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Carreira3 abril 2026

Cirurgia robótica e IA: saiba o que já temos e o que esperar da próxima década

Entre avanços tecnológicos e evidências científicas, especialistas discutem o impacto da robótica e da IA no centro cirúrgico
Por Redação Afya

A incorporação de robótica e inteligência artificial à cirurgia tem alimentado expectativas sobre uma nova era da medicina.

Planejamento tridimensional, algoritmos capazes de analisar imagens em tempo real e braços robóticos com movimentos de alta precisão já fazem parte de alguns centros cirúrgicos. Mas, apesar do entusiasmo tecnológico, especialistas alertam que a transformação da prática cirúrgica ocorre de forma gradual, e que o papel do médico continua central no cuidado ao paciente.

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Para o oncologista Dr. Jader Ricco, a cirurgia robótica já trouxe avanços concretos em determinadas áreas, especialmente na urologia. “Um dos primeiros cenários em que observamos evidências consistentes foi nas prostatectomias. A ergonomia para o cirurgião, a delicadeza dos braços robóticos e a capacidade de realizar movimentos extremamente precisos permitem maior controle durante o procedimento e contribuem para bons resultados cirúrgicos”, afirma.

Essas características também favorecem abordagens menos invasivas. Com incisões menores e menor trauma tecidual em comparação à cirurgia aberta, pacientes tendem a apresentar recuperação mais rápida e retorno precoce às atividades cotidianas.

Planejamento cirúrgico mais preciso

Além da robótica em si, a inteligência artificial começa a aparecer como ferramenta auxiliar em diferentes etapas do cuidado. Um dos campos mais promissores é o planejamento pré-operatório.

“Hoje já conseguimos reconstruir imagens tridimensionais muito próximas da realidade a partir de exames de imagem. Isso permite visualizar com mais precisão o tumor e as estruturas anatômicas ao redor antes da cirurgia”, explica Ricco. Segundo ele, esse tipo de recurso torna o planejamento mais detalhado e pode aumentar a segurança do procedimento.

Na prática, a IA ajuda a transformar grandes volumes de dados médicos em informações úteis para a tomada de decisão. A longo prazo, a integração entre algoritmos e experiência clínica pode contribuir para padronizar condutas e reduzir variações entre tratamentos.

Entre o entusiasmo e a cautela científica

Apesar dessas perspectivas, nem todos os especialistas veem a robótica como uma revolução já consolidada. O cirurgião Dr. Felipe Victer defende uma avaliação mais crítica do impacto atual da tecnologia.

“Se analisarmos estritamente os estudos publicados, a cirurgia robótica ainda não demonstrou benefícios tão expressivos em comparação com a videolaparoscopia em muitos procedimentos”, afirma. Para ele, a robótica ainda é um campo em construção.

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Victer reconhece vantagens técnicas, como melhor ergonomia para o cirurgião, mas ressalta que os ganhos clínicos nem sempre são claros. “Em alguns casos, as incisões da cirurgia robótica podem até ser maiores do que na laparoscopia tradicional, o que pode resultar em um efeito estético um pouco pior”, argumenta.

Segundo ele, parte da percepção de avanço também é influenciada por marketing em torno da tecnologia. “Precisamos avaliar com cautela os resultados e lembrar que nem toda inovação representa automaticamente benefício real para o paciente”, assume.

Inteligência artificial ainda em fase inicial

O mesmo raciocínio se aplica à inteligência artificial. Embora existam pesquisas avançadas envolvendo reconhecimento de tecidos, realidade aumentada e análise intraoperatória de imagens, essas ferramentas ainda não estão amplamente incorporadas à prática clínica cotidiana.

Alguns sistemas já conseguem identificar estruturas anatômicas durante a cirurgia e sugerir ao cirurgião o que está sendo visualizado: vasos, nervos ou outros tecidos. No entanto, essas aplicações ainda estão em fase experimental.

“Hoje a inteligência artificial funciona muito mais como ferramenta de apoio, ajudando a localizar evidências científicas ou auxiliar no planejamento”, explica Victer. “Quem continua tomando a decisão é o médico”.

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Tecnologia e humanização do cuidado

Com o avanço das máquinas, também surge um receio frequente entre pacientes: o de que a medicina se torne mais distante e mecanizada.

Para Ricco, essa preocupação é compreensível, mas não corresponde à realidade. “A tecnologia amplia as possibilidades técnicas do médico, mas não substitui o trabalho humano. O acolhimento, o diálogo e a relação médico-paciente continuam sendo fundamentais para o sucesso do tratamento”, afirma o oncologista.

Victer concorda: embora a medicina possa se tornar mais orientada por dados, o julgamento clínico permanece insubstituível. “A inteligência artificial pode sugerir caminhos, mas a responsabilidade pela decisão continua sendo do médico”.

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O que esperar da próxima década

Quando se olha para o futuro, os dois especialistas convergem em um ponto: as mudanças virão, mas provavelmente de forma gradual.

Ricco acredita que veremos maior integração entre inteligência artificial e experiência clínica, com algoritmos treinados em grandes bases de dados cirúrgicos. Isso poderia ajudar a sistematizar condutas e reduzir variações técnicas entre cirurgiões.

Já Victer aposta em avanços mais incrementais. “Podemos ter realidade aumentada projetando estruturas anatômicas no campo operatório ou sistemas robóticos com alertas de segurança quando o cirurgião se aproxima de áreas de risco”, diz.

Mesmo assim, ele lembra que a medicina costuma evoluir em ciclos longos: “Muitas vezes precisamos de 15 ou 20 anos para validar plenamente uma nova tecnologia”.

Entre promessas tecnológicas e evidências científicas, a cirurgia do futuro parece caminhar para uma integração cada vez maior entre máquinas e inteligência humana. Mas, como destacam os especialistas, o centro da prática médica continua sendo o mesmo: o cuidado com o paciente.

Autoria

Foto de Redação Afya

Redação Afya

Produção realizada por jornalistas da Afya, em colaboração com a equipe de editores médicos.

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