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Ginecologia e Obstetrícia3 julho 2026

NICE atualiza diretriz sobre cuidados intraparto

Atualização do NICE sobre cuidados intraparto aborda hidratação, parto na água, RPM a termo e vitamina K neonatal.
Por Sérgio Okano

O National Institute for Health and Care Excellence (NICE), do Reino Unido, publicou atualizações da diretriz sobre cuidados intraparto, que substituiu o guideline anterior de 2014. As orientações da diretriz servem para apoiar decisões sobre condutas clínicas, prescrição de medicamentos, indicação de tratamentos, segurança do paciente, organização de serviços e decisões compartilhadas com pacientes. 

A diretriz NG235, publicada em 2023, reúne recomendações sobre cuidado intraparto para pessoas gestantes e recém-nascidos durante o trabalho de parto e imediatamente após o nascimento, com foco em parto a termo, entre 37 e 42 semanas. 

Saiba mais: Trabalho de parto: fases, dilatação e manejo na assistência obstétrica  

Preparação para parto

O que foi atualizado na diretriz do NICE? 

Balanço hídrico, bexiga e risco de hiponatremia 

A diretriz passou a orientar que a pessoa em trabalho de parto beba quando tiver sede, preferindo, eventualmente, bebidas isotônicas, e que o excesso de líquidos pode ser prejudicial pelo risco de hiponatremia. Também atualizou o cuidado vesical a cada 4 horas, incluindo monitorização do balanço hídrico quando houver alteração da sensação vesical, dificuldade para urinar ou uso de fluidos intravenosos ou ocitocina. 

Foram acrescentadas recomendações para monitorar e registrar o balanço hídrico em situações de risco, como ingestão excessiva, uso de fluidos intravenosos, infusão de ocitocina, vômitos/diarreia, dificuldade para urinar, hemorragia ou pré-eclâmpsia. Se houver balanço positivo de 1.500 mL ou mais, ou sinais de hiponatremia, recomenda-se avaliação obstétrica, dosagem de sódio e transferência para ambiente obstétrico se a pessoa estiver em unidade liderada por obstetrizes ou enfermeiras obstetras. 

Manejo do primeiro período do trabalho de parto 

A diretriz orienta não indicar intervenção clínica rotineira se o trabalho de parto progride sem complicações; permitir retorno de vias de cuidado especializadas para o cuidado padrão quando a complicação se resolve; e não realizar amniotomia rotineira se não houver complicações ou preocupações. 

Parto na água e técnicas perineais 

A diretriz agora recomenda oferecer a oportunidade de trabalho de parto na água para alívio da dor, apoiar pessoas com mobilidade reduzida com avaliação individualizada e ajustes razoáveis, e considerar parto na água com discussão dos benefícios e incertezas. 

O texto menciona possível menor risco de trauma perineal grave em multíparas, menor risco de hemorragia pós-parto e menor admissão neonatal, porém possível aumento de ruptura do cordão antes do clampeamento. Quanto à mortalidade neonatal/perinatal, a evidência foi inconclusiva. 

As recomendações sobre compressa morna e massagem perineal foram mantidas, mas ganharam a ressalva de que não se aplicam a partos na água. 

Rotura prematura de membranas a termo 

Na recomendação 1.7.5, além do risco de infecção neonatal grave de 1% versus 0,5% com membranas íntegras, o texto agora explicita que o risco de infecção neonatal precoce aumenta conforme aumenta o intervalo entre rotura e nascimento. A diretriz também remete ao guideline de infecção neonatal para antibióticos intraparto, monitorização pós-natal e antibióticos para o bebê. 

Saiba mais: Ruptura prematura de membranas em gestações a termo deve ser feita após 24 ou 48 horas? 

Vitamina K neonatal 

Foram reintroduzidas duas recomendações: oferecer aos pais a aplicação de profilaxia com vitamina K ao recém-nascido, explicando que previne sangramento por deficiência de vitamina K; e preferir administração intramuscular, por ser o método mais eficaz. Se os pais recusarem a via intramuscular, deve-se oferecer vitamina K oral, orientando que pode exigir múltiplas doses, inclusive após a alta. 

Saiba mais: Recém-nascidos devem receber vitamina K em até seis horas depois do nascimento 

Definições atualizadas 

A definição de hiperestimulação/taquissistolia uterina agora especifica 5 ou mais contrações em 10 minutos por pelo menos 20 minutos. A seção de termos também passou a definir hiponatremia periparto como sódio abaixo de 130 mmol/L, com potenciais consequências graves maternas e neonatais. 

Mensagem prática 

guideline propõe medidas mais humanizadas na condução do trabalho de parto, incluindo o uso da submersão em água como estratégia de cuidado durante esse período. Além disso, recomenda evitar intervenções rotineiras no primeiro período do trabalho de parto quando a evolução ocorre sem complicações. 

O documento também reforça a importância da hidratação da gestante durante todo o processo e orienta atenção a sinais laboratoriais de alerta em situações específicas, como ingestão ou infusão excessiva de fluidos, uso de ocitocina, dificuldade para urinar e presença de pré-eclâmpsia. 

Em relação ao parto na água, o guideline recomenda cautela, considerando aspectos de segurança e incertezas que devem ser discutidos no processo de tomada de decisão. Nesse contexto, técnicas manuais passaram a não ser indicadas durante a imersão. 

Outro ponto relevante é a atualização conceitual de alguns termos. A taquissistolia passa a ser definida como a presença de cinco ou mais contrações em dez minutos, enquanto a hiponatremia periparto é definida como sódio sérico abaixo de 130 mmol/L. Em relação aos cuidados com o recém-nascido, o guideline reforça a indicação da administração de vitamina K no pós-parto. 

Autoria

Foto de Sérgio Okano

Sérgio Okano

Conteudista médico na Afya. Formado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), com residência médica em Ginecologia e Obstetrícia e na área de atuação em Sexologia. Possui mestrado e doutorado pela mesma instituição. Atende no serviço público, particular e trabalha com graduação médica e residência.

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Referências bibliográficas

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