A popularização das canetas à base de agonistas do receptor de GLP-1 transformou o tratamento da obesidade e ampliou as possibilidades de controle do peso. Mas, para pacientes com histórico ou sinais de transtornos alimentares, a mesma ação que reduz a fome pode assumir outro significado. Nesse grupo, a prescrição exige atenção não apenas ao IMC e aos resultados metabólicos, mas também à relação com comida e corpo.
Para a psiquiatra Dra. Tayne Miranda, o primeiro passo deveria ser uma avaliação cuidadosa antes do início do tratamento. “O ponto de partida é o rastreio obrigatório de transtornos alimentares, antes de iniciar um agonista do receptor de GLP-1, em todas as faixas de IMC”, afirma.
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Nem todo transtorno alimentar aparece em um corpo magro
Um dos principais desafios é justamente não associar automaticamente transtorno alimentar ao baixo peso. A anorexia nervosa pode ocorrer em pessoas com peso normal ou acima dele, no quadro conhecido como anorexia atípica.
Histórico de dietas muito restritivas, jejuns prolongados, tentativas extremas de emagrecimento, perda rápida de peso, episódios de compulsão, comer escondido, culpa após as refeições e uso de vômitos, laxantes ou exercício excessivo estão entre os sinais que merecem investigação.
Também devem chamar atenção a preocupação excessiva com peso e forma corporal, pesagens frequentes, rigidez alimentar e histórico de estigma relacionado ao peso. “Muita gente associa transtorno alimentar a magreza, mas a anorexia atípica acontece justamente em pacientes que estão em peso normal ou até acima do peso”, ressalta a psiquiatra.
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Quando reduzir a fome pode reforçar a restrição
O alerta ganha força diante de transtornos alimentares ativos. Como os agonistas de GLP-1 reduzem de maneira importante e sustentada o apetite, esse efeito pode reforçar padrões restritivos em pessoas vulneráveis.
Na anorexia ativa, inclusive na apresentação atípica, a especialista considera que as canetas não devem ser prescritas. Na bulimia, a supressão do apetite pode intensificar ciclos de restrição que antecedem episódios de compulsão, enquanto náuseas e vômitos provocados pelo medicamento podem se confundir com comportamentos purgativos.
Já na compulsão alimentar, existem estudos que sugerem possível redução dos episódios, mas a evidência ainda é limitada. “Essas medicações não são vilãs, mas também é importante termos em mente que elas não são tratamento para transtornos alimentares”, pontua Dra. Tayne.
Em pessoas com transtorno em remissão, a situação exige outra avaliação. Não há contraindicação absoluta, mas o risco permanece maior e devem ser considerados o tempo e a estabilidade da remissão, com acompanhamento próximo.
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O peso não pode ser o único marcador de sucesso
O acompanhamento precisa ir além da balança. Mudanças no padrão alimentar, compulsão, comportamentos compensatórios, rigidez alimentar, checagem corporal, humor e uso inadequado da medicação também devem fazer parte da avaliação.
“É preciso distinguir o efeito biológico da medicação sobre o apetite da restrição intencional e excessiva”, explica a psiquiatra. Para ela, a comunicação também é fundamental: elogiar exclusivamente a perda de peso pode reforçar uma relação disfuncional com o corpo.
Por isso, pacientes com transtorno alimentar ativo ou histórico relevante devem ser acompanhados de forma multidisciplinar. Psiquiatra, psicólogo, nutricionista e médico responsável pelo tratamento da obesidade precisam compartilhar informações e objetivos.
No fim, a questão não é demonizar as canetas, mas reconhecer que o mesmo medicamento pode ter significados e riscos diferentes dependendo da história de cada paciente. Antes de perguntar quanto peso ele pode perder, é preciso entender o que está por trás do desejo de emagrecer, e o que essa perda pode representar para sua saúde.
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Autoria

Roberta Santiago
Roberta Santiago é jornalista desde 2010 e estudante de Nutrição. Com mais de uma década de experiência na área digital, é especialista em gestão de conteúdo e contribui para o Portal trazendo novidades da área da Saúde.
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