A vacinação materna contra o vírus sincicial respiratório (VSR) tornou-se uma importante estratégia para prevenir infecções graves nos primeiros meses de vida. Entretanto, desde os estudos de desenvolvimento clínico, preocupações relacionadas a um possível aumento do risco de prematuridade têm acompanhado a implementação dessa estratégia.
Uma nova revisão sistemática com metanálise, publicada na revista Immunity, Inflammation and Disease, buscou esclarecer essa questão ao avaliar a associação entre vacinação materna contra o VSR, parto prematuro e necessidade de internação em unidade de terapia intensiva neonatal (UTIN).
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Metanálise avalia vacinação materna contra VSR na gestação
Os autores realizaram uma revisão sistemática de estudos que avaliaram vacinas RSV-preF administradas durante a gestação. Foram incluídos sete estudos, sendo três ensaios clínicos randomizados e quatro estudos observacionais, totalizando 19.178 nascimentos.
Os desfechos primários analisados foram:
- Parto prematuro (antes de 37 semanas);
- Admissão em unidade de terapia intensiva neonatal (UTIN).
A vacinação materna contra VSR aumenta o risco de prematuridade?
A análise conjunta de todos os estudos não identificou associação significativa entre a vacinação materna contra o VSR e o parto prematuro.
O risco relativo combinado foi de:
- RR 0,96 (IC 95% 0,68–1,38).
Na prática, esses resultados sugerem que a vacinação materna não esteve associada a um aumento global do risco de nascimento prematuro. Entretanto, os autores classificaram a qualidade global da evidência como baixa, devido à heterogeneidade entre os estudos e à imprecisão dos resultados.
Compare os resultados dos ensaios clínicos randomizados
Um dos achados mais relevantes do estudo surgiu na análise por desenho metodológico.
Nos ensaios clínicos randomizados, os autores identificaram um aumento estatisticamente significativo na ocorrência de parto prematuro:
- RR 1,26 (IC 95% 1,08–1,46).
Por outro lado, os estudos observacionais não demonstraram aumento do risco:
- RR 0,78 (IC 95% 0,46–1,32).
Segundo os autores, essa divergência pode ser explicada por diferenças no momento da vacinação. Nos ensaios clínicos, algumas participantes receberam a vacina a partir de 24 semanas de gestação, enquanto os estudos observacionais refletiram, com maior frequência, o uso atualmente aprovado, geralmente entre 32 e 36 semanas.
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A internação em UTIN não apresentou aumento significativo
Dois estudos, que incluíram 3.620 recém-nascidos, avaliaram a necessidade de admissão em UTIN.
A metanálise não identificou aumento significativo desse desfecho:
- RR 0,74 (IC 95% 0,34–1,61).
Contudo, os autores destacam que a evidência apresentou qualidade muito baixa, devido ao pequeno número de estudos e à ampla variabilidade dos resultados. Portanto, não é possível tirar conclusões definitivas sobre esse desfecho.
Se houver risco de infecção grave, a prevenção do VSR em lactentes ganha relevância
Do ponto de vista pediátrico, o estudo traz uma mensagem importante. Os dados atualmente disponíveis não demonstram aumento consistente do risco global de prematuridade associado à vacinação materna contra o VSR.
Esse achado é particularmente relevante porque a prematuridade é um dos principais fatores de risco para hospitalização e formas graves de infecção por VSR nos primeiros meses de vida. Assim, estratégias capazes de prevenir doenças graves sem comprometer a segurança neonatal têm grande impacto na saúde pública.
Além disso, evidências de mundo real já demonstraram redução significativa das hospitalizações por VSR em lactentes após a implementação dos programas de imunização materna.
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Quando há vacinação materna contra VSR, a vigilância neonatal continua necessária
Os resultados reforçam a segurança geral da vacinação materna contra o VSR dentro das recomendações atuais de uso. No entanto, o sinal de aumento de prematuridade observado nos ensaios clínicos randomizados indica que a vigilância contínua permanece necessária.
Dessa forma, a principal mensagem para a prática clínica é que os benefícios da vacinação materna na prevenção de doença grave por VSR parecem superar os potenciais riscos identificados até o momento. Entretanto, o monitoramento dos desfechos obstétricos e neonatais deve continuar à medida que a utilização global dessa estratégia se expande.
Autoria

Jôbert Neves
Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Realizou residência em Pediatria e especialização em Gastroenterologia Pediátrica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP). Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e experiência internacional como observer no SickKids, University of Toronto. Atuou ainda como Coordenador Young LASPGHAN do Grupo de Trabalho em Probióticos e Microbiota.
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