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Pediatria14 agosto 2026

Obesidade pediátrica: farmacoterapia reduz IMC e peso em revisão Cochrane

Revisão Cochrane avalia medicamentos na obesidade pediátrica, com redução de IMC e peso e incertezas sobre segurança em longo prazo.

A obesidade em crianças e adolescentes é uma condição crônica complexa associada a consequências físicas, psicológicas e sociais significativas, que frequentemente persistem até a idade adulta. O manejo é baseado, principalmente, em intervenções no estilo de vida, como mudanças na dieta, estímulo à atividade física e suporte comportamental. O tratamento farmacológico é reservado a pacientes selecionados que não respondem adequadamente a essas medidas não farmacológicas. 

Embora os medicamentos contra a obesidade, como os agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon-1 (glucagon-like peptide-1 — GLP-1), tenham demonstrado potencial para a redução de peso em pacientes pediátricos, seus efeitos mais amplos na qualidade de vida e a segurança em longo prazo ainda são incertos. Diante dessa questão, uma revisão sistemática da Cochrane Database of Systematic Reviews avaliou os benefícios e os danos de intervenções farmacológicas para o tratamento da obesidade em crianças e adolescentes. 

Saiba mais: AAP 2025: Atualizações no tratamento farmacológico da obesidade pediátrica 

Como a revisão avaliou a farmacoterapia na obesidade pediátrica 

Os pesquisadores conduziram buscas nas bases de dados CENTRAL, MEDLINE, na Plataforma de Registro de Ensaios Clínicos da Organização Mundial da Saúde (OMS) e no ClinicalTrials.gov em 3 de julho de 2023, sem restrições de idioma. A situação dos estudos em andamento foi verificada em junho de 2025 e os resultados foram, então, atualizados. 

Foram incluídos ensaios clínicos randomizados (ECR) que avaliavam intervenções farmacológicas em crianças (0-9 anos) e adolescentes (10-19 anos) com obesidade essencial. Os estudos considerados elegíveis avaliaram a administração de qualquer medicamento, em qualquer dose, em monoterapia ou em combinação, por pelo menos três meses. Esses estudos também relataram desfechos após um acompanhamento mínimo de seis meses. 

Foram excluídos ECR conglomerados e estudos que avaliaram participantes com obesidade monogênica (deficiência de leptina e do receptor de leptina; deficiência de pró-hormônio convertase 1 [PCSK1]; deficiência de pro-opiomelanocortina [POMC]; deficiência do receptor de melanocortina-4 [MC4R]); obesidade secundária e obesidade sindrômica. Outros critérios importantes de exclusão foram: contraindicação aos agentes em questão; doenças graves, como diabetes mellitus ou doença cardiovascular; gravidez; histórico de tabagismo; transtornos psiquiátricos graves; e uso atual ou prévio de medicamentos conhecidos por influenciar a composição corporal. 

Os desfechos críticos foram alteração no índice de massa corporal (IMC); alteração no peso; descontinuação do medicamento devido a eventos adversos; incidência ou gravidade de desfechos relacionados à obesidade; e quaisquer eventos adversos. Os seguintes desfechos foram considerados relevantes: bem-estar mental e físico; incapacidade relacionada à obesidade; e qualidade de vida relacionada à saúde. 

O que os 37 ensaios clínicos mostraram 

A revisão incluiu 37 ECRs, totalizando 4.218 participantes. Dos estudos incluídos, 25 envolveram apenas adolescentes e 11 planejavam incluir tanto crianças quanto adolescentes, mas somente oito efetivamente o fizeram. 

Os participantes desses estudos foram randomizados para intervenções farmacológicas ou controle, juntamente com medidas não farmacológicas comuns, como abordagens comportamentais ou de estilo de vida, dieta e atividade física. Considerando os 37 estudos incluídos, 31 utilizaram placebo e seis utilizaram a ausência de intervenção (apenas medidas não farmacológicas) como comparador. 

A duração do acompanhamento variou de seis a 31 meses, com uma mediana de 11 meses, e os estudos foram conduzidos em 17 países de renda alta, seis de renda média e três de renda baixa. 

Saiba mais: Intervenções farmacológicas na obesidade na infância e adolescência 

Medicamentos comparados ao placebo 

As intervenções farmacológicas (agonistas do GLP-1, fentermina associada ao topiramato, metformina, orlistate, sibutramina e topiramato), quando comparadas ao placebo, podem: 

  • Reduzir o IMC (variação em relação à linha de base) em 1,80 kg/m² — intervalo de confiança de 95% (IC 95%): -2,36 a -1,24; I² = 87%; 25 estudos, 3.091 participantes; evidência de baixa certeza; 
  • Reduzir o peso (variação em relação à linha de base) em 5,47 kg — IC 95%: -7,45 a -3,50; I² = 89%; 20 estudos, 2.380 participantes; evidência de baixa certeza. 

