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Oncologia6 novembro 2026

Estudo reafirma bons desfechos com carboplatina no câncer de mama triplo-negativo

Estudo PEARLY avalia carboplatina no câncer de mama triplo-negativo e mostra benefícios em sobrevida livre de eventos.
Por Thiago Branco

O câncer de mama triplo-negativo caracteriza-se pela ausência de expressão dos receptores de estrogênio, progesterona e HER2. Seu comportamento clínico e o risco de recorrência precoce tornam relevante a avaliação de estratégias capazes de melhorar resultados duradouros. A adição de agentes à base de platina à quimioterapia neoadjuvante já havia aumentado as taxas de resposta patológica completa, mas persistiam dúvidas sobre o benefício independente da carboplatina na sobrevida e sobre seu uso também após a cirurgia.

Para investigar essa questão, Kim e colaboradores conduziram o ensaio PEARLY, que comparou quimioterapia com antraciclinas e taxanos, com ou sem carboplatina, em pacientes com doença inicial nos estágios II e III. O desfecho primário foi a sobrevida livre de eventos, enquanto sobrevida global, recorrência, resposta patológica completa, segurança e qualidade de vida integraram as análises secundárias.

 

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Como o estudo PEARLY comparou os esquemas?

O PEARLY foi um ensaio multicêntrico, aberto, randomizado e de fase III, realizado em 22 instituições da Coreia do Sul. Entre janeiro de 2016 e junho de 2020, 868 mulheres com câncer de mama triplo-negativo foram distribuídas igualmente entre os grupos. A idade mediana foi de 49 anos; cerca de 71% receberam tratamento neoadjuvante e as demais, tratamento adjuvante. A randomização considerou instituição, cenário terapêutico, comprometimento linfonodal e estado mutacional de BRCA.

O grupo controle recebeu quatro ciclos de doxorrubicina e ciclofosfamida, seguidos de docetaxel ou paclitaxel. O grupo experimental recebeu o mesmo esquema inicial, seguido de taxano associado à carboplatina, com área sob a curva de 5 em quatro ciclos. O estudo acompanhou eventos relacionados à progressão, recorrência, segundo câncer primário ou morte. A análise principal foi realizada na população por intenção de tratar.

Sobrevida livre de eventos favoreceu a carboplatina

Após seguimento mediano de 57,2 meses, ocorreram 68 eventos entre as 434 pacientes do grupo carboplatina e 95 entre as 434 do grupo controle. A adição do medicamento reduziu o risco relativo do desfecho composto de sobrevida livre de eventos, com hazard ratio de 0,67 (IC95% 0,49–0,92; p = 0,012). A estimativa de sobrevida livre de eventos em cinco anos foi de 82,3% versus 75,1%, diferença absoluta de 7,2 pontos percentuais.

A direção do efeito foi favorável nas análises de subgrupos, incluindo estado linfonodal, BRCA e cenário neoadjuvante ou adjuvante. A recorrência à distância foi o evento mais frequente, seguida por progressão durante a neoadjuvância e recorrência locorregional.

 

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Desfechos secundários sugerem benefício

Entre as pacientes avaliáveis após neoadjuvância, a resposta patológica completa ocorreu em 46,0% no grupo carboplatina e em 39,4% no grupo controle (p = 0,12), diferença sem significância estatística. Independentemente do braço de tratamento, alcançar resposta patológica completa associou-se a melhor sobrevida livre de eventos do que apresentar doença residual.

A sobrevida global em cinco anos foi estimada em 90,7% no grupo carboplatina e em 87,0% no grupo controle. O hazard ratio de 0,65 (IC95% 0,42–1,02; p = 0,057) indicou tendência favorável, sem atingir significância estatística. O estudo não tinha poder estatístico específico para esse desfecho. A sobrevida livre de doença invasiva e a sobrevida livre de recorrência à distância também apresentaram resultados numericamente favoráveis, mas sem significância estatística. Um seguimento mais prolongado poderá fornecer estimativas mais maduras desses desfechos.

Toxicidade hematológica aumenta com o tratamento

Eventos adversos relacionados ao tratamento de grau 3 ou superior ocorreram em 74,7% das pacientes que receberam carboplatina e em 56,7% das pacientes do grupo controle. Neutropenia febril foi registrada em 24,7% versus 17,1%; anemia, em 11,5% versus 2,1%; e trombocitopenia, em 3,5% versus 0,5%. A frequência de eventos adversos graves foi de 16,4% e 14,1%, respectivamente.

A interrupção por eventos adversos ocorreu em 2,3% versus 1,1%. Apesar da maior toxicidade hematológica, as avaliações de qualidade de vida e de neuropatia periférica relatadas pelas pacientes não mostraram diferenças estatisticamente significativas entre os grupos nos momentos examinados.

 

Saiba mais: Utilização de inibidor de PARP em esquema neoadjuvante para câncer de mama

Apesar do benefício, considere as limitações

A interpretação clínica exige considerar o desenho aberto e a condução exclusiva na Coreia do Sul, apesar de se tratar de um estudo multicêntrico. O esquema com antraciclinas foi administrado a cada três semanas, e não em regime dose-dense; assim, não está estabelecido se o mesmo benefício seria observado com o esquema a cada duas semanas.

Por fim, deve-se considerar que o período de recrutamento do estudo antecedeu a consolidação da imunoterapia e dos inibidores de PARP no tratamento do câncer de mama triplo-negativo. Portanto, o desenho baseado exclusivamente em quimioterapia deve ser interpretado como evidência adicional sobre o papel da carboplatina. A incorporação de outros tratamentos, quando indicada, deve ser considerada conforme o cenário clínico.

O que se conclui?

Para o oncologista, o PEARLY acrescenta evidência randomizada de fase III de que a carboplatina, adicionada ao esquema com antraciclinas e taxanos, melhora a sobrevida livre de eventos no câncer de mama triplo-negativo inicial, incluindo pacientes tratadas nos cenários neoadjuvante e adjuvante. A decisão individual deve ponderar a magnitude do benefício demonstrado e o aumento da mielotoxicidade.

Estudos que avaliam a retirada das antraciclinas estão em andamento com o objetivo de investigar a não inferioridade dessas estratégias.

 

Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.

Autoria

Foto de Thiago Branco

Thiago Branco

Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), com residência médica em Clínica Médica pela mesma instituição e em Oncologia Clínica pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA). Membro titular da Sociedade Clínica de Oncologia Clínica (SBOC) e da Sociedade Brasileira de Oncologia Torácica (GBOT). Além da atuação na Afya, também é pesquisador em Oncologia Torácica, Oncologista na empresa Américas Oncologia e no serviço público.

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