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Terapia Intensiva18 julho 2026

Traqueostomia na UTI: novas recomendações para cuidados e desmame

Consenso reúne recomendações para cuidados, desmame ventilatório e decanulação de pacientes traqueostomizados após ventilação mecânica invasiva.
Por André Japiassú

A falha na extubação, depois de um período em ventilação mecânica, ocorre em torno de 15% dos casos. Cerca de 1/3 destes casos, sem sucesso, permanecem ventilados depois de três meses. Esses pacientes geralmente precisam de traqueostomia, principalmente se o desmame da ventilação vai demorar por mais de 7 a 14 dias. As grandes bases de dados de pacientes em UTI são cerca de 5% dos pacientes que precisam do procedimento. Existem vantagens como poder sair da ventilação mecânica com a via aérea assegurada, redução do trabalho respiratório, melhora no conforto do paciente, redução da necessidade de sedativos e uma pequena vantagem em relação a mobilização do paciente. 

O desmame da ventilação leva em geral, em torno de 10 a 12 dias após a realização da traqueostomia. A grande parte desses pacientes consegue a decanulação (86%). A mortalidade hospitalar desse grupo está em torno de 20 a 25%, e cerca de 1/3 deles ainda vão precisar de traqueostomia no momento da alta hospitalar.  

desmame de pacientes com traqueostomia

Métodos: 

As recomendações foram feitas para pacientes adultos que fizeram traqueostomia durante uma permanência mais prolongada na UTI. Foram excluídos pacientes grande queimados e aqueles que precisaram de traqueostomia por lesões anatômicas otorrinolaringológicas, como tumores e lesões traumáticas, e por fim, doenças neuromusculares progressivas.  

O painel foi formado por um total de 25 experts em terapia intensiva de diversas categorias profissionais, incluindo médicos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas e enfermeiros. O grau de recomendação foi dado como 1 ou 2, sendo 1 quando tinha uma evidência forte para uso e 2 quando havia apenas sugestão (evidência mais fraca). Eles também mediram o grau de acordo entre as recomendações, sendo de 1 a 3 como desacordo, 4 a 6 indecisão, e 7 a 9 como forte. As recomendações foram consideradas aprovadas se pelo menos 50% dos experts concordavam e não mais que 20% não concordava. 

Resultados: 

No total das questões, nenhuma teve forte recomendação grau 1. Foram sete recomendações condicionais grau 2, 10 opiniões de experts com variados grau de concordância e 8 sentenças sem recomendações. 

Segue o resumo das recomendações para o cuidado e desmame de pacientes traqueostomizados em UTI: 

R1: Realizar cuidados diários com o estoma sem o uso de antissépticos, preferindo sabão neutro, soro fisiológico ou água. — Expert opinion. 

R2: Utilizar curativos de espuma para limitar o risco de lesões por pressão ao redor do estoma. — Expert opinion. Estes curativos evitam abrasões e lesões ulceradas pela cânula no óstio. 

R3: Devido à falta de dados, não há recomendação sobre o tipo específico de higiene oral a ser realizado. — No recommendation. O uso de clorexidina ou povidona foram comparadas, mas não há redução significativa de pneumonia. 

R4: Não suturar as cânulas de traqueostomia, exceto em situações específicas de alto risco. — Expert opinion. 

R5.1: Manter a pressão do cuff abaixo de 30 cmH₂O para diminuir o risco de lesão traqueal. — Expert opinion. Não há estudos clínicos que comprovem, mas esta pressão é limite teórico para perfusão de mucosas da traqueia. 

R5.2: Manter a pressão do cuff acima de 20 cmH₂O para limitar a ocorrência de pneumonia associada ao ventilador. — Expert opinion. Também não há estudos comparativos, mas há provável macroaspiração com pressões baixas do cuff. 

R6: Não há recomendação sobre o uso sistemático de cânulas internas (endocânulas) nas cânulas de traqueostomia. — No recommendation. A formação de biofilmes microbiológicos é semelhante com ou sem endocânulas e há possibilidade de aumento de resistência de via aérea com endocânulas em cânulas de menor tamanho. 

R7: A instilação de solução salina normal não deve ser realizada rotineiramente durante a aspiração traqueal. — Grade 2-, com aprovação forte dos experts. Há pensamento falso de instilação para fluidificar e aspirar mais secreção, e isso não deve ser realizado. 

R8: O desmame da ventilação mecânica deve ser feito preferencialmente por sessões de respiração fora do ventilador em vez da redução progressiva do suporte. — Grade 2+. Aqui houve estudos que compararam desconexão abrupta versus redução progressiva de pressão de suporte, com redução de 4 dias do tempo de desmame de ventilação. 

