O câncer de mama triplo-negativo caracteriza-se pela ausência de expressão dos receptores de estrogênio, progesterona e HER2. Seu comportamento clínico e o risco de recorrência precoce tornam relevante a avaliação de estratégias capazes de melhorar resultados duradouros. A adição de agentes à base de platina à quimioterapia neoadjuvante já havia aumentado as taxas de resposta patológica completa, mas persistiam dúvidas sobre o benefício independente da carboplatina na sobrevida e sobre seu uso também após a cirurgia.
Para investigar essa questão, Kim e colaboradores conduziram o ensaio PEARLY, que comparou quimioterapia com antraciclinas e taxanos, com ou sem carboplatina, em pacientes com doença inicial nos estágios II e III. O desfecho primário foi a sobrevida livre de eventos, enquanto sobrevida global, recorrência, resposta patológica completa, segurança e qualidade de vida integraram as análises secundárias.
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Como o estudo PEARLY comparou os esquemas?
O PEARLY foi um ensaio multicêntrico, aberto, randomizado e de fase III, realizado em 22 instituições da Coreia do Sul. Entre janeiro de 2016 e junho de 2020, 868 mulheres com câncer de mama triplo-negativo foram distribuídas igualmente entre os grupos. A idade mediana foi de 49 anos; cerca de 71% receberam tratamento neoadjuvante e as demais, tratamento adjuvante. A randomização considerou instituição, cenário terapêutico, comprometimento linfonodal e estado mutacional de BRCA.
O grupo controle recebeu quatro ciclos de doxorrubicina e ciclofosfamida, seguidos de docetaxel ou paclitaxel. O grupo experimental recebeu o mesmo esquema inicial, seguido de taxano associado à carboplatina, com área sob a curva de 5 em quatro ciclos. O estudo acompanhou eventos relacionados à progressão, recorrência, segundo câncer primário ou morte. A análise principal foi realizada na população por intenção de tratar.
Sobrevida livre de eventos favoreceu a carboplatina
Após seguimento mediano de 57,2 meses, ocorreram 68 eventos entre as 434 pacientes do grupo carboplatina e 95 entre as 434 do grupo controle. A adição do medicamento reduziu o risco relativo do desfecho composto de sobrevida livre de eventos, com hazard ratio de 0,67 (IC95% 0,49–0,92; p = 0,012). A estimativa de sobrevida livre de eventos em cinco anos foi de 82,3% versus 75,1%, diferença absoluta de 7,2 pontos percentuais.
A direção do efeito foi favorável nas análises de subgrupos, incluindo estado linfonodal, BRCA e cenário neoadjuvante ou adjuvante. A recorrência à distância foi o evento mais frequente, seguida por progressão durante a neoadjuvância e recorrência locorregional.
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Desfechos secundários sugerem benefício
Entre as pacientes avaliáveis após neoadjuvância, a resposta patológica completa ocorreu em 46,0% no grupo carboplatina e em 39,4% no grupo controle (p = 0,12), diferença sem significância estatística. Independentemente do braço de tratamento, alcançar resposta patológica completa associou-se a melhor sobrevida livre de eventos do que apresentar doença residual.
A sobrevida global em cinco anos foi estimada em 90,7% no grupo carboplatina e em 87,0% no grupo controle. O hazard ratio de 0,65 (IC95% 0,42–1,02; p = 0,057) indicou tendência favorável, sem atingir significância estatística. O estudo não tinha poder estatístico específico para esse desfecho. A sobrevida livre de doença invasiva e a sobrevida livre de recorrência à distância também apresentaram resultados numericamente favoráveis, mas sem significância estatística. Um seguimento mais prolongado poderá fornecer estimativas mais maduras desses desfechos.
Toxicidade hematológica aumenta com o tratamento
Eventos adversos relacionados ao tratamento de grau 3 ou superior ocorreram em 74,7% das pacientes que receberam carboplatina e em 56,7% das pacientes do grupo controle. Neutropenia febril foi registrada em 24,7% versus 17,1%; anemia, em 11,5% versus 2,1%; e trombocitopenia, em 3,5% versus 0,5%. A frequência de eventos adversos graves foi de 16,4% e 14,1%, respectivamente.
A interrupção por eventos adversos ocorreu em 2,3% versus 1,1%. Apesar da maior toxicidade hematológica, as avaliações de qualidade de vida e de neuropatia periférica relatadas pelas pacientes não mostraram diferenças estatisticamente significativas entre os grupos nos momentos examinados.
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Apesar do benefício, considere as limitações
A interpretação clínica exige considerar o desenho aberto e a condução exclusiva na Coreia do Sul, apesar de se tratar de um estudo multicêntrico. O esquema com antraciclinas foi administrado a cada três semanas, e não em regime dose-dense; assim, não está estabelecido se o mesmo benefício seria observado com o esquema a cada duas semanas.
Por fim, deve-se considerar que o período de recrutamento do estudo antecedeu a consolidação da imunoterapia e dos inibidores de PARP no tratamento do câncer de mama triplo-negativo. Portanto, o desenho baseado exclusivamente em quimioterapia deve ser interpretado como evidência adicional sobre o papel da carboplatina. A incorporação de outros tratamentos, quando indicada, deve ser considerada conforme o cenário clínico.
O que se conclui?
Para o oncologista, o PEARLY acrescenta evidência randomizada de fase III de que a carboplatina, adicionada ao esquema com antraciclinas e taxanos, melhora a sobrevida livre de eventos no câncer de mama triplo-negativo inicial, incluindo pacientes tratadas nos cenários neoadjuvante e adjuvante. A decisão individual deve ponderar a magnitude do benefício demonstrado e o aumento da mielotoxicidade.
Estudos que avaliam a retirada das antraciclinas estão em andamento com o objetivo de investigar a não inferioridade dessas estratégias.
Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.
Autoria

Thiago Branco
Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), com residência médica em Clínica Médica pela mesma instituição e em Oncologia Clínica pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA). Membro titular da Sociedade Clínica de Oncologia Clínica (SBOC) e da Sociedade Brasileira de Oncologia Torácica (GBOT). Além da atuação na Afya, também é pesquisador em Oncologia Torácica, Oncologista na empresa Américas Oncologia e no serviço público.
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