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Ginecologia e Obstetrícia22 agosto 2026

Anticoagulação na gestação: opções no parto, puerpério e amamentação 

Revisão discute segurança, monitorização e escolha dos anticoagulantes ao longo do ciclo gravídico-puerperal

A gestação aumenta o risco de eventos tromboembólicos venosos e, em algumas situações, torna necessária a anticoagulação. Entretanto, a escolha do medicamento deve considerar a segurança fetal, o risco de sangramento, o momento da gestação e as particularidades do parto e do puerpério. Uma revisão recente discutiu as principais opções disponíveis para prevenção e tratamento do tromboembolismo venoso durante a gestação e o período periparto, incluindo heparinas, varfarina, anticoagulantes orais diretos (DOACs), novos anticoagulantes e estratégias de reversão. 

Saiba mais: Anticoagulação profilática de gestantes: em quais situações utilizar? 

Heparinas permanecem como primeira escolha 

A heparina de baixo peso molecular (HBPM) é o anticoagulante preferencial na gestação. Tanto a HBPM quanto a heparina não fracionada (HNF) não atravessam a placenta e não estão associadas à anticoagulação fetal. A HBPM apresenta ainda farmacocinética mais previsível, menor necessidade de aplicações e menor risco de complicações, como trombocitopenia induzida por heparina. A HNF mantém papel em situações específicas, principalmente quando é desejável uma interrupção mais rápida do efeito anticoagulante ou em pacientes com disfunção renal grave. 

Quando monitorar a HBPM durante a gestação? 

Não de rotina. Diferentemente da HNF, as diretrizes não recomendam a monitorização rotineira da atividade anticoagulante da HBPM durante a gestação, devido à sua resposta farmacológica previsível. A dosagem de atividade anti-Xa pode ser considerada em situações selecionadas, como pacientes com índice de massa corporal muito elevado ou que apresentam sangramento ou novo evento trombótico. Quando realizada, a avaliação deve utilizar um ensaio anti-Xa específico para o agente utilizado. 

A dose de HBPM pode mudar no puerpério? 

O estudo Highlow comparou estratégias de dose fixa (40 mg/dia para mulheres com menos de 100 kg e 60 mg/dia para aquelas com 100 kg ou mais) e intermediária (1 mg/kg/dia) de HBPM em pacientes com antecedente de tromboembolismo venoso. Não houve diferença no desfecho primário de tromboembolismo durante a gestação ou o período pós-parto. Entretanto, em uma análise exploratória, a dose intermediária pareceu oferecer maior proteção contra eventos tromboembólicos no puerpério, sem aumento do risco de sangramento. Com base nesses achados, os autores consideram que doses fixas provavelmente são suficientes para a maioria das pacientes durante a gestação, enquanto a dose intermediária pode ser considerada no período pós-parto. 

Saiba mais: Como administrar heparina de baixo peso molecular em gestantes de risco? 

Qual é o papel da varfarina? 

A varfarina deve ser evitada durante a gestação na maioria das situações, devido ao maior risco de perda gestacional, malformações congênitas e hemorragia fetal, incluindo hemorragia intracraniana. Exceções podem existir em situações de risco trombótico muito elevado, como alguns pacientes com válvulas cardíacas mecânicas, nas quais a decisão deve ser individualizada. No entanto, o cenário muda após o parto: a varfarina é compatível com a amamentação, pois sua excreção no leite materno é muito baixa e não foram demonstrados efeitos adversos nos lactentes. 

Como a amamentação influencia a escolha do anticoagulante? 

Os anticoagulantes orais diretos (DOACs) não são recomendados durante a gestação ou a lactação, pois atravessam a placenta e estão presentes no leite materno. No puerpério, entretanto, mulheres que não desejam amamentar podem ter nos DOACs uma alternativa à HBPM, especialmente quando há necessidade de anticoagulação prolongada. 

Novos anticoagulantes ainda têm papel limitado no período periparto 

Os inibidores do fator XI são uma das novas estratégias em desenvolvimento. Estudos iniciais sugerem potencial para prevenir eventos tromboembólicos com menor risco de sangramento. Entretanto, esses medicamentos ainda não são opções adequadas para a anticoagulação no período periparto, especialmente pela longa meia-vida de alguns deles, pela ausência de agentes de reversão e pela possibilidade de passagem placentária ou para o leite materno de algumas moléculas. 

Medicamentos como fondaparinux, bivalirudina e argatrobana podem ter papel em situações específicas, principalmente quando há contraindicação ou resistência à heparina, mas não constituem opções de rotina na gestação. 

Quando é necessário reverter a anticoagulação? 

Gestantes e puérperas anticoaguladas podem necessitar de reversão diante do início do trabalho de parto, hemorragia pós-parto, outros sangramentos ou necessidade de cirurgia urgente. Quando o parto ou procedimento é previsível, a suspensão programada do anticoagulante é preferível; em situações graves ou que não podem ser adiadas, a reversão pode ser necessária. A protamina é utilizada para reversão das heparinas, embora sua eficácia seja maior para HNF do que para HBPM. 

Mensagem prática para o manejo da anticoagulação 

A HBPM permanece como principal opção para anticoagulação durante a gestação, por não atravessar a placenta e apresentar efeito farmacológico previsível. Sua atividade anticoagulante não deve ser monitorada rotineiramente, ficando a avaliação anti-Xa reservada para situações selecionadas. No puerpério, a estratégia pode ser diferente: dados exploratórios sugerem possível benefício da dose intermediária de HBPM na prevenção de tromboembolismo, enquanto a escolha do anticoagulante deve considerar também a amamentação. 

A varfarina é compatível com a lactação, mas os DOACs não são recomendados nesse período; para mulheres que não amamentam, eles podem representar uma alternativa à HBPM quando é necessária anticoagulação prolongada. Na prática, não existe uma única estratégia para todo o período gravídico-puerperal: o medicamento, a dose e a necessidade de monitorização devem ser individualizados de acordo com o risco trombótico, o momento da gestação, a proximidade do parto e a intenção de amamentar. 

Autoria

Foto de Ronaldo Oliveira

Ronaldo Oliveira

Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Vale do Rio Verde, com residência médica em Ginecologia e Obstetrícia pela Universidade Estadual de Montes Claros. Professor da Universidade de Ribeirão Preto. Medicina Fetal pela FMRP - USP. Mestre e Doutor pela FMRP - USP.

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