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Pediatria13 fevereiro 2025

Fatores associados à resistência antimicrobiana do H. pylori em pediatria  

As taxas crescentes de resistência antimicrobiana do H. pylori destacam a importância de entender sua epidemiologia na população pediátrica
Por Jôbert Neves

A infecção pelo Helicobacter pylori (H. pylori) continua sendo um grande problema de saúde global, com alta prevalência em países em desenvolvimento. Embora muitos pacientes permaneçam assintomáticos, o H. pylori está associado à gastrite crônica, doença ulcerosa péptica e, em casos mais raros, câncer gástrico. Historicamente, os tratamentos baseados na terapia tripla—que combina um inibidor da bomba de prótons (IBP) com claritromicina e amoxicilina ou metronidazol—eram altamente eficazes. No entanto, o aumento da resistência antimicrobiana tem reduzido as taxas de erradicação, levando diretrizes médicas a recomendarem estratégias alternativas de tratamento, inclusive em pacientes pediátricos.  

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou o H. pylori como um “patógeno prioritário”, destacando a necessidade de mais pesquisas sobre padrões de resistência e fatores de risco para falhas terapêuticas. Embora existam diversos estudos sobre resistência antimicrobiana em adultos, há poucos dados sobre populações pediátricas. Neste contexto, um grupo de pesquisadores dos Estados Unidos (EUA) realizou um estudo que teve como objetivo avaliar a prevalência da resistência antimicrobiana em uma coorte pediátrica nos EUA e identificar fatores demográficos, socioeconômicos e clínicos potencialmente associados à resistência. O estudo analisou uma coorte de 273 pacientes pediátricos diagnosticados com H. pylori via biópsia gástrica entre 2015 e 2022 em dois grandes hospitais pediátricos de referência dos EUA, o Boston Children’s Hospital (Boston, MA) e o Hasbro Children’s Hospital (Providence, RI). Dentre os resultados encontrados, destacam-se os seguintes:  

Perfil epidemiológico dos pacientes analisados: 

  • 46% eram do sexo masculino 
  • Idade média: 12,8 anos 
  • Distribuição racial e étnica: 
    • 47,3% eram brancos 
    • 18% eram negros 
    • 11% eram asiáticos 
    • 35,9% eram hispânicos 

Prevalência da resistência antimicrobiana 

O estudo revelou que 43,2% dos pacientes apresentaram resistência a pelo menos um antimicrobiano. A distribuição da resistência foi: 

  • Claritromicina: 24,5% (mais comum) 
  • Metronidazol: 21,6% 
  • Fluoroquinolonas: 9,9% 
  • Rifabutina: 3,3% 
  • Amoxicilina: 2,6% 
  • Tetraciclina: < 1% 

Já a multirresistência, foi distribuída da seguinte forma:  

  • 8,4% dos pacientes eram resistentes a dois antibióticos 
  • 3,7% eram resistentes a três antibióticos 
  • O padrão de corresistência mais comum foi claritromicina + metronidazol 

Afinal, quais eram os fatores-chave associados à resistência antimicrobiana? Veja! 

Fatores demográficos 

  • Raça e etnia: 
    • Pacientes asiáticos tiveram maior resistência à claritromicina em comparação com brancos (OR: 4,68; p < 0,001). 
    • Pacientes negros apresentaram menor probabilidade de resistência à claritromicina (OR: 0,23; p = 0,01). 
    • Pacientes hispânicos tiveram taxas de resistência semelhantes às de não hispânicos. 
  • Idade: 
    • A resistência variou conforme a idade. 
    • Metronidazol foi mais resistente em crianças menores de 8 anos, possivelmente devido à maior exposição precoce ao antibiótico. 
    • Claritromicina mostrou resistência maior em adolescentes. 

Condição socioeconômica e renda 

  • Baixa renda familiar foi associada à maior resistência ao metronidazol: 
    • Pacientes de famílias com renda anual < $30.000 tiveram risco 8 vezes maior de resistência ao metronidazol (OR: 7,94; p = 0,01). 
    • Possíveis explicações incluem maior exposição a antibióticos, acesso limitado a cuidados de saúde, e maior probabilidade de automedicação. 

Achados clínicos e endoscópicos 

  • Pacientes com gastrite apresentaram maior resistência à claritromicina. 
  • Resistência ao metronidazol foi mais comum em pacientes com duodenite. 
  • Fluoroquinolonas tiveram maior resistência associada à úlcera gástrica (OR: 6,03; p = 0,02). 
  • A presença de esofagite foi associada à resistência aumentada (OR: 3,08; p = 0,04). 

Resultados do tratamento e taxas de erradicação 

  • Dados de erradicação estavam disponíveis para 61,3% dos pacientes tratados. 
    • Terapias quádruplas (ex.: baseadas em bismuto) tiveram taxas de erradicação superiores a 90%. 
    • Terapias triplas tiveram taxas de erradicação menores (< 75%), especialmente em pacientes com cepas resistentes. 
    • Pacientes com resistência à claritromicina apresentaram maior taxa de falha terapêutica (59,1%) do que aqueles sem resistência (14,3%) (p < 0,001). 
    • Resistência ao metronidazol também foi associada ao fracasso do tratamento (50% vs. 13,6%; p = 0,002). 

Conclusão, discussão e mensagem prática 

Este estudo reforça a crescente preocupação com a resistência antimicrobiana do H. pylori em crianças e a necessidade de considerar fatores demográficos e socioeconômicos no tratamento. Sendo as principais conclusões: 

  • As taxas de resistência à claritromicina e metronidazol ultrapassam 15%, tornando a terapia tripla empírica ineficaz; 
  • Pacientes asiáticos e de baixa renda apresentaram maior resistência aos antibióticos; 
  • Crianças pequenas tiveram mais resistência ao metronidazol, enquanto adolescentes tiveram mais resistência à claritromicina; 
  • O uso de testes de suscetibilidade sempre que possível deve ser priorizado. 
  • Terapias à base de bismuto e regimes alternativos devem ser considerados para melhorar a taxa de sucesso do tratamento. 

Implicações para a Prática Clínica — devendo ser ponderadas para o perfil de resistência de cada região/país  

  • Evitar claritromicina empírica em áreas de alta resistência 
  • Priorizar terapias quádruplas ou baseadas em bismuto 
  • Considerar idade, etnia e condição socioeconômica ao prescrever tratamentos

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Referências bibliográficas

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