O 81º Congresso Brasileiro de Cardiologia reuniu especialistas no Rio de Janeiro, de 8 a 10 de outubro, para discutir o risco cardiovascular perioperatório. Na sessão sobre perioperatório, o debate abordou avaliação pré-operatória, troponina pós-operatória e decisões orientadas pela possibilidade de melhorar desfechos.

Avaliação pré-operatória orienta condutas e exames
A avaliação pré-operatória deve sempre considerar estabilidade clínica, função ventricular, capacidade funcional, comorbidades e porte da cirurgia.
A presença de doença coronariana crônica e estável, isoladamente, não transforma necessariamente o paciente em candidato a alto risco nem inviabiliza a cirurgia. É necessário distinguir doença estável de síndrome coronariana aguda, instabilidade clínica, alterações funcionais relevantes ou outras condições cardiovasculares que exigem prioridade.
A avaliação pré-operatória deve responder se determinado exame ou intervenção terá capacidade de alterar a conduta, e não apenas confirmar a existência de doença coronariana.
Exames e revascularização antes da cirurgia
- As diretrizes apresentadas reservam exames invasivos e angiografia pré-operatória para situações selecionadas, sobretudo quando existe instabilidade ou quando o resultado poderá modificar o tratamento.
- Testes em cascata podem atrasar cirurgias sensíveis ao tempo sem oferecer benefício proporcional, além de acrescentarem custos, riscos e possíveis complicações.
- A revascularização deve ser indicada principalmente quando houver uma indicação clínica independente da cirurgia, como ocorre no contexto de síndrome coronariana aguda.
- A revascularização profilática antes de procedimentos não demonstrou redução consistente da mortalidade e, por isso, não deve ser utilizada como resposta automática à presença de doença coronariana.
- A tendência descrita nas referências brasileiras de 2024 e americanas recentes é de menor intervenção pré-operatória, maior monitorização e preservação do cronograma cirúrgico quando possível.
Saiba mais: Avaliação perioperatória de cirurgias não cardíacas: nova diretriz brasileira
Quando monitorar troponina pós-operatória?
A troponina pós-operatória pode aumentar mesmo sem sintomas típicos ou alterações evidentes no eletrocardiograma. O relato na sessão menciona elevação em, aproximadamente, 20% dos pacientes após cirurgia não cardíaca, conforme a população e a definição utilizadas.
Essa alteração apresentou associação com maior mortalidade em 30 dias, sem estabelecer causalidade. A discussão favoreceu dosagem basal e acompanhamento entre o primeiro e o terceiro dia nos pacientes selecionados, seguidos de avaliação clínica estruturada.
Saiba mais: Nova diretriz avaliação pré-operatória AHA
Artroplastia de quadril e joelho: quem merece mais atenção?
Uma das apresentações comparou as recomendações de diferentes sociedades para a dosagem de troponina em pacientes submetidos à artroplastia de quadril e joelho.
Principais diferenças entre as diretrizes:
- AHA/ACC 2024: considera razoável a dosagem de troponina em pacientes com doença cardiovascular conhecida, idade igual ou superior a 65 anos ou sintomas sugestivos de doença cardiovascular, quando submetidos a procedimentos de risco elevado.
- ESC 2022: recomenda uma estratégia mais sistemática de vigilância com troponina em pacientes selecionados, particularmente aqueles com idade igual ou superior a 65 anos ou fatores de risco cardiovascular submetidos a cirurgias de risco intermediário ou elevado.
- Diretriz brasileira de 2024: também contempla a vigilância perioperatória com troponina em pacientes de maior risco, considerando as características clínicas e o porte cirúrgico.
A apresentação destacou que as diretrizes não são completamente uniformes quanto à população que deve ser monitorizada, embora exista convergência na necessidade de identificar precocemente lesão miocárdica em pacientes de maior risco.
A dosagem pré-operatória pode ajudar a diferenciar elevações crônicas de alterações agudas relacionadas ao procedimento, enquanto as medidas pós-operatórias permitem reconhecer lesão miocárdica que frequentemente passaria despercebida pela ausência de sintomas.
Mensagem final
O manejo cardiovascular perioperatório está caminhando para uma abordagem mais individualizada, na qual o objetivo não é realizar o maior número possível de exames, mas identificar quais pacientes realmente se beneficiam de intervenções e vigilância intensificada.
A comparação entre as recomendações americanas, europeias e brasileiras reforça a importância da monitorização seletiva de troponina em pacientes de maior risco, especialmente após procedimentos de porte intermediário ou elevado.
O desafio permanece em transformar a identificação de lesão miocárdica pós-operatória em estratégias terapêuticas capazes de reduzir eventos cardiovasculares e mortalidade, sem aumentar desnecessariamente o risco hemorrágico ou comprometer a recuperação cirúrgica.
Saiba mais: ACC e AHA orientam avaliação cardiovascular pré-operatória
Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão da Equipe Afya.
Autoria

Juliana Avelar
Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com residência em Clínica Médica pela mesma instituição (2021). Residência em Cardiologia pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia (IDPC). Além de atuação na Afya, também atua em hospitais e em consultório particular.
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