O uso de oxigenioterapia com alto fluxo e ventilação não invasiva (VNI) possui diversas indicações, incluindo pós-extubação de pacientes em ventilação mecânica – conforme a última diretriz da Sociedade Americana do Tórax. Este uso tem como racional fisiopatológico, com intenção de reduzir a reintubação por insuficiência respiratória. Os efeitos podem ser de aumentar a capacidade vital e residual funcional, evitar atelectasias. No entanto, a melhor indicação deste suporte é em pacientes de maior risco de falha no desmame da ventilação, entre eles a população obesa. A diretriz sugere o uso de VNI sobre outros métodos de oxigenioterapia, embora não se posicione se o alto fluxo pode ser igualmente benéfico nesta população. Os obesos podem estar mais predispostos a aumento de pressão extra-alveolar, por redução de complacência de parede torácica, aumento de pressão intra-abdominal e hipertensão pulmonar (principalmente em quem já apresenta síndrome de apneia do sono).
O Journal of Intensive Medicine publicou, em setembro de 2026, uma revisão sistemática e metanálise que vamos analisar a seguir: alguns estudos avaliaram estratégias de ventilação profilática após extubação em pacientes obesos críticos, porém os protocolos variam, incluindo uso de VNI por diferentes períodos (curtos ou prolongados) e configurações (CPAP ou BiPAP). Outro detalhe é que são raros os estudos que avaliaram o uso profilático, antes que o paciente apresente disfunção respiratória – é possível que o uso de VNI possa até prejudicar os pacientes nesta situação, por postergar a reintubação. O uso de VNI de modo profilático consiste em aplicar por 4, 12 ou mais horas diárias, com ajustes de pressões e imediatamente após a extubação do paciente.

Revisão sistemática compara VNI profilática e suporte de oxigênio
Os autores revisaram mais 800 referências, chegando apenas a 3 estudos randomizados controlados, com população obesa, que ventilou por mais de 24 horas e foi extubada e submetida a suporte convencional (oxigenioterapia de baixo ou alto fluxo) ou a VNI. O critério de inclusão foi de pacientes com índice de massa corporal ≥ 30 kg/m², com diferentes critérios de risco de falha de extubação. As populações dos estudos variaram entre 144, 206 e 627 pacientes nos 3 estudos, com idade média de 58 a 71 anos. A VNI profilática foi comparada a oxigênio convencional em 1 estudo ou alto fluxo em 2 estudos. Como as publicações foram entre 2022 e 2025, houve maior heterogeneidade das populações, que incluíram número variável de pacientes com Covid-19 e outras variadas causas de insuficiência respiratória aguda. Em 1 estudo, houve quase 15% de crossover entre os grupos. Portanto, houve considerável viés de seleção e tratamento nestas 3 pesquisas; a heterogeneidade passou de 30% em alguns dos principais resultados.
VNI profilática não reduz significativamente a reintubação
- Foram analisados 975 pacientes obesos extubados após pelo menos 24 horas de ventilação invasiva, no pool dos 3 estudos. A reintubação ocorreu em 16% do grupo com VNI versus 20% no grupo com suporte de oxigênio, sem diferença estatística significativa. A VNI profilática não reduziu significativamente a reintubação em pacientes obesos após 7 dias.
- Uma análise exploratória sugeriu que tempos mais prolongados de VNI (≥ 12 horas por dia) podem oferecer benefícios (redução de odds de quase 50%), mas necessita de confirmação com mais estudos. Podem haver possíveis confusões por viés de amostras basais das populações entre estudos.
- A mortalidade na UTI foi semelhante entre grupos, cerca de 5%, e sem diferença estatística; porém os estudos apresentaram risco de viés variável, e a evidência geral foi considerada de baixa qualidade.
A oxigenoterapia de alto fluxo permanece uma opção confortável, mas sem evidência de superioridade na redução de esforço respiratório. Aparentemente, a oxigenioterapia de baixo fluxo foi a opção com pior desempenho.
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Como interpretar a VNI após extubação em pacientes obesos
- A VNI profilática não mostrou benefício claro na redução de reintubação em pacientes obesos;
- Tempo mais prolongado de VNI em obesos pode ser benéfico, mas são necessárias novas pesquisas para confirmar.
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Autoria

André Japiassú
Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com residência médica na área de Clínica Médica e Terapia Intensiva na mesma UFRJ (2000). Especialista pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) desde 2000. Mestrado em Clínica Médica pela UFRJ (2003) e Doutorado em Ciências pela Fundação Oswaldo Cruz (2009).
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