Logotipo Afya
Anúncio
Pediatria31 março 2026

Ultraprocessados na infância: contexto social impulsiona o consumo, aponta Unicef

Pesquisa revela que sobrecarga materna, percepção de preço e desinformação moldam escolhas alimentares em comunidades urbanas brasileiras.

O consumo de alimentos ultraprocessados entre crianças está diretamente ligado a fatores sociais que vão além da simples escolha individual. É o que mostra uma pesquisa divulgada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), baseada em entrevistas com cerca de 600 famílias das comunidades do Guamá (Belém), Ibura (Recife) e Pavuna (Rio de Janeiro). 

Apesar de 84% dos entrevistados afirmarem estar muito preocupados em oferecer uma alimentação saudável, os ultraprocessados aparecem com frequência no cotidiano: estão presentes no lanche de metade das crianças e no café da manhã de um em cada quatro lares. Entre os itens mais consumidos estão iogurtes com sabor, embutidos, biscoitos recheados, refrigerantes e macarrão instantâneo. 

Acesse o ebook: Alimentos ultraprocessados e seus impactos na saúde 

Ultraprocessados e álcool custam cerca de R$ 28 bilhões anuais ao SUS 

O que está por trás do consumo 

Produtos ultraprocessados são formulações industriais que combinam ingredientes naturais com aditivos químicos, como corantes e aromatizantes. De baixo custo, longa duração e sabor intensificado, eles acabam sendo mais acessíveis e atraentes, especialmente em contextos de vulnerabilidade. 

A pesquisa mostra que a percepção de preço tem papel decisivo: 67% das famílias consideram itens como refrigerantes e salgadinhos baratos, enquanto alimentos in natura são vistos como caros. Legumes e verduras são apontados como caros por 68% dos entrevistados, frutas por 76% e carnes por 94%. 

Saiba maisPrescrição alimentar: até onde vai o papel do médico? 

Sobrecarga e praticidade 

Outro fator central é a desigualdade na divisão das tarefas domésticas. Entre as famílias ouvidas, 87% das mães são responsáveis por comprar e servir a alimentação das crianças, e 82% também cozinham. Já entre os pais, apenas 27% participam da preparação dos alimentos. 

Segundo a oficial de Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, Stephanie Amaral, essa sobrecarga influencia diretamente as escolhas. “Muitas mães fazem isso sozinhas, além de trabalhar fora. A praticidade dos ultraprocessados acaba pesando muito mais”, afirma. 

Leia ainda: Evidências atuais sobre alimentos ultraprocessados no diabetes tipo 2 

Desinformação e afeto 

O estudo também identificou lacunas importantes de informação. Alimentos como iogurtes saborizados e nuggets foram frequentemente percebidos como saudáveis. Além disso, 26% dos entrevistados não compreendem os alertas da rotulagem frontal, e a maioria afirma não utilizá-los como critério de compra. 

Há ainda um componente afetivo: muitos responsáveis associam esses produtos a uma infância mais feliz, especialmente por representarem acesso a itens que não estavam disponíveis em suas próprias infâncias. 

Leia tambémUltraprocessados e álcool custam cerca de R$ 28 bilhões anuais ao SUS 

Caminhos possíveis 

Diante desse cenário, o Unicef propõe uma série de medidas, como a regulação mais rigorosa da publicidade infantil, a ampliação de creches e escolas em tempo integral e o fortalecimento da orientação alimentar nos serviços de saúde. 

O estudo também destaca o papel estratégico das escolas, não apenas na oferta de refeições equilibradas, mas na promoção de hábitos saudáveis junto às famílias. Iniciativas comunitárias, campanhas educativas e melhorias na comunicação sobre rotulagem nutricional também são apontadas como essenciais para reverter o quadro. 

Autoria

Foto de Roberta Santiago

Roberta Santiago

Roberta Santiago é jornalista desde 2010 e estudante de Nutrição. Com mais de uma década de experiência na área digital, é especialista em gestão de conteúdo e contribui para o Portal trazendo novidades da área da Saúde.

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Pediatria