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Carreira27 janeiro 2026

Saiba como fortalecer a atuação de médicos gestores diante de cenários de crise

Entenda como a gestão hospitalar exige proatividade, comunicação eficaz e visão sistêmica para liderar equipes e melhorar processos
Por Ester Ribeiro

Gestão hospitalar exige pensamento amplo e proativo. Isso começa pelo desenvolvimento de habilidades pessoais como comunicação eficaz, inteligência emocional e visão sistêmica. Não tem como ser de outra forma, o gestor deve manter-se sempre atualizado ao mesmo tempo, flexível e comprometido em aprender (participar de cursos, leituras, mentorias, educação continuada).

Uma postura proativa inclui definir objetivos claros com os líderes das áreas menores, buscar feedback e incentivar a equipe a também assumir responsabilidades. Por exemplo, um médico gestor pode organizar reuniões para analisar e refletir o que já aconteceu – o que funcionou, o que não funcionou e o que pode ser melhorado –  após situações caóticas para organizar com a equipe melhorias de fluxo e resolução dos problemas.

Que capacidades um gestor precisa desenvolver?

Comunicação clara, inteligência emocional para lidar com o estresse e conflitos, adaptabilidade às mudanças constantes e visão ampla dos processos.

  • Atitude positiva: inspirar pelo exemplo, promover integração entre setores e reconhecer o esforço da equipe mantém a motivação alta mesmo sob pressão.
  • Aprendizado contínuo: participar de treinamentos em gestão, liderança e finanças públicas/privadas ajuda o médico gestor a tomar decisões embasadas e inovadoras.

Planejamento estratégico e gestão de crises

Um elemento-chave é planejar o inesperado. Os hospitais devem mapear riscos (pandemias, desastres, faltas de insumos) e criar planos de contingência detalhados. Isso inclui formar comitês multidisciplinares que revisem periodicamente esses planos e promovam treinamentos e simulações de emergência. Em cenários de sobrecarga (como pronto-socorros lotados), técnicas de melhoria contínua — por exemplo, o modelo Lean — podem otimizar processos sem custos extras.

Na iniciativa “Lean nas Emergências” do Ministério da Saúde, hospitais brasileiros reduziram em 28% a superlotação e em 30% o tempo de permanência dos pacientes, apenas reorganizando o fluxo de atendimento e capacitando a equipe já disponível.

  • Diagnóstico situacional: faça um levantamento detalhado dos serviços, identificando gargalos, força de trabalho e rotinas clínicas/administrativas. Um diagnóstico situacional permite priorizar ações onde há maior impacto.
  • Planos de contingência: desenvolva protocolos claros para cada cenário (por exemplo, fechamento de uma unidade ou aumento súbito de casos). Preveja rotas alternativas de atendimento (redirecionar pacientes para outras unidades) e treine a equipe para essas situações.
  • Comunicação clara: estabeleça canais diretos com toda a equipe e com a comunidade. Informações precisas e frequentes ajudam a reduzir pânico e alinhar esforços. Por exemplo, reuniões diárias rápidas (huddles) no início do turno permitem revisar o status dos leitos, consultas de risco e antecipar problemas, melhorando a resposta em tempo real. Essas reuniões podem ser feitas localmente com o líder e sua equipe.
  • Revisão constante: após cada crise ou pico de demanda, avalie o que funcionou e ajuste seu plano. A gestão deve ser dinâmica e preparada para reaplicar o aprendizado em futuras emergências.

Otimização de recursos humanos e estruturas

Mudanças como redução de equipe ou fechamento de unidades exigem criatividade na gestão de pessoal. Em vez de sobrecarregar poucos profissionais, um gestor estratégico redistribui funções e valida competências da equipe. Exemplo prático: treinar médicos/enfermeiros de outras especialidades para atender casos de urgência bem definidas, ou integrar temporariamente residentes e internos para apoio supervisionado.

Um bom gestor define expectativas claras, oferece feedback constante e orienta cada membro para agir de forma autônoma dentro de sua esfera. Também é vital cuidar da saúde mental e engajamento do time: reconhecer publicamente conquistas pequenas, promover pausas breves e incentivar o descanso ajuda a manter o desempenho em alta.

  • Reorganização interna: realoque pessoal de áreas menos sobrecarregadas para as mais críticas, garantindo treinamento rápido. Exemplo: se uma enfermaria fecha temporariamente, direcione sua equipe para apoiar o pronto-socorro ou a UTI conforme protocolos de emergência.
  • Delegação e colaboração: incentive médicos experientes a orientar mais jovens ou residentes, criando duplas de atendimento. Essa triagem colaborativa aumenta a capacidade de resolver casos sem encadear consultas desnecessárias.
  • Uso de ferramentas de apoio: implemente checklists, protocolos de decisão rápida e ferramentas digitais (apps de escalas, telemedicina interna) para reduzir retrabalho. Na pandemia de COVID-19, a adoção de teleconsultas internas e sistemas eletrônicos acelerou diagnósticos e liberou leitos.
  • Parcerias estratégicas: em crise, convênios emergenciais com outras instituições podem garantir pessoal extra (ex.: chamamento de voluntários médicos, cooperação entre hospitais públicos e privados).

Exemplos reais e estratégias sob pressão

Cenarize soluções criativas para inspirar sua equipe:

  • Fluxo contínuo de pacientes: inspire-se no caso de um hospital paulista que criou uma “sala de alta” no pronto-socorro. Quem sabe os pacientes prontos ou próximos à alta aguardam ali apenas pelo transporte, liberando imediatamente o leito clínico – e os olhos mais atentos da equipe médica – para outro caso grave.
  • Reuniões rápidas (Huddle): muitos hospitais bem-sucedidos adotam breves reuniões matinais (5–15 minutos) com todo o plantão. Nelas, discutem rapidamente os casos críticos, previsão de óbitos, altas e gargalos logísticos. Isso alinha a equipe e acelera decisões em tempo real.
  • Liderança visível: em situações de catástrofe (enchentes, epidemias), gestões exemplares destacam-se pela presença de um líder no front – visível, acessível e solidário. Um médico gestor que participa ativamente do atendimento, mesmo que em turnos reduzidos, inspira a equipe a seguir as medidas planejadas. Isso reforça a coesão e a confiança em momentos críticos.
  • Inovação rápida: durante a COVID-19, hospitais que formaram comitês de crise e experimentaram protótipos de leitos (como encher rapidamente alas de covid e reverter em leitos gerais depois) conseguiram dobrar a capacidade de internações. Essas instituições agiram rápido, adquiriam insumos e remontavam fluxos em horas, mostrando resiliência institucional.

Conclusão: atitude proativa e contínua

Mesmo em meio a incertezas e problemas crônicos – como pronto-socorros lotados – cabe ao médico gestor manter atitude estratégica. Antecipe cenários, conecte-se a pares de gestão (aprenda com colegas e transforme erros em conhecimento) e envolva toda a equipe no processo.

A combinação de planejamento rigoroso, comunicação transparente e liderança humana tornará sua instituição mais resistente a crises. Em última análise, a visão de futuro e o preparo contínuo dos médicos gestores são o que garantem a qualidade do cuidado em qualquer cenário. Cite os aprendizados, celebre pequenas conquistas (cada alta segura e cada recurso preservado) e continue inspirando sua equipe a enfrentar desafios com confiança e criatividade.

Autoria

Foto de Ester Ribeiro

Ester Ribeiro

Graduada em Medicina pela PUC  de Campinas. Médica Nefrologista pelo Hospital Santa Marcelina de Itaquera. Título em Nefrologia pela Sociedade Brasileira de Nefrologia.

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