A nova diretriz de tromboembolismo pulmonar (TEP), fruto da colaboração inédita entre o American College of Cardiology (ACC) e a American Heart Association (AHA), consolida as mudanças práticas da última década. O foco central é a precisão: desde o uso inteligente de biomarcadores até uma nova forma de classificar a gravidade, abandonando termos vagos em favor de categorias que orientam diretamente a conduta.
Após discutirmos o diagnóstico e a classificação na Parte I, esta Parte II abordará as estratégias terapêuticas baseadas em risco, o manejo de populações especiais e o rigoroso seguimento pós-alta.
- Manejo do TEP Agudo Guiado por Categorias Clínicas
🟢 Categoria A (Subclínica – Risco Mais Baixo)
- Conduta: Pacientes assintomáticos podem ser manejados ambulatorialmente.
- Terapêutica: Iniciar imediatamente anticoagulantes orais diretos (DOACs).
🟡 Categoria B (Sintomático com Baixo Risco Clínico)
- Conduta: A confirmação do baixo risco deve utilizar ferramentas como Hestia, PESI ou sPESI. Recomenda-se a internação com alta precoce ou o manejo estritamente ambulatorial.
- Terapêutica: Início imediato de DOACs. Procedimentos invasivos são altamente improváveis, embora o filtro de veia cava inferior (VCI) possa ser considerado em raras exceções de TEP recorrente apesar de anticoagulação otimizada.
🟠 Categoria C (Sintomático com Alto Risco Clínico)
- Conduta: Todos requerem hospitalização com monitorização rigorosa para sinais de declínio fisiológico. Uma Pressão Arterial Média (PAM) < 80 mmHg, especialmente na subcategoria C3, exige atenção redobrada.
- Terapêutica: O caso deve ser avaliado por equipe multidisciplinar (PERT – Pulmonary Embolism Response Team). A Heparina de Baixo Peso Molecular (HBPM) é preferível à Heparina Não Fracionada (HNF). Como não há sinais de hipoperfusão sistêmica, os riscos de terapias invasivas superam os benefícios, exceto em contextos críticos como trombos livres em trânsito nas câmaras direitas.
🔴 Categoria D (Falência Cardiopulmonar Incipiente)
- Conduta: Exige internação em Terapia Intensiva devido à instabilidade hemodinâmica oculta (ex: lactato elevado com pressão mantida) ou hipotensão transitória.
- Suporte Hemodinâmico: Ressuscitação volêmica deve ser parcimoniosa (apenas se pré-carga reduzida). Na presença de choque incipiente, iniciam-se inotrópicos/vasopressores e, se necessário, vasodilatadores pulmonares inalatórios.
- Terapêutica: A HBPM é preferível por maior previsibilidade e menor risco hemorrágico, exceto durante infusão ativa em Trombólise Dirigida por Cateter (TDC), onde a HNF é aceitável. Terapias adjuvantes (trombólise ou trombectomia mecânica) aliviam a disfunção aguda do VD e previnem o colapso cardiopulmonar iminente.
🟤 Categoria E (Falência Cardiopulmonar – Risco Mais Alto)
- Conduta: Internação imediata em unidade de alta complexidade. Transferências inter-hospitalares são contraindicadas no paciente não estabilizado devido ao extremo risco de óbito.
- Suporte Hemodinâmico: Vasopressores e inotrópicos imediatos. A reposição de cristaloides exige cautela extrema para evitar a falência irreversível do VD por sobrecarga de volume. A sedação profunda e a intubação orotraqueal devem ser evitadas ao máximo, pois a elevação da pressão intratorácica agrava a disfunção do VD e precipita parada cardíaca. A ECMO Venoarterial (V-A) é uma opção de resgate.
- Terapias Avançadas: A Trombólise Sistêmica é razoável para reduzir mortalidade. A embolectomia cirúrgica não é recomendada para pacientes com parada cardíaca prévia e anóxia cerebral estabelecida. A anticoagulação pode ser mantida com HNF contínua ou HBPM.
- Populações Especiais e Anticoagulação
- Obesidade: DOACs são preferíveis aos antagonistas de vitamina K (AVK). Em obesidade grau III (IMC > 40 kg/m²), é razoável reduzir a dose da HBPM para mitigar risco hemorrágico.
