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Terapia Intensiva5 outubro 2026

Traqueostomia percutânea dilatacional exige seleção cuidadosa

Revisão reúne evidências sobre segurança, complicações e viabilidade da traqueostomia percutânea dilatacional em contraindicações tradicionais.
Por Julia Vargas

A traqueostomia percutânea dilatacional (TPD) é o procedimento de eleição para acesso traqueal eletivo em pacientes críticos, substituindo progressivamente a traqueostomia cirúrgica aberta (TS). Sua ampla aceitação decorre da combinação de execução à beira do leito, menor tempo operatório, redução da infecção de sítio cirúrgico e custo-efetividade favorável. Entretanto, a prática clínica ainda depende fortemente de um conjunto de contraindicações tradicionais provenientes de experiências históricas com amostras limitadas, extrapolação de dados da traqueostomia cirúrgica ou avaliações de risco que não consideram novas tecnologias, como a broncoscopia em tempo real e a ultrassonografia cervical.

Entre as contraindicações frequentemente consideradas estão coagulopatia e/ou plaquetopenia grave, obesidade mórbida, anatomia cervical desfavorável — como pescoço curto, cirurgia cervical prévia no sítio da traqueostomia, radioterapia local, neoplasia cervical ativa e bócio volumoso —, instabilidade hemodinâmica, necessidade de frações inspiradas de oxigênio elevadas com PEEP alta, paciente não intubado, via aérea de emergência e faixa etária pediátrica.

Esta revisão sistemática se propôs a responder em que medida essas contraindicações refletem um risco real mensurável, e não uma precaução conservadora nunca validada. Os autores utilizaram publicações desde 1985 até a data de indexação. Foram incluídos estudos que relatassem explicitamente a realização de TPD em pacientes com pelo menos uma contraindicação convencional documentada. Após a triagem, 76 estudos foram incorporados à análise, totalizando 2.232 pacientes.

As contraindicações foram categorizadas individualmente. Os desfechos primários avaliados incluíram taxa global de complicações, com estratificação em sangramento, estreitamento do estoma, infecção, granuloma, perda de via aérea, falha procedimental, pneumotórax, celulite, fístula traqueoesofágica, falso trajeto, pneumomediastino, enfisema subcutâneo, mortalidade diretamente atribuída ao procedimento e outros eventos graves, além da taxa de conversão para TS aberta. O uso de tecnologias adjuvantes, como broncoscopia e ultrassonografia, foi registrado como modificador de contexto. Diante da heterogeneidade metodológica entre os estudos, os autores optaram por síntese qualitativa, sem metanálise quantitativa formal, limitação reconhecida e amplamente discutida no texto.

 

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médico mexendo em cânula de traqueostomia em crianças

Complicações da traqueostomia percutânea foram pouco frequentes

A contraindicação mais prevalente foi a diátese hemorrágica, incluindo coagulopatia e/ou plaquetopenia, presente em 947 pacientes (42,4%). A obesidade mórbida respondeu por 360 casos (16,1%) e a faixa etária pediátrica, por 254 (11,4%). Paciente não intubado, via aérea de emergência, instabilidade hemodinâmica e anatomia cervical adversa, incluindo cirurgia prévia no sítio, radioterapia, malignidade local e fratura cervical instável, compunham o restante das contraindicações, com frequências menores, mas de elevada relevância clínica.

As indicações primárias para traqueostomia foram intubação prolongada, obstrução de vias aéreas e trauma.

As complicações mais prevalentes foram sangramento, com taxa de 5,96% — episódios leves a moderados manejados no próprio leito, sem necessidade de conversão cirúrgica na maioria dos casos —, estreitamento do estoma (0,67%), infecção local (0,63%), granuloma (0,58%), perda de via aérea (0,40%), falha procedimental (0,36%), pneumotórax (0,31%) e fístula traqueoesofágica (0,22%).

A mortalidade diretamente atribuída ao procedimento teve prevalência de 0,13%. A fístula traqueoinominada e a oclusão da cânula por hematoma foram os eventos mais raros, cada um com prevalência de 0,04%.

 

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Contraindicações tradicionais exigem planejamento individualizado

A principal mensagem do estudo é, ao mesmo tempo, simples e transformadora: contraindicações tradicionais à TPD, particularmente coagulopatia e obesidade mórbida, foram historicamente superestimadas como preditores absolutos de risco. A evidência acumulada em 2.232 pacientes sugere que essas condições devem ser reinterpretadas como fatores que exigem planejamento técnico reforçado e expertise do operador, e não como barreiras intransponíveis ao procedimento.

A conclusão dos próprios autores é precisa nessa calibragem: os dados não justificam o uso rotineiro da TPD em todos os pacientes com contraindicações tradicionais; sustentam, entretanto, sua viabilidade em casos cuidadosamente selecionados, conduzidos por equipe experiente e com suporte de retaguarda disponível.

Um fator frequentemente negligenciado nas discussões sobre contraindicações é o custo do adiamento. Manter o paciente em intubação prolongada por receio de realizar TPD em um contexto de contraindicação relativa gera seus próprios riscos: estenose subglótica, lesão das cordas vocais, aumento do risco de pneumonia associada à ventilação mecânica e comprometimento do programa de reabilitação precoce e desmame ventilatório.

Por isso, deve-se considerar qual risco é maior: o do procedimento realizado com suporte adequado ou o da manutenção da intubação prolongada.

 

Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão de médicos.

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Julia Vargas

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