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Reumatologia17 agosto 2026

Desenvolvimento de dano estrutural na coluna de pacientes com artrite psoriásica

Estudo examinou as associações entre marcadores da artrite psoriásica (APs) e o desenvolvimento de dano estrutural na coluna vertebral

A artrite psoriásica (PsA) é uma doença complexa, na qual um amplo espectro de manifestações pode ocorrer. Dentre elas, destacam-se o acometimento osteoarticular axial, periférico e entésico, combinados com manifestações clínicas variáveis envolvendo a pele e outros órgãos extra-articulares.

A prevalência do acometimento axial na PsA varia muito conforme a série analisada, podendo estar presente em 25 a 70% dos pacientes. Esse tipo de manifestação aumenta a sobrecarga causada pela doença, com frequente necessidade de escalonamento do tratamento para medicamentos modificadores do curso da doença (DMARDs) biológicos (bDMARDs) ou sintéticos alvo-específicos (tsDMARDs). Como consequência do processo inflamatório continuado, alterações estruturais ósseas (dano radiográfico) podem surgir nesses pacientes ao longo do acompanhamento.

De modo a contribuir com esse tema ainda relativamente pouco estudado, Kharouf et al. analisaram recentemente dados de uma coorte longitudinal com o objetivo de avaliar a associação entre atividade de doença e marcadores de gravidade em múltiplos domínios da PsA e o desenvolvimento de dano estrutural na coluna desses pacientes.

Desenvolvimento de dano estrutural na coluna de pacientes com artrite psoriásica

Métodos

Trata-se de um estudo de coorte prospectivo e observacional, realizado no programa de APs Gladman Krembil, em Toronto. Dos 1.584 pacientes com PsA analisados, a maioria (mais de 99%) preenchia os critérios CASPAR.

Os pacientes foram avaliados clinicamente a cada 6-12 meses, e radiografias da coluna cervical, lombar e das articulações sacroilíacas foram obtidas no início do estudo (baseline) e, posteriormente, a cada dois anos. O dano estrutural espinal foi definido pelo desenvolvimento de pelo menos um novo sindesmófito.

Os autores utilizaram a regressão de Cox para examinar a associação entre o desenvolvimento de sindesmófitos e diversos marcadores de atividade e gravidade da doença (como VHS, PCR, PASI, contagem de articulações inchadas, entesite e dactilite). Na análise multivariada, os modelos foram ajustados para idade, sexo, duração da APs, IMC, tabagismo, década de observação, presença de HLA-B27 e HLA-A29, uso de AINEs, pontuação de sacroiliíte radiográfica e uso de b/tsDMARDs.

Resultados: dano estrutural na coluna de pacientes com artrite psoriásica

Dos 1.584 pacientes incluídos, 55,5% eram do sexo masculino e 85,6% eram brancos, com mediana de idade de 45 (34,3-54,7) anos. A mediana de duração da PsA no baseline era de 2,9 (0,7-8,8) anos. As comorbidades foram relativamente frequentes, com 14,7% com hipertensão, 7,9% com dislipidemia e 6,4% com diabetes.

No início do estudo, 218 (13,8%) dos pacientes já apresentavam sindesmófitos. Entre os 922 pacientes sem sindesmófitos iniciais que realizaram radiografias de acompanhamento, 166 (18%) desenvolveram novos sindesmófitos durante um acompanhamento mediano de 8,5 anos. O tempo mediano para o desenvolvimento de um novo sindesmófito foi de 5,8 anos.

Dentre os preditores identificados na análise multivariada, apenas dois fatores mantiveram associação independente com o desenvolvimento de danos na coluna: VHS elevado (HR 1,02) e a pontuação de sacroiliíte radiográfica mais alta (HR 1,19)

O risco de desenvolver sindesmófitos diminuiu significativamente nas décadas mais recentes. Em comparação com o período de 1978-1988, o risco foi muito menor entre 2011-2025 (HR 0,16), o que os autores atribuem a melhorias no cuidado clínico e maior disponibilidade de tratamentos eficazes. Na análise univariada, o uso de b/tsDMARDs (especialmente inibidores de TNF) foi associado a um menor risco de desenvolvimento de sindesmófitos.

Por fim, a presença de sindesmófitos foi associada a uma pior função física, medida pelo índice de incapacidade HAQ.

Fatores como sexo masculino, maior duração da APs, IMC elevado, doença ungueal e dactilite também mostraram associação nas análises univariadas, mas não se mantiveram como preditores independentes no modelo final.

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Comentários

Os sindesmófitos surgiram em um a cada 5 pacientes com artrite psoriásica (PsA), durante um seguimento de longo prazo. Este estudo nos sugere que a inflamação sistêmica persistente é um motor do dano, e que a presença de dano estrutural nas articulações sacroilíacas está ligada a alterações estruturais subsequentes na coluna.

Autoria

Foto de Gustavo Balbi

Gustavo Balbi

Editor-chefe médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), com residência em Reumatologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e doutorado em Ciência pela Universidade de São Paulo (USP). Além da atuação na Afya, é professor de Reumatologia na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e também atende em consultório particular.

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