A síndrome serotoninérgica (SS) é uma condição potencialmente fatal causada pelo excesso de atividade serotoninérgica no sistema nervoso central. Embora seja mais frequentemente discutida na população adulta, seu reconhecimento em crianças e adolescentes vem ganhando relevância diante do aumento do uso de medicamentos serotoninérgicos, especialmente antidepressivos. Uma nova diretriz publicada recentemente revisou as evidências disponíveis para o diagnóstico e o tratamento da SS em pediatria.

Tríade clínica caracteriza a síndrome serotoninérgica em pediatria
A síndrome serotoninérgica é definida pela presença de uma tríade clínica composta por:
- Hiperatividade neuromuscular;
- Instabilidade autonômica;
- Alteração do estado mental.
Entre os sinais mais característicos estão hiperreflexia, clônus espontâneo ou induzível, tremor, aumento do tônus muscular, agitação, diaforese, taquicardia, hipertensão e hipertermia. Nesse sentido, os autores destacam que o clônus e a hiperreflexia são os principais achados que ajudam a diferenciar a síndrome de outras emergências neurológicas e toxicológicas.
Quais medicamentos serotoninérgicos aumentam o risco?
A SS geralmente ocorre após uso isolado, associação ou interação medicamentosa envolvendo agentes serotoninérgicos.
Os principais grupos implicados incluem:
- ISRS e outros antidepressivos;
- Inibidores da monoaminoxidase (IMAO);
- Tramadol, fentanil e metadona;
- Linezolida;
- Metoclopramida e ondansetrona;
- Dextrometorfano;
- Drogas recreativas, como MDMA e cocaína;
- Suplementos contendo triptofano ou erva-de-são-joão.
O risco é maior em pacientes com polifarmácia, mudanças recentes de dose ou combinações inadvertidas de medicamentos prescritos por diferentes profissionais.
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Aplique os critérios de Hunter na síndrome serotoninérgica em pediatria
O diagnóstico permanece essencialmente clínico. Não há exames laboratoriais capazes de confirmar a síndrome serotoninérgica, e os níveis séricos de serotonina não apresentam correlação com a gravidade do quadro.
Os critérios de Hunter continuam como a principal ferramenta diagnóstica. Em adultos, a exposição recente a um agente serotoninérgico, associada a manifestações como clônus, hiperreflexia, tremor ou hipertermia, apresenta elevada acurácia diagnóstica. Em crianças, porém, a validação formal desses critérios ainda é limitada.
Benzodiazepínicos permanecem como tratamento de primeira linha
O primeiro passo consiste na suspensão imediata do agente causador e na prevenção de novas exposições serotoninérgicas.
Além disso, as medidas de suporte incluem:
- Hidratação intravenosa;
- Monitorização cardiorrespiratória;
- Controle da temperatura com resfriamento externo;
- Suporte ventilatório quando necessário.
Para o controle da agitação, do clônus e da hiperatividade neuromuscular, os benzodiazepínicos permanecem como tratamento de primeira linha. Já nos casos moderados ou graves, a ciproheptadina pode atuar como antagonista serotoninérgico.
Por fim, pacientes com hipertermia importante, convulsões, delirium ou instabilidade hemodinâmica requerem manejo em unidade de terapia intensiva.
Quando houver exposição serotoninérgica, priorize a prevenção
A principal mensagem da diretriz é que a síndrome serotoninérgica continua sendo um diagnóstico predominantemente clínico, cujo reconhecimento precoce influencia diretamente o prognóstico. A maioria dos pacientes apresenta recuperação completa em 24 a 72 horas após a retirada do agente desencadeante e o início das medidas de suporte adequadas.
Por outro lado, atrasos no diagnóstico podem resultar em complicações potencialmente graves, incluindo rabdomiólise, insuficiência renal aguda, coagulação intravascular disseminada e dano neurológico persistente.
Reconciliação medicamentosa previne a síndrome serotoninérgica em pediatria
Embora a qualidade das evidências em pediatria ainda seja limitada, os dados atuais reforçam a importância de identificar rapidamente os sinais neuromusculares típicos, especialmente clônus e hiperreflexia. Esses achados devem aumentar a suspeita diagnóstica em crianças e adolescentes com exposição a fármacos serotoninérgicos.
Além disso, a revisão ressalta a importância da reconciliação medicamentosa e da orientação das famílias sobre o armazenamento seguro de medicamentos, especialmente em domicílios que utilizam antidepressivos e outros agentes serotoninérgicos. Por fim, a prevenção continua sendo a estratégia mais eficaz para reduzir casos evitáveis de síndrome serotoninérgica na população pediátrica.
Autoria

Jôbert Neves
Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Realizou residência em Pediatria e especialização em Gastroenterologia Pediátrica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP). Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e experiência internacional como observer no SickKids, University of Toronto. Atuou ainda como Coordenador Young LASPGHAN do Grupo de Trabalho em Probióticos e Microbiota.
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