O câncer de esôfago cT2N0M0 representa um cenário terapêutico desafiador. A dificuldade de definir com precisão a extensão tumoral antes da cirurgia e a limitada representação desse grupo em estudos clínicos mantêm a dúvida entre indicar tratamento neoadjuvante seguido de cirurgia ou realizar ressecção cirúrgica primária.
Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2026 no Diseases of the Esophagus comparou essas estratégias em pacientes adultos com adenocarcinoma ou carcinoma de células escamosas do esôfago. O estudo avaliou sobrevida, ressecção R0, mortalidade perioperatória e complicações.
No conjunto das evidências, a terapia neoadjuvante seguida de cirurgia não apresentou vantagem estatisticamente significativa sobre a cirurgia primária para os principais desfechos avaliados.

A metanálise reúne dados do câncer de esôfago cT2N0
Os pesquisadores buscaram estudos em MEDLINE, EMBASE, CENTRAL e registros de ensaios até novembro de 2024. Foram incluídos adultos com câncer de esôfago cT2N0M0, englobando adenocarcinoma e carcinoma de células escamosas.
A revisão reuniu 18 estudos e 14.566 pacientes. Desses, 7.936 receberam terapia neoadjuvante seguida de cirurgia e 6.630 foram submetidos à ressecção cirúrgica primária. A idade média foi de 63,7 anos.
Não foram identificados ensaios clínicos randomizados para inclusão na metanálise. Todos os estudos tinham desenho de coorte, predominantemente retrospectivo, e os esquemas neoadjuvantes variaram entre quimiorradioterapia, quimioterapia, radioterapia ou combinações dessas modalidades.
Essa heterogeneidade é relevante porque limita a comparação direta entre as estratégias e reduz a confiança em conclusões aplicáveis a todos os pacientes com doença cT2N0M0.
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A neoadjuvância melhora a sobrevida no cT2N0?
A sobrevida global em cinco anos foi analisada em 11 estudos. A terapia neoadjuvante seguida de cirurgia não apresentou diferença estatisticamente significativa em comparação com a cirurgia up front (RR 1,08; IC95% 0,85–1,36).
Também não houve diferença significativa na sobrevida global em três anos entre neoadjuvância e cirurgia up front, com RR de 1,10 (IC95% 0,92–1,30).
A sobrevida livre de doença em cinco anos seguiu o mesmo padrão. O RR foi de 0,88 (IC95% 0,70–1,12), sem evidência de superioridade de uma estratégia sobre a outra.
Algumas análises de subgrupos identificaram resultados favoráveis com determinados protocolos, incluindo CROSS e FLOT. Entretanto, esses achados vieram de poucos estudos e nem sempre seguiram a mesma direção da análise principal.
Por isso, os próprios autores destacam que esses sinais não são suficientes para estabelecer uma vantagem geral da neoadjuvância no grupo cT2N0M0.
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Compare ressecção R0 e mortalidade perioperatória
A taxa de ressecção R0 foi analisada em sete estudos. Não houve diferença significativa entre terapia neoadjuvante seguida de cirurgia e cirurgia primária, com RR de 1,00 (IC95% 0,89–1,12).
A mortalidade perioperatória em 30 dias também não apresentou diferença estatisticamente significativa. O RR foi de 0,91 (IC95% 0,53–1,54).
Esses achados são relevantes porque a adoção rotineira de tratamento pré-operatório em tumores cT2N0 exigiria demonstração de benefício clínico que justificasse a exposição adicional à terapia neoadjuvante.
Na análise global, a revisão não identificou ganho em ressecção completa nem redução significativa da mortalidade perioperatória com a estratégia neoadjuvante.
Complicações permanecem semelhantes entre estratégias
Cinco estudos relataram complicações gerais. A terapia neoadjuvante seguida de cirurgia apresentou RR de 0,97 (IC95% 0,87–1,08), sem diferença significativa em relação à cirurgia up front.
As complicações cirúrgicas também foram semelhantes, com RR de 0,92 (IC95% 0,78–1,08). Entre os eventos avaliados estavam fístula anastomótica, quilotórax, necrose do conduto e lesão do nervo laríngeo recorrente.
Para complicações médicas, incluindo eventos pulmonares e cardiovasculares, três estudos forneceram dados. O RR combinado foi de 0,86 (IC95% 0,61–1,23), novamente sem diferença estatisticamente significativa.
Assim, a metanálise não mostrou aumento claro de morbidade com a neoadjuvância, mas também não demonstrou vantagem global em relação às complicações.
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Estadiamento do câncer de esôfago cT2N0 limita a decisão
A principal dificuldade para interpretar esses resultados está na qualidade das evidências. Apenas cinco dos 18 estudos alcançaram classificação de baixo risco de viés, e a comparabilidade entre os grupos foi uma limitação frequente.
A maioria dos estudos era retrospectiva, com possibilidade de viés de seleção. Além disso, houve diferenças nos protocolos neoadjuvantes, nos subtipos histológicos e nos métodos utilizados para o estadiamento clínico.
A própria classificação cT2N0 pode ser imprecisa. Entre os estudos incluídos, houve relatos relevantes de mudança de estágio após avaliação patológica, o que pode influenciar tanto a escolha do tratamento quanto os resultados observados.
Na prática, a revisão não sustenta uma vantagem rotineira da neoadjuvância sobre a cirurgia primária para todos os pacientes com cT2N0M0. Ao mesmo tempo, a qualidade limitada das evidências impede concluir que as estratégias sejam equivalentes.
A decisão deve considerar a incerteza do estadiamento, as características tumorais e o contexto clínico. Estudos prospectivos, com estadiamento padronizado e melhor controle de fatores de confusão, ainda são necessários para definir a estratégia ideal.
Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.
Autoria

Jader Ricco
Editor médico na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Residencia em cirurgia geral pela Santa Casa de Belo Horizonte e em cirurgia oncológica pelo Instituto Mário Penna. Mestre em ciencias aplicadas à cirurgia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
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