R9: Os períodos de liberação do ventilador devem ser realizados com o cuff esvaziado. — Grade 2+. Esta manobra reduz a resistência e aumenta o diâmetro da via aérea. Um teste rápido de oclusão deve ser realizado para confirmar a patência da traqueia ao redor da cânula e o paciente não deve apresentar aspiração grosseira. O teste com líquido azul pode ser realizado, embora não seja obrigatório. 

R10: Utilizar uma válvula de fala, com o cuff esvaziado, durante os períodos de liberação do ventilador. — Expert opinion. 

R11: As trocas de cânula de traqueostomia não devem ser realizadas de forma sistemática. — Expert opinion. Existe recomendação dos fabricantes para troca em 1 mês, mas o mais importante é evitar a troca precoce (< 6 dias) por conta do risco de falso trajeto. A troca eventual da cânula pode reduzir a incidência de granulomas. 

R12: A troca da cânula deve ser integrada à estratégia de desmame quando o objetivo for aumentar o espaço aéreo efetivo (ex: redução do tamanho da cânula). — Grade 2+. Dados observacionais apontam que reduzir o diâmetro da cânula pode ajudar na decanulação. 

R13: Não há recomendação sobre o uso de dispositivos de terapia de alto fluxo durante os períodos de liberação do ventilador. — No recommendation. 

R14: Não há recomendação preferencial entre umidificação ativa ou passiva durante a liberação do ventilador. — No recommendation. 

R15: Não há evidências para recomendar a aplicação de um protocolo de liberação do ventilador padronizado universalmente. — No recommendation, com acordo forte entre os experts. Por mais incrível que pareça, um protocolo de desmame não reduz o tempo de ventilação. Provavelmente a desconexão repentina é eficaz (como visto em R8). 

R16: Para pacientes que toleram respiração fora do ventilador, o treinamento muscular inspiratório com carga de limiar não deve ser usado rotineiramente. — Grade 2-, com forte concordância. Cinco estudos randomizados não demonstraram vantagem neste tipo de estimulação nos desfechos de sucesso do desmame ou mortalidade.  

R17: Não há dados suficientes para recomendar técnicas instrumentais de assistência à tosse (“cough assist”) nesta população. — No recommendation. Estes dispositivos podem ajudar na aspiração de secreções de pacientes neuromusculares, com redução grave de forças ins e expiratórias. Mas são poucas evidências para se avaliar estes instrumentos. 

R18: Não há recomendação sobre técnicas de fluxo de ar translaríngeo para restaurar a fonação em pacientes que permanecem ventilados com cuff insuflado. — No recommendation. 

R19: Não há recomendação quanto ao uso de tubos de traqueostomia fenestrados devido a preocupações com segurança e falta de evidência de benefício clínico superior. — No recommendation. 

R20: Iniciar o manejo da deglutição precocemente, sem necessariamente aguardar a avaliação de um especialista externo. — Expert opinion. A ideia é iniciar as manobras de avaliação de deglutição rapidamente, principalmente em pacientes com AVE, e não atrasar mais que 14 dias. 

R21: A gastrostomia (GTT) não deve ser sistemática, devendo ser considerada com base no status nutricional e avaliação da deglutição. — Expert opinion. A decisão de GTT não deve ser somente pela deglutição falha, mas também por aspectos nutricionais (perspectiva de > 4 semanas de dieta enteral) e risco de aspiração. 

R22: A endoscopia não deve ser realizada sistematicamente antes da decanulação, sendo reservada para casos de falha ou suspeita de obstrução. — Grade 2-, com forte concordância. A avaliação clínica sistematizada é confiável e preferível, porque a endoscopia respiratória pode demonstrar lesões anatômicas mas sem comprometimento de resistência da via aérea. Logo, o exame deve ser indicado quando houve falha no processo de oclusão de traqueostomia ou o paciente foi decanulado e desenvolveu insuficiência respiratória após alguns dias.  

R23: A decisão de decanular deve ser guiada pela frequência de aspiração de vias aéreas (≤ 2 vezes por turno de 8h) em vez de um teste de oclusão (capping) de 24 horas. — Grade 2+. 

R24: Promover intervenções multidisciplinares coordenadas e treinamento da equipe para acelerar o processo de decanulação. — Expert opinion. 

Autoria

Foto de André Japiassú

André Japiassú

Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com residência médica na área de Clínica Médica e Terapia Intensiva na mesma UFRJ (2000). Especialista pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) desde 2000. Mestrado em Clínica Médica pela UFRJ (2003) e Doutorado em Ciências pela Fundação Oswaldo Cruz (2009).

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Referências bibliográficas

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