- SAF Trombótica: A varfarina (AVK) é fortemente recomendada em detrimento dos DOACs, devido ao risco inaceitável de trombose arterial sob uso destes últimos. DOAC pode ser considerado apenas para pacientes de baixo risco que apresentam um único anticorpo de baixo título e não têm histórico de trombose arterial.
- Gestantes e Lactantes: Uso exclusivo de HBPM ou HNF. DOACs e AVKs causam dano fetal e são contraindicados.
- Doença Renal Crônica: DOACs são preferíveis no estágio 3. Para estágios 4, 5 e diálise, as evidências ainda são insuficientes para definir superioridade.
- Doença Hepática: DOACs são seguros nas classes Child-Pugh A e B. Na classe C, são formalmente contraindicados pelo alto risco de sangramento.
- Oncologia e Sistema Nervoso Central: DOACs são não-inferiores à HBPM em câncer ativo. Em tumores cerebrais, os DOACs podem ser considerados frente à HBPM por menor risco hemorrágico.
- Monitoramento:
De acordo com as diretrizes de 2026, o monitoramento laboratorial da heparina de baixo peso molecular (HBPM) de rotina não é indicado para a maioria dos pacientes que recebem doses padrão baseadas no peso corporal.
No entanto, quando o monitoramento for necessário, deverá ser feito seguindo as recomendações:
- O monitoramento é realizado por meio da mensuração do nível de anti-Xa, calibrado para o tipo de HBPM que o paciente está recebendo.
- A amostra de sangue deve ser coletada para medir o pico de concentração, que ocorre entre 3 e 5 horas após a administração de uma dose de HBPM.
- O monitoramento só deve ser realizado quando o medicamento atingir o estado de equilíbrio. Isso geralmente requer aguardar até que pelo menos 3 doses (ou 3 a 5 meias-vidas) tenham sido administradas. Para pacientes com função renal comprometida, pode ser necessário aguardar um número maior de doses, visto que a meia-vida do medicamento é prolongada.
Quando o monitoramento é indicado?
- Doença Renal Crônica (DRC) grave (depuração de creatinina < 30 mL/min)
- Populações com benefício incerto: o monitoramento dos níveis de anti-Xa não está bem estabelecido em diversas outras situações especiais, incluindo gestantes, pessoas com obesidade grave (IMC > 40 kg/m² ou peso > 150 kg) ou pacientes em estado crítico tratados na UTI.
- Seguimento:
O primeiro follow-up (presencial ou telemedicina) deve ocorrer na primeira semana após a alta para checar adesão, complicações hemorrágicas e dúvidas do paciente. Entre 3 e 6 meses, uma consulta médica formal deve ocorrer neste para definir a duração da anticoagulação e ativamente pesquisar limitação funcional.
Duração da Anticoagulação
- TEP Provocado (Fator de Risco Reversível Maior, ex: grande cirurgia): Suspender a anticoagulação ao final da fase inicial (3 a 6 meses).
- TEP Não Provocado ou Fator Persistente (ex: Câncer): A anticoagulação deve ser continuada para a “fase estendida” (indefinidamente), com reavaliações periódicas do risco hemorrágico.
- Dose na Fase Estendida: Em pacientes sem câncer que seguem para a fase estendida, a diretriz recomenda a redução de dose do DOAC (ex: apixabana 2,5 mg 12/12h ou rivaroxabana 10 mg/dia) para otimizar a segurança.
Investigação Etiológica:
- Rastreio de Câncer: Em pacientes com TEP sem fator desencadeante claro, realizar anamnese detalhada, exame físico e rastreio de câncer específico para a idade. A diretriz é taxativa: não há benefício em solicitar PET-CT ou TC de rastreio extensivo de rotina.
- Trombofilias: Testar apenas se o paciente tiver TEP não provocado, idade < 55 anos ou história familiar fortíssima, e se o resultado for mudar a conduta ou o aconselhamento genético da família.
Complicações e Sequelas (Doença Pulmonar Tromboembólica Crônica – CTEPD)
Até 50% dos pacientes relatam dispneia persistente após o evento agudo. O principal objetivo aqui é o diagnóstico precoce da CTEPD. Todos os pacientes com dispneia ou limitação funcional persistente após ≥ 3 meses de anticoagulação terapêutica exigem investigação formal para CTEPD.
