A embolia pulmonar de risco intermediário-alto representa um desafio recorrente na prática clínica: o paciente está hemodinamicamente estável, mas mantém risco relevante de deterioração precoce mesmo sob anticoagulação plena. A trombólise sistêmica reduz esse risco, porém seu uso rotineiro esbarra no aumento de sangramento maior, incluindo hemorragia intracraniana. Diante dessa limitação, a trombólise dirigida por CDT surgiu como estratégia de reperfusão alternativa, com entrega local de fibrinolítico em doses reduzidas.
O ensaio PRAGUE-26, conduzido sem patrocínio da indústria em 11 centros terciários da República Tcheca, foi desenhado para testar se essa abordagem, sem uso de ultrassom associado, traz benefício clínico consistente frente à anticoagulação isolada.

Embolia pulmonar de risco intermediário-alto exige decisão rápida
A definição de embolia pulmonar de risco intermediário-alto utilizada no estudo publicado no NEJM em agosto de 2026 seguiu os critérios da Sociedade Europeia de Cardiologia de 2019: estabilidade hemodinâmica, escore PESI simplificado de pelo menos 1 ponto, disfunção de ventrículo direito e elevação de troponina cardíaca ou peptídeo natriurético.
Essa população concentra o dilema terapêutico central da área, pois permanece sob risco de deterioração precoce apesar da anticoagulação padrão, sem que a trombólise sistêmica rotineira seja recomendada pelo risco hemorrágico associado. Foram excluídos pacientes com sangramento ativo, acidente vascular encefálico recente, cirurgia de grande porte nos 7 dias anteriores, câncer ativo com expectativa de vida limitada, gestantes e pacientes com trombo flutuante através de forame oval patente.
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Como o PRAGUE-26 comparou cateter e anticoagulação isolada?
O PRAGUE-26 foi um ensaio multicêntrico, aberto e randomizado, que alocou pacientes em proporção 1 para 1 para trombólise dirigida por cateter com Alteplase associada à anticoagulação, ou para anticoagulação isolada.
No grupo intervenção, um cateter valvulado de infusão foi posicionado para administração de Alteplase em bolus seguido de infusão contínua até dose total máxima, conforme o padrão uni ou bilateral da embolia pulmonar. O desfecho primário foi composto por morte por qualquer causa, recorrência de embolia pulmonar ou descompensação/colapso cardiorrespiratório em 7 dias após a randomização. Os desfechos secundários incluíram sangramento clinicamente relevante, sangramento maior segundo critérios GUSTO e hemorragia intracraniana, avaliados até 30 dias.
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Trombólise dirigida por cateter reduz deterioração cardiorrespiratória
Foram randomizados 558 pacientes, com idade mediana de 64 anos, sendo 280 no grupo trombólise e 278 no grupo anticoagulação isolada.
O desfecho primário ocorreu em 0,7% dos pacientes do grupo cateter, contra 6,8% do grupo anticoagulação isolada, com risco relativo de 0,10 (IC95% 0,02–0,44; p<0,001) e diferença de risco de −6,1 pontos percentuais (IC95% −9,2 a −3,0). Essa diferença foi impulsionada principalmente pela menor incidência de descompensação ou colapso cardiorrespiratório no grupo intervenção (0,7% versus 5,4%; risco relativo 0,13, IC95% 0,03–0,57). A recorrência de embolia pulmonar foi numericamente semelhante entre os grupos, e nenhum óbito ocorreu no grupo trombólise nos primeiros 7 dias, contra quatro óbitos no grupo anticoagulação isolada.
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CDT não aumenta significativamente o risco de sangramento maior
O perfil de segurança foi semelhante entre os grupos até o sétimo dia: sangramento clinicamente relevante ocorreu em 4,6% no grupo cateter e 5,0% no grupo anticoagulação isolada (p=0,85), e sangramento maior segundo critérios GUSTO em 1,4% e 2,2%, respectivamente (p=0,54). Hemorragia intracraniana foi registrada em dois pacientes do grupo trombólise e em nenhum do grupo anticoagulação isolada; um desses eventos ocorreu durante episódio hipertensivo logo após a infusão, e o outro associou-se a superdosagem documentada de heparina de baixo peso molecular. Um sangramento fatal ocorreu no grupo anticoagulação isolada, após colapso cardiorrespiratório que motivou escalonamento para trombólise sistêmica, trombectomia mecânica e ECMO. A incidência acumulada de eventos adversos graves em 30 dias foi semelhante entre os grupos.
Vale destacar que apesar da diferença numérica de mortalidade, o estudo não teve poder para demonstrar benefício sobre mortalidade isoladamente.
Se a rede de transferência for ampliada, a reperfusão pulmonar avança
O padrão de resposta observado no PRAGUE-26 foi consistente com o descrito no ensaio HI-PEITHO, no qual a redução do desfecho primário também foi impulsionada por menor descompensação cardiorrespiratória. Entre as limitações do estudo estão a condução em país único, com população predominantemente branca, o desenho aberto, sem cegamento do comitê de eventos clínicos, e a ausência de comparação direta com trombólise facilitada por ultrassom, trombólise sistêmica ou trombectomia mecânica.
Na prática, o PRAGUE-26 fornece evidência randomizada de que a trombólise dirigida por cateter pode reduzir a deterioração cardiorrespiratória precoce em pacientes selecionados com TEP de risco intermediário-alto. O benefício, entretanto, foi predominantemente determinado pela redução de deterioração/colapso, sem demonstração de redução de mortalidade. Embora não tenha ocorrido aumento estatisticamente significativo de sangramento maior, duas hemorragias intracranianas ocorreram no grupo intervenção, e o estudo não teve poder para excluir diferenças em eventos hemorrágicos raros. Assim, os resultados fortalecem a CDT como estratégia de reperfusão precoce em pacientes selecionados, mas não estabelecem sua utilização rotineira em todos os pacientes com TEP de risco intermediário-alto.
À luz da nova classificação proposta pela diretriz AHA/ACC de 2026, a população do PRAGUE-26 corresponde predominantemente à categoria C3: pacientes hemodinamicamente estáveis, mas com escore de gravidade elevado, disfunção de ventrículo direito e biomarcadores cardíacos anormais. Nesse grupo, a diretriz ainda considera incerto o benefício da trombólise dirigida por cateter sobre a anticoagulação isolada para prevenir deterioração clínica. O PRAGUE-26 acrescenta justamente a evidência randomizada que faltava a esse cenário: em pacientes C3 selecionados, a reperfusão precoce reduziu de forma expressiva a progressão para descompensação ou colapso cardiorrespiratório.
Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.
Autoria

Juliana Avelar
Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com residência em Clínica Médica pela mesma instituição (2021). Residência em Cardiologia pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia (IDPC). Além de atuação na Afya, também atua em hospitais e em consultório particular.
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