A Academia Americana de Pediatria, através de seu Comitê de Doenças Infecciosas, publicou na revista Pediatrics recomendações sobre a prevenção e o controle do vírus influenza em crianças. As recomendações são anuais e apresentam as orientações mais atuais sobre o manejo da infecção, desde as indicações de vacinação e testagem até as condutas nos casos suspeitos ou confirmados.
A vacinação continua sendo a principal estratégia de prevenção e é recomendada para todas as crianças a partir dos 6 meses de idade que não apresentem contraindicações.
Neste ano, algumas observações foram incluídas no documento, entre elas um alerta sobre o risco de crise convulsiva febril no primeiro dia após a vacinação em crianças menores de 4 anos.
Outra observação importante é que, nos Estados Unidos, não haverá mais vacina tetravalente contra influenza. Todas as formulações passarão a conter três cepas, sendo influenza A H1N1, influenza A H3N2 e influenza B Victoria.

Revisão científica sustenta recomendações pediátricas
O documento reúne uma revisão das evidências científicas realizada pelo Comitê de Doenças Infecciosas da Academia Americana de Pediatria, com avaliação de membros do comitê com experiência na área.
O principal objetivo é apresentar, de forma prática, um resumo das atualizações e recomendações sobre o tema no início da sazonalidade e diante das mudanças nas vacinas disponíveis no mercado.
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Quais crianças integram os grupos de risco?
Todas as crianças a partir dos 6 meses de idade devem receber a vacina contra influenza. A vacinação anual também é especialmente importante para pessoas que convivem com crianças, incluindo pais e cuidadores.
O documento enfatiza os grupos de maior risco na infância, como crianças menores de 5 anos, especialmente aquelas com menos de 2 anos, que devem receber a vacinação anualmente.
A vacinação deve priorizar também crianças que nasceram prematuras ou que vivem em abrigos ou lares adotivos.
Além disso, crianças com doenças crônicas devem receber incentivo para manter a vacinação anual.
Recomendações atualizam a vacina contra influenza em crianças
As vacinas desta temporada terão apenas três cepas, sendo influenza A H1N1, influenza A H3N2 e influenza B Victoria. O documento também aborda a vacina inativada, que médicos podem utilizar em pacientes imunossuprimidos.
A recomendação também cita a vacina contra influenza em spray nasal com vírus vivos atenuados, mas essa formulação não está disponível comercialmente no Brasil. Por esse motivo, atualmente não há recomendações nacionais relacionadas ao seu uso.
Crianças menores de 9 anos que ainda não tenham recebido duas doses da vacina contra influenza devem receber duas doses, com intervalo de quatro semanas. Aquelas maiores de 9 anos ou que já tenham recebido duas doses anteriormente devem receber uma dose anual.
Crianças com imunossupressão devem receber a vacina no início da sazonalidade. Aquelas em tratamento imunossupressor ou com previsão de início desse tratamento também devem receber a dose, respeitando o momento adequado conforme a medicação utilizada e o tempo de tratamento. A situação deve ser avaliada individualmente.
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Anafilaxia prévia exige avaliação antes da vacinação
A principal contraindicação descrita é a ocorrência de reação anafilática a vacinas anteriores. No entanto, o documento recomenda avaliação por alergista antes de contraindicar futuras vacinações.
Crianças com alergia ao ovo, mesmo aquelas com histórico de reação anafilática, podem receber a vacina da temporada sem precauções adicionais.
Na presença de doença aguda, recomenda-se adiar a vacinação até a melhora do quadro. O retorno para receber a vacina deve ser incentivado assim que houver recuperação da condição aguda.
Apesar da observação sobre a possibilidade de crise convulsiva febril após a vacinação, não há contraindicação para crianças com histórico de crises convulsivas ou epilepsia.
Quando a testagem para influenza em crianças muda a conduta clínica?
A testagem para influenza é recomendada nos casos em que o resultado possa trazer benefício ao manejo clínico. Entre as principais indicações estão a necessidade de prescrição de antiviral específico, a possibilidade de evitar o uso de antibióticos e a adoção de medidas de prevenção e controle da doença.
Em pacientes internados com sinais e sintomas sugestivos de influenza, a equipe deve realizar a testagem para favorecer o início precoce da terapia antiviral e orientar medidas de prevenção e controle da transmissão intra-hospitalar.
