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Pediatria17 agosto 2026

Vitamina K no recém-nascido: profilaxia e risco de sangramento

Coorte sueca avalia vitamina K no recém-nascido e a relação entre ausência da profilaxia e sangramentos nos primeiros seis meses.

A vitamina K é essencial para a ativação de vários fatores de coagulação, sendo que valores baixos podem produzir sangramentos com risco de vida ou mesmo lesões neurológicas. Durante muitos anos, adotou-se a vitamina K intramuscular ao nascimento como uma maneira de prevenir essa situação, com redução importante observada na ocorrência da doença após a adoção dessa prática. Mas, nos últimos anos, a recusa ou mesmo a hesitação em relação a essa profilaxia provocaram uma queda na utilização dessa prática no recém-nascido, principalmente pela associação da ideia de agressão à aplicação, sem benefício aparente para a criança. 

O estudo recente publicado no JAMA Pediatrics realizou uma coorte com base em registros nacionais da Suécia, na qual foi avaliada a ocorrência da não realização da profilaxia e sua relação com a ocorrência de sangramento no período neonatal e até os 6 meses de vida. 

Saiba mais: Recém-nascidos devem receber vitamina K em até seis horas depois do nascimento 

Como foi conduzida a coorte nacional sueca? 

Trata-se de um estudo de coorte nacional baseado nos registros de saúde suecos, incluindo nascidos vivos com idade gestacional maior que 35 semanas, no período de 1º de janeiro de 2003 a 31 de dezembro de 2021. 

O total de crianças incluídas na avaliação foi de 2.020.302, e foram obtidos dados dos formulários da sala de parto sobre a administração de vitamina K intramuscular. 

O desfecho primário do trabalho foi a identificação de qualquer quadro de sangramento não traumático nos primeiros 6 meses de vida dessas crianças, e o desfecho secundário avaliou a ocorrência de sangramentos intracranianos no mesmo período de vida. 

Além disso, compararam-se os riscos de sangramento com a utilização de profilaxia oral como alternativa à aplicação intramuscular. 

A não realização da profilaxia ao longo do período estudado 

A aplicação de vitamina K intramuscular deixou de acontecer em 24.089 crianças, com aumento progressivo da proporção de crianças que não receberam a profilaxia: em 2006, 0,66% não a realizaram, enquanto, em 2021, esse percentual chegou a 1,50%. 

Os partos domiciliares apresentaram a maior proporção de não realização da profilaxia com vitamina K, de 64,14%. 

A vitamina K oral foi registrada como utilizada em 1.457 crianças no período de 2012 até o final do estudo. 

Saiba mais: Deficiência de vitamina K nos recém-nascidos 

Risco de sangramento sem vitamina K intramuscular 

Sobre o desfecho primário avaliado, as crianças que não receberam vitamina K apresentaram uma chance 52% maior de sangramento, em comparação com aquelas que receberam a aplicação. 

Quanto ao desfecho secundário, a chance de sangramento intracraniano foi quase três vezes maior em comparação com o grupo que recebeu a aplicação, com OR ajustado de 2,91 (intervalo de confiança de 95%: 2,13-3,96). 

Quando foi analisado apenas o período neonatal, o sangramento não traumático e o sangramento intracraniano apresentaram, respectivamente, OR ajustado de 2,62 e 2,90, valores superiores a 2,5 vezes os observados no grupo que recebeu vitamina K. 

Vitamina K oral na comparação com a administração intramuscular 

Os pacientes que receberam vitamina K oral apresentaram chance 2,26 vezes maior de sangramento que o grupo que recebeu a aplicação intramuscular. 

O que os achados representam para a prática pediátrica? 

Este estudo, apesar de ser observacional, apresenta um expressivo número de crianças e demonstra o benefício associado à aplicação de vitamina K intramuscular. A utilização de dados de registros nacionais de um país com boa assistência à saúde demonstra, segundo a interpretação apresentada no texto, a robustez dos dados para sua utilização na prática médica. 

O pediatra deve trabalhar com esses dados, demonstrando a importância da aplicação da vitamina K intramuscular como alternativa segura apresentada no texto até o momento para a redução da doença hemorrágica do recém-nascido. As formulações orais não demonstraram, neste trabalho, a mesma efetividade na redução da doença. 

Essas informações devem ser passadas sem julgamento ao abordar a recusa familiar, oferecendo aos pais informações concretas sobre o risco real de sangramento e sequelas do sistema nervoso. 

Muitas famílias recebem informações baseadas em opiniões de profissionais ou mesmo de pessoas não ligadas à saúde, sem respaldo científico. A intenção da família é proteger seu filho, poupando-o da dor da aplicação. Porém, a informação deve ser clara: assim como são realizadas vacinas para prevenir doenças graves, apesar da dor local, a aplicação da vitamina K é, atualmente, apresentada no texto como a maneira mais segura para evitar a doença hemorrágica do recém-nascido. Cabe ao pediatra abordar esse tema de forma acolhedora, clara e com embasamento técnico adequado. 

Saiba mais: NICE atualiza diretriz sobre cuidados intraparto

Autoria

Foto de Jandrei Rogério Markus

Jandrei Rogério Markus

Conteudista médico na Afya. Graduado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Residência Médica em Pediatria e Infectologia Pediátrica pela UFPR. Especialização em Dermatologia Pediatria pela UFPR. Mestrado em Saúde da Criança e do Adolescente na área de Infectologia Pediátrica. Doutorado em Saúde da Criança e do Adolescente na área de Dermatologia Pediátrica. Pós-graduado em Controle de Infecções Hospitalar pelo Centro Universitário do Vale da Ribeira. Atuando como médico infectologista pediátrico no Hospital e Maternidade Dona Regina (HMDR) e do Hospital Geral Público de Palmas (HGPP). Médico do Serviço de Controle de Infecções da UTI Neonatal do HMDR, UTI Pediátrica do HGPP e da UTI adulto do HGPP. Professor de Pediatria da Afya Faculdade de Ciências Médicas em Porto Nacional, Tocantins. Membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia Pediátrica. Presidente do Departamento Cientifico de Dermatologia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

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