Os distúrbios da oxidação de ácidos graxos de cadeia longa (LC-FAOD) formam um grupo de erros inatos do metabolismo potencialmente graves, caracterizados pela incapacidade de utilizar adequadamente os ácidos graxos de cadeia longa como fonte energética durante períodos de jejum ou estresse metabólico. Embora raros, esses distúrbios podem se manifestar desde os primeiros dias de vida com hipoglicemia, cardiomiopatia, arritmias e insuficiência hepática, além de evoluir com rabdomiólise e miopatia recorrentes na infância e na vida adulta. Uma nova diretriz internacional publicada no Journal of Inherited Metabolic Disease busca padronizar o diagnóstico, o tratamento e o acompanhamento desses pacientes ao longo da vida.
Quais doenças estão incluídas nos LC-FAOD?
A diretriz contempla os principais defeitos da beta-oxidação mitocondrial de ácidos graxos de cadeia longa, incluindo:
- Deficiência de VLCAD;
- Deficiência de LCHAD;
- Deficiência da proteína trifuncional mitocondrial (TFP);
- Deficiência de CPT1;
- Deficiência de CPT2;
- Deficiência de CACT.
Apesar de compartilharem mecanismos fisiopatológicos semelhantes, essas doenças apresentam ampla variabilidade clínica, desde indivíduos assintomáticos identificados pela triagem neonatal até recém-nascidos com descompensação metabólica grave.
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Quando o pediatra deve suspeitar do diagnóstico?
Segundo a diretriz, os LC-FAOD devem fazer parte do diagnóstico diferencial de crianças com:
- Hipoglicemia hipocetótica;
- Cardiomiopatia sem causa definida;
- Arritmias cardíacas;
- Hepatopatia;
- Hiperamonemia;
- Rabdomiólise recorrente;
- Intolerância ao jejum;
- Morte súbita infantil sem explicação aparente.
O documento também reforça que casos sintomáticos podem se manifestar antes mesmo da disponibilidade do resultado da triagem neonatal, o que exige elevado grau de suspeição clínica por parte do pediatra e do neonatologista.
A triagem neonatal mudou o cenário dos pacientes com LC-FAOD
Um dos temas centrais da diretriz é o impacto da expansão da triagem neonatal. O rastreamento permitiu identificar um número crescente de crianças oligossintomáticas ou assintomáticas, ampliando significativamente o espectro clínico conhecido dessas doenças.
Entretanto, os autores alertam para um novo desafio: diferenciar pacientes que desenvolverão manifestações clínicas daqueles que apresentam apenas alterações bioquímicas, com baixo potencial de doença ao longo da vida. Por isso, a confirmação diagnóstica deve combinar avaliação clínica, perfil de acilcarnitinas, testes moleculares e, quando disponíveis, estudos funcionais enzimáticos.
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Evitar o jejum continua sendo o principal tratamento
Embora novas terapias tenham surgido nos últimos anos, a prevenção do catabolismo permanece como o pilar do manejo.
A diretriz recomenda que recém-nascidos com suspeita de LC-FAOD não permaneçam mais de três horas sem alimentação enquanto aguardam a confirmação diagnóstica. Após o diagnóstico, os períodos máximos de jejum devem ser individualizados conforme a idade, a estabilidade clínica e a gravidade da doença.
Durante infecções ou outras situações de estresse metabólico, deve-se reduzir ainda mais os intervalos entre as refeições, aumentar a oferta de carboidratos e implementar protocolos específicos para a prevenção de descompensação metabólica.
A terapia nutricional é mais individualizada do que se imaginava
Uma das mudanças conceituais trazidas pelo documento é a necessidade de adaptar o tratamento à gravidade do fenótipo.
Pacientes com formas leves identificadas pela triagem neonatal podem manter dieta praticamente normal, desde que permaneçam assintomáticos e sob monitorização. Já os pacientes sintomáticos frequentemente necessitam de:
- Restrição de gorduras de cadeia longa;
- Suplementação com triglicerídeos de cadeia média (MCT);
- Monitorização de ácidos graxos essenciais;
- Suplementação nutricional específica.
A diretriz também reforça que o aleitamento materno deve ser preservado sempre que possível, inclusive em muitos pacientes diagnosticados pela triagem neonatal, desde que haja acompanhamento especializado da equipe metabólica.
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As complicações dos LC-FAOD não desaparecem após o diagnóstico
Mesmo com a identificação precoce pela triagem neonatal, as complicações de longo prazo continuam sendo uma preocupação importante.
A diretriz recomenda monitorização periódica para:
- Cardiomiopatia e arritmias;
- Neuropatia periférica;
- Miopatia crônica;
- Rabdomiólise recorrente;
- Retinopatia, especialmente nas deficiências de LCHAD e TFP.
Entre os exames de acompanhamento, destacam-se eletrocardiograma, ecocardiograma, monitorização laboratorial e avaliações neurológicas e oftalmológicas seriadas.
O que essa diretriz muda para a prática pediátrica?
A principal mensagem para o pediatra é que os LC-FAOD não devem ser vistos apenas como doenças detectadas pela triagem neonatal. Hipoglicemia hipocetótica, cardiomiopatia inexplicada, rabdomiólise recorrente e intolerância ao jejum continuam sendo sinais de alerta fundamentais para a investigação de um erro inato do metabolismo.
Além disso, a diretriz reforça que o diagnóstico precoce precisa ser acompanhado por estratificação de gravidade e seguimento contínuo, uma vez que complicações cardíacas, neurológicas e oftalmológicas podem surgir mesmo em pacientes diagnosticados precocemente. O documento representa a primeira tentativa global de harmonizar o cuidado desses pacientes e fornece um roteiro prático para pediatras, neonatologistas e especialistas em doenças metabólicas.
Autoria

Jôbert Neves
Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Realizou residência em Pediatria e especialização em Gastroenterologia Pediátrica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP). Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e experiência internacional como observer no SickKids, University of Toronto. Atuou ainda como Coordenador Young LASPGHAN do Grupo de Trabalho em Probióticos e Microbiota.
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