatoide poderia contribuir para o prejuízo cognitivo. As evidências disponíveis permanecem inconsistentes.
Uma das análises citadas no artigo apontou que níveis elevados de proteína C reativa em doenças autoimunes podem estar associados a maior risco de doença de Alzheimer em fases posteriores. Esses achados reforçam a importância do controle da inflamação crônica em pacientes com doenças autoimunes, embora novos estudos sejam necessários para esclarecer melhor as vias que conectam condições inflamatórias ao declínio cognitivo.

Conclusão
Ao final da revisão, os autores concluíram que a multimorbidade está consistentemente associada a maior risco de prejuízo cognitivo, com aumento progressivo do risco conforme cresce o número de doenças crônicas. Entre os padrões avaliados, as condições relacionadas à saúde mental e as cardiometabólicas apresentaram as associações mais fortes.
Esses resultados destacam a importância de uma abordagem da multimorbidade ao longo da vida. O manejo oportuno de doenças crônicas isoladas pode ajudar a prevenir sua progressão para multimorbidade. Já em pessoas que vivem com múltiplas condições, o cuidado coordenado é essencial para lidar com as interações entre doenças e tentar reduzir o risco de declínio cognitivo. Atenção especial deve ser dada a indivíduos com multimorbidade em saúde mental, multimorbidade cardiometabólica ou combinação de condições físicas e psicológicas, grupos que parecem apresentar risco particularmente elevado.
Autoria

Paula Benevenuto Hartmann
Médica pela Universidade Federal Fluminense (UFF) ⦁ Psiquiatra pelo Hospital Universitário Antônio Pedro/UFF ⦁ Mestranda em Psiquiatria e Saúde Mental pela Universidade do Porto, Portugal.
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