Além disso, o documento traz orientações sobre a testagem para gripe aviária H5N1, especialmente em pacientes com histórico de contato com aves selvagens, aves de criação ou vacas.
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Tratamento antiviral orienta o manejo da influenza em crianças
A vacinação permanece como a principal estratégia preventiva. Já a utilização de antivirais para prevenção ou tratamento da influenza em crianças depende da gravidade da doença e da presença de fatores de risco para complicações.
Preferencialmente, o tratamento deve começar nas primeiras 48 horas da doença. Em casos selecionados, porém, o médico pode iniciá-lo após esse período.
Em crianças que não necessitam de internação e não apresentam maior risco de complicações, o médico pode considerar o tratamento. Nesses casos, recomenda-se discutir com os pais ou responsáveis os possíveis riscos e benefícios da terapia.
A indicação do tratamento antiviral deve considerar o quadro clínico compatível com influenza, os fatores de risco para complicações e a epidemiologia local. Dessa forma, um teste positivo para influenza não é obrigatório para o início do tratamento.
Considerando a experiência e o tempo de uso, o documento recomenda o oseltamivir. O FDA aprova seu uso a partir de 2 semanas de vida, enquanto o CDC e a Academia Americana de Pediatria apoiam a utilização em qualquer idade, mesmo em prematuros.
Todas as crianças menores de 5 anos ou pertencentes a grupos de risco para complicações da influenza devem receber tratamento, independentemente da gravidade do quadro ou da necessidade de internação.
Além disso, toda criança internada, independentemente do estado vacinal, que apresente suspeita ou confirmação de influenza deve receber tratamento precocemente.
Se houver exposição, a profilaxia antiviral pode ser indicada
Nos casos de exposição, o documento recomenda o uso precoce de antiviral, em até 48 horas, para crianças que vivem em abrigos ou lares adotivos e apresentam alto risco de complicações pela infecção por influenza, com o objetivo de evitar surtos nessas unidades.
Em crianças com alto risco de complicações, a equipe pode indicar profilaxia antiviral quando a vacinação não for possível ou quando o calendário vacinal estiver incompleto, seja pela ausência de doses, seja porque a última dose ocorreu menos de duas semanas antes da exposição.
O documento ainda recomenda considerar a profilaxia para crianças expostas que convivam com familiares ou contatos próximos pertencentes a grupos de alto risco. Nesses casos, o médico deve avaliar individualmente a indicação.
O documento não recomenda profilaxia para crianças menores de 3 meses, devido à ausência de estudos de segurança nessa faixa etária.
Embora a Academia Americana de Pediatria tenha elaborado o documento para a população dos Estados Unidos, ele contempla situações ainda não disponíveis no Brasil, como a vacina em spray nasal com vírus vivo atenuado e antivirais mais recentes. Nos Estados Unidos, o baloxavir tem liberação para crianças maiores de 5 anos, enquanto o peramivir intravenoso tem liberação para maiores de 6 meses.
Ainda assim, mesmo com a disponibilidade dessas vacinas e medicamentos nos Estados Unidos, as recomendações mantêm condutas compatíveis com opções atualmente disponíveis no Brasil. Dessa forma, o documento reúne orientações de relevância para a prática pediátrica brasileira.
Autoria

Jandrei Rogério Markus
Conteudista médico na Afya. Graduado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Residência Médica em Pediatria e Infectologia Pediátrica pela UFPR. Especialização em Dermatologia Pediatria pela UFPR. Mestrado em Saúde da Criança e do Adolescente na área de Infectologia Pediátrica. Doutorado em Saúde da Criança e do Adolescente na área de Dermatologia Pediátrica. Pós-graduado em Controle de Infecções Hospitalar pelo Centro Universitário do Vale da Ribeira. Atuando como médico infectologista pediátrico no Hospital e Maternidade Dona Regina (HMDR) e do Hospital Geral Público de Palmas (HGPP). Médico do Serviço de Controle de Infecções da UTI Neonatal do HMDR, UTI Pediátrica do HGPP e da UTI adulto do HGPP. Professor de Pediatria da Afya Faculdade de Ciências Médicas em Porto Nacional, Tocantins. Membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia Pediátrica. Presidente do Departamento Cientifico de Dermatologia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).
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