O ecocardiograma (ECOTT) isolado tem baixo valor preditivo negativo. Recomenda-se a combinação de ECOTT com cintilografia de perfusão pulmonar (V/Q ou SPECT). O Teste de Exercício Cardiopulmonar (CPET) também é altamente razoável para documentar limitação vascular. Caso se confirme a Doença Pulmonar Tromboembólica Crônica com Hipertensão Pulmonar (CTEPH), o paciente deve ser encaminhado a um centro de referência. A anticoagulação plena deve ser mantida durante toda a investigação.
Atenção: solicitar AngioTC de controle para pacientes que ficaram assintomáticos, com o único fim de verificar a “resolução anatômica do trombo”, não traz benefício e não é recomendado. A presença de trombo residual é comum e nem sempre se traduz em doença clínica.
- Manejo do TEP Recorrente
Diagnóstico e Confirmação
- A suspeita de recorrência exige confirmação objetiva. A AngioTC de tórax é o método de escolha. A cintilografia V/Q é uma alternativa razoável se houver um exame prévio para comparação.
- Deve-se comparar a imagem atual com exames anteriores para identificar o acometimento de um vaso ou segmento novo.
- D-dímero: Um resultado normal ajuda a excluir a recorrência, mas um D-dímero elevado nunca deve ser usado como critério diagnóstico isolado.
Avaliação das Causas de Recorrência: Em pacientes que apresentam novo TEP mesmo estando anticoagulados, é obrigatório investigar fatores clínicos e farmacológicos:
- Fatores Clínicos: Câncer ativo, presença de anticorpos antifosfolípides, gestação, vasculites e doenças inflamatórias. Em pacientes com terapia parenteral, deve-se suspeitar de trombocitopenia induzida por heparina (HIT) ou deficiência de antitrombina.
- Fatores Farmacológicos: As principais causas de falha são a má adesão ao tratamento e o uso de doses subterapêuticas. É crucial investigar interações medicamentosas (ex: uso de indutores da CYP-3A4 junto com DOACs), interações alimentares (ex: rivaroxabana de 15mg ou 20mg precisa ser ingerida com alimentos) e problemas de absorção devido a cirurgias gastrointestinais prévias.
Manejo e Ajuste:
- Adesão ou Dose Subterapêutica: Não é necessário trocar a classe do medicamento. O foco deve ser a educação do paciente e o aumento da monitorização.
- Recorrência em vigência de DOAC com dose reduzida: Se o paciente teve o evento durante a fase de manutenção com dose reduzida, é razoável retornar à dose plena (terapêutica) do mesmo anticoagulante.
- Recorrência em Anticoagulação Plena: Se o paciente foi aderente à dose terapêutica correta, a conduta padrão é trocar a classe do medicamento, geralmente optando por um agente parenteral como a heparina de baixo peso molecular (HBPM) ou fondaparinux.
- Pacientes Oncológicos: Se a recorrência ocorrer em um paciente com câncer em uso de HBPM, recomenda-se aumentar a dose da HBPM em 20% a 25%.
Risco de Recorrência a Longo Prazo: A decisão de manter o tratamento após os 3 a 6 meses iniciais depende do fator desencadeante do primeiro TEP:
- TEP Não Provocado (Sem fator de risco reversível): Apresenta alto risco de recorrência a longo prazo (30% a 40% em 10 anos) se a medicação for suspensa. A extensão da anticoagulação é fortemente recomendada, pois reduz esse risco em 80%.
- Fator de Risco Reversível Maior (ex: cirurgia ou trauma grave): O risco de recorrência é muito baixo (menos de 1% ao ano). A anticoagulação deve ser suspensa após os 3 a 6 meses iniciais.
- Fatores de Risco Persistentes (ex: doença inflamatória intestinal crônica ou imobilidade): O risco permanece elevado ao longo do tempo. É razoável estender a anticoagulação indefinidamente (além de 6 meses) para prevenir novos eventos.
A implementação criteriosa das diretrizes da ACC/AHA de 2026 é o alicerce para o manejo seguro do TEP agudo. Para o médico que atua na linha de frente, o domínio dessas atualizações permite decisões pautadas em evidências, garantindo uma estratificação de risco precisa, a otimização de recursos diagnósticos e a indicação oportuna de terapias avançadas, fatores que impactam diretamente na redução da morbimortalidade
Autoria

Bruna Provenzano
Medica formada pela UERJ em 2014. Residência de clínica médica pela UERJ de 2015 a 2017. Pós-graduação em terapia intensiva pelo ID'Or. Título de terapia intensiva pela AMIB. Pneumologista pela UERJ.
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