Devido à crescente prescrição indiscriminada de testosterona para fins estéticos, se faz jus elucidar uma de suas principais indicações clínicas: Hipogonadismo masculino.
Recentemente, a revista Lancet lançou uma revisão sobre esse tema tão importante. Segue abaixo um breve resumo dela.

Conceitos importantes
O eixo hipotálamo-hipófise-testículo é responsável por orquestrar a espermatogênese e síntese de testosterona nos homens. O hipogonadismo orgânico é causado por alguma patologia que compromete a produção de testosterona a nível central (hipotálamo ou hipófise) ou a nível testicular. Já o hipogonadismo funcional é decorrente de causas secundárias (tais como obesidade, diabetes mellitus (DM), uso abusivo de anabolizantes e opioides, exercício físico extenuante, entre outras). Esse último pode ser corrigido tratando-se a condição de base.
A testosterona circula ligada à globulina ligadora de hormônios sexuais (SHBG), sendo que algumas condições podem falsear os níveis de testosterona por alterarem os níveis de SHBG.
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A SHBG é baixa em homens com obesidade, DM2 não tratado, em uso de glicocorticoides, em uso exógenos de androgênios, síndrome nefrótica, hipotireoidismo não tratado, cirrose e acromegalia. Já nos casos de idade avançada, hepatopatias, hipertireoidismo não tratado, consumo abusivo de álcool e uso de alguns anticonvulsivantes, ela pode aumentar.
Diagnóstico
O diagnóstico de hipogonadismo é baseado na deficiência clínica de andrógenos com confirmação laboratorial. Não é recomendado o rastreio de rotina de hipogonadismo se o paciente não apresentar clínica sugestiva.
A análise clínica deve envolver anamnese minuciosa e exame físico focado para achados de hipogonadismo. Alguns dos sintomas mais comuns em adultos podem ser: fadiga, humor deprimido, inaptidão para atividade física e atividades basais do dia a dia, além de sintomas sexuais como baixa libido e disfunção erétil.
A dosagem dos níveis de testosterona deve ser realizada pela manhã, de preferência entre 7h e 10h da manhã, em jejum e na ausência de doenças agudas. Uma dosagem baixa deve ser confirmada em nova dosagem e somente então os níveis de FSH e LH devem ser dosados para distinção entre hipogonadismo primário e secundário.
De um modo geral, o ponto de corte para os níveis de testosterona é de 300 ng/dL.
Tratamento
Casos de hipogonadismo funcional requerem o tratamento da causa de base com mudança de estilo de vida para perda ponderal e melhor controle metabólico. Já em casos de hipogonadismo orgânico, o tratamento é feito com reposição de testosterona.
A testosterona está disponível em diversas formulações e a decisão de qual via utilizar, deve ser baseada na disponibilidade do serviço de saúde e da decisão conjunta médico-paciente.
Antes de início da terapia, deve-se avaliar as contraindicações (ex: câncer de próstata, câncer de mama, planejamento de filhos em futuro próximo, insuficiência cardíaca e apnéia obstrutiva do sono – ambas não controladas).
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Após início da terapia, deve-se sempre monitorar os índices hematimétricos e de PSA e melhora dos sintomas, além de revisar em cada avaliação o risco-benefício da terapia.
Conclusão e mensagem prática
Como conclusão, o hipogonadismo masculino abrange um vasto grupo de etiologias e as manifestações clínicas dependem da idade do diagnóstico. É importante diferenciar o hipogonadismo orgânico do funcional, sendo esse um grande desafio para os médicos que atuam nessa área. O tratamento de escolha continua sendo a testosterona, sempre levando em consideração a segurança cardiovascular com análise personalizada para cada paciente do risco x benefício da terapia.
Autoria

Juliane Braziliano
Editora médica na Afya. Graduação em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Residência de Clínica Médica pelo Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE). Residência de Endocrinologia e Metabologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atuação na Afya e em consultório particular, além de telemedicina.
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