A epilepsia é uma condição neurológica decorrente de atividade elétrica neuronal anormal, levando a ocorrência de crises convulsivas. Para um indivíduo ser considerado portador de epilepsia, é necessário que preencha os critérios diagnósticos: duas ou mais crises não provocadas com um intervalo maior que 24h; uma crise associada a um risco de recorrência maior que 60% (por exemplo, em lesões estruturais epileptogênicas); ou ser portador de uma síndrome epiléptica. Após o diagnóstico é fundamental classificar o tipo de crise para auxiliar na escolha de da medicação adequada e a estratégia de início do tratamento. Neste texto mostraremos como iniciar levetiracetam na prática, incluindo indicação, esquema inicial, titulação, orientações nas primeiras semanas e situações especiais.
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Por que considerar levetiracetam como opção inicial?
O levetiracetam é um fármaco considerado de segunda geração, aprovado pelo FDA para o tratamento de epilepsias, com baixo índice de interações farmacológicas e efeitos colaterais considerados mais leves.
Por esses motivos, a medicação tende a ser escolhida para o tratamento inicial de pacientes com epilepsia, principalmente quando consideramos outros fatores associados, como idade, quadro demencial, presença de comorbidades e polifarmácia.
Tipos de epilepsia que o levetiracetam pode ser iniciado
O levetiracetam é aprovado para o tratamento de epilepsias focais, em monoterapia ou terapia adjuvante; adjuvante em epilepsias generalizadas e epilepsia mioclônica juvenil. Quando comparado a outras medicações para o tratamento de epilepsias focais, é uma medicação não inferior, podendo ser utilizada com segurança e eficácia.

Como iniciar o levetiracetam na prática?
Para adultos, a dose inicial recomendada de levetiracetam, é de 500 mg, duas vezes ao dia. A dose pode ser ajustada até a dose alvo de 1.500 mg, duas vezes ao dia, baseado em tolerabilidade e resposta. Em pacientes com maior risco de efeitos colaterais, recomenda-se titular a dose mais gradual, iniciando com 250 mg, duas vezes ao dia, e progressão baseada em tolerância do paciente. Pode-se progredir a dose a cada duas semanas, para melhor adaptação.
O levetiracetam está disponível em comprimidos de 250 mg, 500 mg, 750 mg e 1000 mg, além de solução oral (100 mg/mL).
Atenção: é necessário realizar ajuste de dose mediante comprometimento da função renal.
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O que orientar o paciente nas primeiras semanas de levetiracetam?
Nas primeiras semanas de introdução, o paciente pode sentir algum desconforto, como sensação de tontura, fadiga e sonolência. Em geral, são efeitos colaterais que tendem a ser leves e bem tolerados, e boa parte dos pacientes não refere desconforto na introdução da medicação.
É importante orientar quanto a possibilidade de surgimento de lesões de pele, pois pode denotar reação alérgica a componentes da medicação. Caso isso aconteça, é necessário contatar o médico imediatamente.
Outras orientações importantes são relacionadas com a possibilidade de ocorrência de eventos neuropsiquiátricos, como descompensação de depressão, irritabilidade, agressividade ou até risco de ideação suicida. O médico deve ser contatado se tais eventos ocorrerem, para manejo da intercorrência e retirada da medicação, com titulação de dose adequada.
Por fim, orientar os pacientes a uma boa adesão terapêutica e a não realizar autossuspensão da medicação de forma abrupta.
Efeitos adversos mais comuns da levetiracetam
Há risco de descompensação de sintomas psiquiátricos com o uso do levetiracetam, incluindo piora de ansiedade, irritabilidade, depressão, agitação, podendo até haver ideação suicida. Portanto, é uma medicação que deve ser usada com muita cautela em pacientes com comorbidades psiquiátricas. Caso ocorram tais intercorrências, o médico deve titular a redução de dose e retirada da medicação.
Hepatotoxicidade tende a ocorrer com elevação de transaminases e disfunção hepática, embora não seja um fenômeno tão comum. Caso ocorra, descontinuar a droga costuma ser suficiente.
Em casos de reação alérgica cutânea, é necessário descontinuar a medicação.
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Avaliação de resposta e seguimento
A resposta ao tratamento é avaliada pelo controle das crises após introdução da medicação. A titulação de dose do levetiracetam é realizada durante o seguimento, até atingir a dose terapêutica, alcançando o controle das crises.
É recomendado que o paciente realize seguimento regular com o médico, a fim de controlar eventuais efeitos adversos e manter o bom controle da epilepsia.
Situações especiais
Em gestantes, o levetiracetam pode ser utilizado, porém o aumento da depuração renal pode reduzir os níveis plasmáticos da droga, sendo necessário ajuste de dose para evitar descompensação de crises. O acompanhamento deve ser rigoroso, pois a descompensação de crises é deletéria tanto para a saúde da mãe quanto do feto.
Em lactantes, pode haver passagem do fármaco pelo leite materno, porém com baixo risco de eventos adversos no lactente. Pode ocorrer sedação e sonolência, mas tal evento é raro. Recomenda-se a prática de aleitamento materno em mães portadoras de epilepsia, por todos os benefícios relacionados ao aleitamento. Deve-se acompanhar a lactante e o lactente e monitorar os efeitos potenciais de uso do levetiracetam.
Em idosos, recomenda-se a dose-alvo equivalente a 50-75% da dose de um adulto, com seguimento rigoroso pelo risco de eventos adversos, embora o Levetiracetam seja, no geral, bem tolerado.
Mensagens práticas para o médico
O Levetiracetam é uma medicação anticonvulsivante amplamente utilizada, considerada segura e eficaz no tratamento de epilepsias focais e generalizadas. Em geral, é bem tolerada, com perfil baixo de interações farmacológicas e efeitos colaterais.
Deve-se ter cuidado em pacientes com comorbidades psiquiátricas, pois há risco de descompensação do quadro. Atenção adicional é necessária para o uso em gestantes, pela variabilidade da disponibilidade plasmática da droga, principalmente no terceiro trimestre, com risco de descompensação de crises. Recomenda-se acompanhamento rigoroso dos pacientes em tratamento de epilepsia, ajustando dose e manejando efeitos adversos, garantindo um bom controle de crises e estabilidade clínica.
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Autoria

Jesus Ventura
Médico graduado pela AFYA Faculdade de Ciências Médicas de Ipatinga em 2017. Neurologista formado no HCUFMG de 2018 a 2021. Neurologista assistente do IPSEMG. Professor na Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais.
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