Os pesquisadores observaram que os eventos adversos foram frequentes. Em comparação com o placebo: 

  • Agonistas de GLP-1, fentermina, sibutramina e topiramato provavelmente resultam em pouca ou nenhuma diferença no risco de quaisquer eventos adversos — razão de risco (RR) 1,03; IC 95%: 1,00 a 1,07; I² = 0%; 8 estudos, 1.877 participantes; evidência de certeza moderada; 
  • Agonistas de GLP-1, fentermina, metformina, orlistate, sibutramina e topiramato podem resultar em pouca ou nenhuma diferença no risco de descontinuação devido a eventos adversos, embora o risco tenha sido ligeiramente maior com os medicamentos: RR 1,50; IC 95%: 0,82 a 2,75; I² = 17%; 13 estudos, 2.213 participantes; evidência de baixa certeza. 

O artigo ressalta um estudo com 46 participantes que comparou sibutramina com placebo e constatou que pode haver pouca ou nenhuma diferença na incidência de desfechos relacionados à obesidade em adolescentes com comorbidades, avaliados como alterações em colesterol total e triglicerídeos, glicemia e pressão arterial. 

Os pesquisadores destacaram que não foi possível agregar outros dados sobre a incidência ou a gravidade de desfechos relacionados à obesidade. As intervenções farmacológicas (agonistas de GLP-1, fentermina mais topiramato), quando comparadas ao placebo, provavelmente resultam em pouca ou nenhuma diferença na qualidade de vida, avaliada pelo questionário Impact of Weight on Quality of Life–Kids (IWQOL) — diferença entre médias (DM) 1,02; IC 95%: -1,94 a 3,98; I² = 48%; 4 estudos, 741 participantes; evidência de certeza moderada. 

Saiba mais: Obesidade infantil e agonistas do receptor GLP-1: um marco na terapia? 

Metformina e orlistate versus ausência de intervenção 

As evidências para ambos os desfechos são muito incertas. Porém, o uso de metformina, quando comparado à não intervenção, pode: 

  • Reduzir o IMC (variação em relação à linha de base) em 1,51 kg/m² — IC 95%: -2,29 a -0,73; I² = 0%; 3 estudos, 151 participantes; 
  • Reduzir o peso (variação em relação à linha de base) em 3,20 kg — IC 95%: -6,12 a -0,28; 1 estudo, 42 participantes. 

Metformina e orlistate, quando comparados com a ausência de intervenção, podem aumentar o risco de descontinuação devido a eventos adversos, mas as evidências são muito incertas — RR 13,70; IC 95%: 0,83 a 225,43; 2 estudos, 84 participantes. 

Além disso, nenhum dos estudos que compararam intervenções farmacológicas com a ausência de intervenção relatou dados sobre eventos adversos, desfechos relacionados à obesidade e qualidade de vida que pudessem ser combinados em uma metanálise. 

Evidências ainda são limitadas entre crianças 

Por fim, a possibilidade de tirar conclusões sobre benefícios ou danos em crianças é limitada, pois apenas oito dos 37 estudos incluídos envolveram crianças, e os dados raramente foram desagregados por idade. 

O que a revisão concluiu sobre benefícios e segurança 

A revisão mostrou que tratamentos farmacológicos para a obesidade em adolescentes, como agonistas do receptor de GLP-1, fentermina, metformina, orlistate, sibutramina e topiramato, podem culminar em reduções modestas, mas clinicamente significativas, no IMC e no peso corporal. Todavia, as evidências atuais são limitadas, particularmente em crianças, quanto à segurança em longo prazo, à descontinuação do tratamento e aos desfechos além da perda de peso. 

Os pesquisadores destacam que os dados disponíveis indicam pouco ou nenhum aumento na ocorrência de eventos adversos em comparação com o placebo. Contudo, estudos de maior duração são necessários para avaliar os efeitos sobre o bem-estar físico e mental, o crescimento e a manutenção do controle de peso. 

O que os achados representam para o pediatra geral 

Essa revisão foi absolutamente necessária diante do que o pediatra geral tem visto nos últimos anos. A prevalência de obesidade vem crescendo e esse estudo reforça que o tratamento farmacológico deve ser considerado um complemento, e não um substituto, às intervenções no estilo de vida em pacientes pediátricos selecionados com obesidade. 

Portanto, o pediatra geral precisa estabelecer expectativas realistas com os pacientes e suas famílias, já que os medicamentos atuais proporcionam uma redução de peso modesta, com evidências limitadas quanto a benefícios em longo prazo e melhora na qualidade de vida e segurança, principalmente em crianças mais novas. 

Dessa forma, a seleção cuidadosa dos pacientes elegíveis para tratamento farmacológico, o monitoramento contínuo e a tomada de decisão compartilhada com as famílias permanecem pontos-chave para o sucesso do tratamento da obesidade pediátrica.

Autoria

Foto de Roberta Castro

Roberta Castro

Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Faculdade de Medicina de Valença, com residência em pediatria e medicina intensiva pediátrica. Mestrado (UFF). Doutorado (UERJ). Além da atuação na Afya, atua como professora de pediatria (UERJ), rotina da enfermaria de pediatria (UERJ) e consultório particular.

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