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Cirurgia28 outubro 2026

Papel da neoadjuvância no câncer de esôfago cT2N0

Revisão compara neoadjuvância e ressecção primária (cirurgia “up front”), com foco em sobrevida, margens R0 e complicações perioperatórias.
Por Jader Ricco

O câncer de esôfago cT2N0M0 representa um cenário terapêutico desafiador. A dificuldade de definir com precisão a extensão tumoral antes da cirurgia e a limitada representação desse grupo em estudos clínicos mantêm a dúvida entre indicar tratamento neoadjuvante seguido de cirurgia ou realizar ressecção cirúrgica primária.

Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2026 no Diseases of the Esophagus comparou essas estratégias em pacientes adultos com adenocarcinoma ou carcinoma de células escamosas do esôfago. O estudo avaliou sobrevida, ressecção R0, mortalidade perioperatória e complicações.

No conjunto das evidências, a terapia neoadjuvante seguida de cirurgia não apresentou vantagem estatisticamente significativa sobre a cirurgia primária para os principais desfechos avaliados.

A metanálise reúne dados do câncer de esôfago cT2N0

Os pesquisadores buscaram estudos em MEDLINE, EMBASE, CENTRAL e registros de ensaios até novembro de 2024. Foram incluídos adultos com câncer de esôfago cT2N0M0, englobando adenocarcinoma e carcinoma de células escamosas.

A revisão reuniu 18 estudos e 14.566 pacientes. Desses, 7.936 receberam terapia neoadjuvante seguida de cirurgia e 6.630 foram submetidos à ressecção cirúrgica primária. A idade média foi de 63,7 anos.

Não foram identificados ensaios clínicos randomizados para inclusão na metanálise. Todos os estudos tinham desenho de coorte, predominantemente retrospectivo, e os esquemas neoadjuvantes variaram entre quimiorradioterapia, quimioterapia, radioterapia ou combinações dessas modalidades.

Essa heterogeneidade é relevante porque limita a comparação direta entre as estratégias e reduz a confiança em conclusões aplicáveis a todos os pacientes com doença cT2N0M0.

 

Saiba mais: Dissecando temas cirúrgicos estadiamento e tratamento do câncer de esôfago

 

A neoadjuvância melhora a sobrevida no cT2N0?

A sobrevida global em cinco anos foi analisada em 11 estudos. A terapia neoadjuvante seguida de cirurgia não apresentou diferença estatisticamente significativa em comparação com a cirurgia up front (RR 1,08; IC95% 0,85–1,36).

Também não houve diferença significativa na sobrevida global em três anos entre neoadjuvância e cirurgia up front, com RR de 1,10 (IC95% 0,92–1,30).

A sobrevida livre de doença em cinco anos seguiu o mesmo padrão. O RR foi de 0,88 (IC95% 0,70–1,12), sem evidência de superioridade de uma estratégia sobre a outra.

Algumas análises de subgrupos identificaram resultados favoráveis com determinados protocolos, incluindo CROSS e FLOT. Entretanto, esses achados vieram de poucos estudos e nem sempre seguiram a mesma direção da análise principal.

Por isso, os próprios autores destacam que esses sinais não são suficientes para estabelecer uma vantagem geral da neoadjuvância no grupo cT2N0M0.

 

Saiba mais: Quimio perioperatória ou quimiorradioterapia pré-operatória em câncer de esôfago

Compare ressecção R0 e mortalidade perioperatória

A taxa de ressecção R0 foi analisada em sete estudos. Não houve diferença significativa entre terapia neoadjuvante seguida de cirurgia e cirurgia primária, com RR de 1,00 (IC95% 0,89–1,12).

A mortalidade perioperatória em 30 dias também não apresentou diferença estatisticamente significativa. O RR foi de 0,91 (IC95% 0,53–1,54).

Esses achados são relevantes porque a adoção rotineira de tratamento pré-operatório em tumores cT2N0 exigiria demonstração de benefício clínico que justificasse a exposição adicional à terapia neoadjuvante.

Na análise global, a revisão não identificou ganho em ressecção completa nem redução significativa da mortalidade perioperatória com a estratégia neoadjuvante.

Complicações permanecem semelhantes entre estratégias

Cinco estudos relataram complicações gerais. A terapia neoadjuvante seguida de cirurgia apresentou RR de 0,97 (IC95% 0,87–1,08), sem diferença significativa em relação à cirurgia up front.

As complicações cirúrgicas também foram semelhantes, com RR de 0,92 (IC95% 0,78–1,08). Entre os eventos avaliados estavam fístula anastomótica, quilotórax, necrose do conduto e lesão do nervo laríngeo recorrente.

Para complicações médicas, incluindo eventos pulmonares e cardiovasculares, três estudos forneceram dados. O RR combinado foi de 0,86 (IC95% 0,61–1,23), novamente sem diferença estatisticamente significativa.

Assim, a metanálise não mostrou aumento claro de morbidade com a neoadjuvância, mas também não demonstrou vantagem global em relação às complicações.

 

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Estadiamento do câncer de esôfago cT2N0 limita a decisão

A principal dificuldade para interpretar esses resultados está na qualidade das evidências. Apenas cinco dos 18 estudos alcançaram classificação de baixo risco de viés, e a comparabilidade entre os grupos foi uma limitação frequente.

A maioria dos estudos era retrospectiva, com possibilidade de viés de seleção. Além disso, houve diferenças nos protocolos neoadjuvantes, nos subtipos histológicos e nos métodos utilizados para o estadiamento clínico.

A própria classificação cT2N0 pode ser imprecisa. Entre os estudos incluídos, houve relatos relevantes de mudança de estágio após avaliação patológica, o que pode influenciar tanto a escolha do tratamento quanto os resultados observados.

Na prática, a revisão não sustenta uma vantagem rotineira da neoadjuvância sobre a cirurgia primária para todos os pacientes com cT2N0M0. Ao mesmo tempo, a qualidade limitada das evidências impede concluir que as estratégias sejam equivalentes.

A decisão deve considerar a incerteza do estadiamento, as características tumorais e o contexto clínico. Estudos prospectivos, com estadiamento padronizado e melhor controle de fatores de confusão, ainda são necessários para definir a estratégia ideal.

 

Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.

Autoria

Foto de Jader Ricco

Jader Ricco

Editor médico na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Residencia em cirurgia geral pela Santa Casa de Belo Horizonte e em cirurgia oncológica pelo Instituto Mário Penna. Mestre em ciencias aplicadas à cirurgia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

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