Paciente masculino, branco, casado, 65 anos, comparece ao serviço de emergência hospitalar com queixas de aumento da frequência miccional, associada a urgência, dor pélvica e astenia iniciados há cerca de três dias e com posterior piora dos sintomas. Negou febre, calafrios, náuseas, vômitos, hipotensão postural, hematúria, outras queixas. Já fazia uso diário de 2mg de doxazosina há três anos por quadro de STUI.
História patológica pregressa: hipertensão arterial (HAS), diabetes mellitus (DM) e hiperplasia prostática benigna (HPB).
Nega alergias, cirurgias prévias, histórico de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), infecções urinárias (ITUs), litíase urinária.
Hístórico social e hábitos de vida: sedentário, nega tabagismo e etilismo. Apresenta histórico familiar de HAS e hiperplasia prostática benigna (pai) e diabetes (avó materna).
Exames laboratoriais da emergência: Hb-15,5/ Leuco- 17.900/ 15 bastões (sem blastos) / Plaq-220.000/ Uréia- 38/ Creatinina- 1,3/ Glicose- 92/ PCR-7,5, EAS- (piúria e hematúria) e solicitada URC (em andamento).
Ao exame clínico: Lúcido, orientado no tempo e espaço, acianótico, anictérico, afebril, hipohidratado ++/4, corado em bom estado geral. Sinais vitais: 100 x 65 mmHg, 120 bpm, 18 irpm e 38,5ºC.
Abdome: peristalse +, depressível, timpânico, indolor à palpação, sem irritação peritoneal, Giordano -.
Toque retal apresentou próstata com volume aumentado (cerca de 40-50g), sensível, fiboelástica.
Realizou ultrassonografia da próstata e das vias urinárias que evidenciou próstata com cerca de 52g, com IPP de 1,2 cm, sem abscesso, vesículas anatômicas, bexiga com boa repleção e discreto espessamento parietal, com resíduo pós-miccional de 70 ml. Vias urinárias superiores dentro da normalidade.
Diagnóstico e conduta
Após a avaliação clínica inicial e dos exames complementares realizados ficamos com o diagnóstico de prostatite aguda. Esse paciente era idoso e apresentava fatores de risco para ITU complicada, como DM e HPB/STUI com alto resíduo pós-miccional. Apesar de hemodinamicamente estável na avaliação inicial, foi proposta internação por 24-48h para início de antibioticoterapia parenteral e medidas de suporte, objetivando maior segurança para o paciente e posterior alta e tratamento oral em caso de melhora do quadro. Além disso, foi acrescido finasterida 5mg ao esquema terapêutico para HPB/STUI.
O paciente em questão iniciou tratamento com levofloxacino parenteral 750 mg IV de 12/12h, além de medidas de suporte (hidratação, analgesia e outras medicações sintomáticas), apresentado evolução clínica favorável (febre e sintomas miccionais). Houve também melhora da leucometria (11.700) e da PCR (3,5) em relação aos da internação. No 3º dia de internação, o paciente recebeu alta hospitalar com esquema de antibiótico oral (ciprofloxacino 750 mg 1 x ao dia) por 14 dias e agendado retorno para reavaliação ambulatorial.
Veja também: Hiperplasia prostática benigna: diagnóstico e tratamento – Portal Afya
Sobre a Prostatite
Prostatite é um diagnóstico comum, no entanto menos de 10% dos casos têm infecção bacteriana comprovada. As enterobactérias são os patógenos predominantes na Prostatite Bacteriana Aguda (PBA), sendo a E. coli a bactéria mais frequente. Na Prostatite bacteriana crônica (PBC), o espectro de espécies é mais amplo, podendo incluir microrganismos atípicos. Em imunossuprimidos ou naqueles infectados pelo HIV, a prostatite pode ser causada por patógenos fastidiosos, como M. tuberculosis, Candida spp. e outros patógenos raros, como Coccidioides immitis, Blastomyces dermatitidis e Histoplasma capsulatum.
A PBA geralmente se apresenta abruptamente com sintomas de micção e dor angustiante, mas mal localizada, estando frequentemente associada a mal-estar e febre. Na PBC os sintomas miccionais e a dor persistem por pelo menos três meses.
Na suspeita de PBA a urocultura do jato médio é o exame mais importante para o diagnóstico e para orientação do tratamento. O teste de Mears-Stamey é utilizado na investigação da PBC.
O tratamento da prostatite bacteriana aguda consiste em antibioticoterapia com duração média de duas a quatro semanas, sendo penicilinas de amplo espectro, cefalosporinas de 3ª geração e fluorquinolonas os antibióticos parenterais mais utilizados de forma empírica.
É importante ressaltar que a duração do tratamento com fluoroquinolona na PBA deve ser de pelo menos 14 dias, enquanto os tratamentos com azitromicina e doxiciclina devem ser estendidos para pelo menos três a quatro semanas. Na PBC, os antimicrobianos devem ser administrados por quatro a seis semanas após o diagnóstico inicial, além disso, se bactérias intracelulares forem detectadas, macrolídeos ou tetraciclinas devem ser administrados.
Cerca de 10% dos homens com PBA apresentarão retenção urinária (RUA) que pode ser controlada por cateterismo uretral ou suprapúbico. Vale lembrar que evidências recentes sugerem que o cateterismo suprapúbico pode reduzir o risco de desenvolvimento de PBA.
Em caso de abscesso prostático, recomenda-se sua drenagem em caso de sepse sem melhora clínica ou caso tenha mais de 1 cm. Em pacientes assintomáticos pós-tratamento, a análise de urina de rotina e/ou cultura de urina não é obrigatória.
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