Logotipo Afya
Anúncio
Cirurgia28 outubro 2026

Terapia por pressão negativa reduz infecção em laparotomias de emergência

Metanálise avalia os efeitos da terapia por pressão negativa em laparotomias de emergência, incluindo complicações da ferida, tempo de internação e limitações das evidências.
Por Jader Ricco

A terapia por pressão negativa (TPN) tem sido utilizada para prevenir complicações de feridas operatórias em pacientes submetidos a procedimentos cirúrgicos de maior risco. Nas laparotomias de emergência, a possibilidade de contaminação, instabilidade clínica e limitações na preparação pré-operatória torna a prevenção de infecções particularmente relevante.

Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2026 no World Journal of Emergency Surgery avaliou a eficácia da terapia por pressão negativa profilática, em comparação com curativos convencionais, na prevenção de infecção do sítio cirúrgico após laparotomias de emergência.

Os resultados indicaram redução do risco de infecção e de determinadas complicações incisionais. Entretanto, a heterogeneidade entre os estudos e a certeza muito baixa da evidência limitam a confiança na magnitude desse benefício.

Metanálise reúne estudos de laparotomia de emergência

Os pesquisadores atualizaram uma revisão anterior, realizando buscas em PubMed, Embase, Web of Science, Cochrane CENTRAL e ClinicalTrials.gov até dezembro de 2025. Foram incluídos ensaios clínicos randomizados e estudos observacionais comparativos envolvendo adultos submetidos a laparotomias de emergência. A intervenção consistiu na aplicação de terapia por pressão negativa, comparada com curativos pós-operatórios convencionais.

A revisão reuniu 23 estudos e 5.371 pacientes, dos quais 2.528 receberam terapia por pressão negativa e 2.843 utilizaram curativos convencionais. Onze estudos eram ensaios clínicos randomizados, envolvendo 1.497 participantes. O desfecho principal foi a ocorrência de infecção do sítio cirúrgico. Também foram avaliadas infecções superficiais e profundas de feridas, seroma, hematoma, deiscência da ferida e tempo de internação hospitalar.

Os autores utilizaram modelos de efeitos aleatórios, ferramentas específicas para avaliação de risco de viés e o sistema GRADE para determinar a certeza das evidências.

 

Saiba mais: Terapia profilática por pressão negativa em feridas de laparotomia

Quanto caiu o risco de infecção do sítio cirúrgico?

A análise principal incluiu 21 estudos, com 4.972 pacientes. A terapia por pressão negativa esteve associada a uma redução relativa de 47% no risco de infecção do sítio cirúrgico, em comparação com curativos convencionais (RR 0,53; IC95% 0,41–0,68; p < 0,001).

Apesar da significância estatística, houve heterogeneidade moderada a substancial entre os estudos (I² = 68%). Isso indica diferenças relevantes nos resultados, possivelmente relacionadas às populações, às características das feridas e às estratégias de tratamento.

As análises de sensibilidade mantiveram a direção favorável à terapia por pressão negativa, mesmo após a exclusão individual dos estudos.

Entretanto, a assimetria do gráfico de funil e o teste de Egger significativo (p = 0,0005) sugeriram efeitos relacionados ao tamanho dos estudos, que podem ter influenciado a estimativa combinada.

 

Saiba mais: Infecção de sítio cirúrgico em cirurgias abdominais

Curativo por pressão negativa reduz complicações incisionais

Além da infecção do sítio cirúrgico, a terapia por pressão negativa apresentou associação com menor ocorrência de infecções incisionais superficiais e profundas.

Para infecção superficial, a análise de 14 estudos, com 3.417 pacientes, identificou RR de 0,50 (IC95% 0,39–0,64). Na infecção profunda, 11 estudos, com 2.957 pacientes, apresentaram RR de 0,43 (IC95% 0,29–0,63). Também foram observadas reduções na formação de seroma (RR 0,61; IC95% 0,43–0,85) e na deiscência da ferida operatória (RR 0,56; IC95% 0,38–0,82). Esses resultados sugerem que o possível benefício se concentra principalmente nas complicações relacionadas à incisão.

As análises de subgrupos também encontraram associação favorável em diferentes estratégias de fechamento e níveis de contaminação da ferida. Contudo, essas comparações foram exploratórias e não permitem estabelecer quais pacientes apresentam maior benefício individual.

O tempo de internação apresentou diferença?

Nem todos os desfechos avaliados demonstraram benefício estatisticamente significativo. A infecção de órgão ou espaço não apresentou diferença significativa entre os grupos (RR 0,74; IC95% 0,50–1,10). O mesmo ocorreu com hematomas (RR 1,51; IC95% 0,60–3,78).

A duração da internação hospitalar também não foi significativamente reduzida. A análise de 18 estudos, envolvendo 4.752 pacientes, identificou diferença média de −0,65 dia (IC95% −2,63 a 1,33). Nesse desfecho, a heterogeneidade foi elevada (I² = 88%), e alguns estudos exigiram estimativas indiretas de médias e desvios-padrão.

Portanto, os resultados não permitem concluir que a terapia por pressão negativa reduza o tempo de hospitalização após laparotomias de emergência.

Avalie a certeza da evidência antes de mudar protocolos

A revisão identificou limitações metodológicas importantes. Parte dos ensaios randomizados apresentou alto risco global de viés, enquanto os estudos observacionais frequentemente apresentaram risco moderado a sério, especialmente por fatores de confusão.

Também houve diferenças entre dispositivos, pressões utilizadas, duração da terapia, indicações cirúrgicas e graus de contaminação.

Pelo sistema GRADE, a certeza da evidência para infecção do sítio cirúrgico foi classificada como muito baixa, apesar da direção favorável dos resultados.

Na prática clínica, a terapia por pressão negativa pode ser considerada uma estratégia potencial de prevenção de complicações incisionais após laparotomias de emergência, especialmente em situações de maior risco.

Entretanto, a metanálise não estabelece um protocolo ideal de aplicação nem identifica definitivamente quais pacientes apresentam maior benefício. Os autores destacam a necessidade de ensaios multicêntricos de maior qualidade e análises de custo-efetividade.

Assim, os resultados contribuem para a avaliação de protocolos de prevenção de infecção cirúrgica, mas não justificam a adoção indiscriminada da terapia por pressão negativa em todas as laparotomias de emergência.

 

Saiba mais: Técnicas modernas de fechamento da parede abdominal em laparotomia de emergência

 

Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.

Autoria

Foto de Jader Ricco

Jader Ricco

Editor médico na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Residencia em cirurgia geral pela Santa Casa de Belo Horizonte e em cirurgia oncológica pelo Instituto Mário Penna. Mestre em ciencias aplicadas à cirurgia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Cirurgia