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Ginecologia e Obstetrícia21 agosto 2026

Colposcopia baseada em risco na detecção de lesões precursoras cervicais 

Estudo multicêntrico avalia a colposcopia baseada em risco ao combinar impressão colposcópica, citologia e HPV

O câncer cervical é o quarto câncer mais prevalente entre as mulheres no mundo, representando um problema substancial para populações em países de baixa e média renda. A Organização Mundial da Saúde convocou todas as nações a ampliar a implementação de estratégias comprovadamente eficazes para eliminar o câncer cervical até 2030. Essas estratégias incluem vacinar 90% de todas as meninas contra o papilomavírus humano (HPV) até os 15 anos de idade, garantir que 70% das mulheres façam um teste de alta performance para detecção do vírus aos 35 anos e novamente aos 45 anos, e prover tratamento adequado para 90% das mulheres diagnosticadas com câncer cervical ou com lesões pré-cancerosas. Atualmente, casos potenciais são encaminhados a um colposcopista para avaliação, a fim de confirmar a presença dessas lesões. Portanto, a colposcopia é de vital importância no caminho diagnóstico e deve ser investigada quanto a possíveis melhorias. 

Saiba mais: SGORJ 2024: Teste de DNA-HPV e rastreamento do câncer de colo uterino 

Como o estudo avaliou o risco de lesões precursoras cervicais 

Em 2022, foi publicado um estudo transversal multicêntrico, retrospectivo, com dados de 6.012 mulheres atendidas em seis clínicas de colposcopia na China, entre janeiro de 2019 e outubro de 2021. Foram analisadas combinações de citologia (<HSIL vs. HSIL+ — lesão intraepitelial escamosa de alto grau ou pior), status de HPV (HPV de alto risco negativo, HPV não 16/18 e HPV16/18+) e impressão colposcópica (normal/benigna, baixo grau ou alto grau), gerando subgrupos de risco. O desfecho analisado foi o diagnóstico histológico de NIC2+ (neoplasia intraepitelial cervical grau 2+) ou NIC3+ em cada subgrupo. 

O objetivo era avaliar se a combinação da impressão colposcópica com os resultados de rastreamento (citologia e/ou HPV) melhorava a estratificação de risco para detecção de lesões precursoras do câncer do colo do útero. 

Saiba mais: Caso Clínico: Lesão intraepitelial escamosa de alto grau 

Impressão colposcópica e risco de NIC2+ e NIC3+ 

Dentre os casos analisados, 12,31% tinham citologia HSIL+, 34,08% eram HPV16/18+ e 21,37% apresentavam impressão colposcópica de alto grau. Na histologia, 14,65% tinham NIC 2, 8,65%, NIC 3 e 1,13%, câncer. 

Tanto na análise univariada quanto na multivariada, a impressão colposcópica de alto grau, a citologia HSIL+ e o HPV16/18+ estiveram significativamente associados a maior risco de NIC2+ e NIC3+. 

A impressão colposcópica de alto grau foi o preditor isolado mais forte de doença pré-invasiva e teve OR (odds ratio) ajustado de 70,03 (IC 95%: 49,43–99,19) para NIC2+, muito superior ao HSIL+ na citologia (OR 3,54) e ao HPV16/18+ (OR 4,91). 

Combinação de colposcopia, citologia e HPV na estratificação de risco 

Ao combinar os três testes (colposcopia + citologia + HPV) em 18 subgrupos, o risco de NIC 3+ variou de 0% (colposcopia normal/benigna, citologia <HSIL e HPV de alto risco negativo) a 63,61% (colposcopia de alto grau + citologia HSIL+ e HPV16/18+). 

Por outro lado, mulheres com colposcopia normal/benigna tiveram risco consistentemente baixo de NIC 2+ (< 7%) e NIC 3+ (< 1%), independentemente dos resultados de citologia/HPV. 

Saiba mais: Congresso Brasileiro PTGI – Novo modelo de rastreamento do câncer cervical  

Limitações da análise multicêntrica 

Dentre as limitações deste estudo, temos a avaliação apenas do risco imediato (transversal), sem acompanhamento longitudinal, a ausência de estratificação por grupos etários e o viés do observador, uma vez que as colposcopias foram realizadas por profissionais experientes na China, podendo não ser generalizáveis a outros países de renda média-baixa com outros níveis de treinamento. 

O que os achados representam na avaliação de risco 

Incorporar a impressão colposcópica à avaliação de risco (junto com citologia e HPV) melhora a identificação dos casos, podendo aumentar a detecção em pacientes de alto risco e, ao mesmo tempo, reduzir o sobretratamento em pacientes de baixo risco (com colposcopia normal/benigna). A realização de biópsias direcionadas sempre que a impressão colposcópica for de alto grau, independentemente dos resultados de rastreamento, deve ser encorajada nessa estratégia atual de avaliação de risco. 

Autoria

Foto de Caroline Oliveira

Caroline Oliveira

Editora-chefe médica na Afya. Formada em medicina pela UNIRIO (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro). Residência médica em Ginecologia e Obstetrícia no Instituto Fernandes Figueira (IFF/FIOCRUZ). Doutora em Ciências Médicas pela Universidade Federal Fluminense. Mestre em Ciências pelo IFF/FIOCRUZ.

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