A aprovação do Cenobamato pela Anvisa coloca em evidência um ponto central no manejo da epilepsia: embora a maioria dos pacientes alcance controle satisfatório com os medicamentos anticrise disponíveis, cerca de um terço permanece com crises apesar do tratamento, configurando um cenário de farmacorresistência associado a pior qualidade de vida, maior risco de lesões, comprometimento psicossocial e aumento de mortalidade, incluindo risco de morte súbita relacionada à epilepsia.
Nesse contexto, a chegada do Cenobamato ao mercado brasileiro representa uma adição relevante ao arsenal terapêutico, sobretudo para adultos com epilepsia focal de difícil controle. Do ponto de vista regulatório, o medicamento foi aprovado no Brasil como Xcopri® para tratamento de crises focais em adultos com epilepsia que seguem apresentando crises após pelo menos dois tratamentos diferentes.
A notícia tem implicação prática imediata, mas não significa disponibilidade automática nas farmácias: após o registro, ainda é necessária a definição do preço máximo pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos. Em paralelo, qualquer futura incorporação ao SUS exigirá avaliação formal de custo-efetividade e impacto orçamentário.
O presente texto tem como objetivo apresentar o Cenobamato de forma técnica e objetiva, abordando suas características farmacológicas, principais evidências de eficácia, perfil de segurança e potenciais impactos clínicos no manejo da epilepsia focal farmacorresistente. A discussão será fundamentada em uma recente revisão sistemática publicada pela Cochrane (Brigo F, Lattanzi S. 2024) e no Special Report publicado na revista Epilepsia (Klein P. 2025).
O que é o Cenobamato e por que ele chama atenção?
O Cenobamato é um fármaco anticrise de uso oral, administrado uma vez ao dia, com mecanismo dual. Ele potencializa a inativação rápida e lenta dos canais de sódio voltagem-dependentes, reduzindo hiperexcitabilidade neuronal, e atua também como modulador alostérico positivo dos receptores GABA-A, favorecendo inibição neuronal.
Esse perfil farmacológico ajuda a explicar o interesse crescente no composto, especialmente num cenário em que, nas últimas décadas, vários novos fármacos foram incorporados à prática clínica sem mudança substancial na proporção global de pacientes farmacorresistentes.
Nas publicações recentes, ele vem sendo descrito como um possível novo referencial de eficácia em epilepsia focal farmacorresistente, especialmente porque, em parte dos estudos, taxas de liberdade de crises foram superiores às tradicionalmente observadas com outras terapias farmacológicas adjuvantes. Ainda assim, esse entusiasmo precisa ser interpretado à luz do desenho dos estudos e do fato de que comparações diretas com outros fármacos ainda são escassas.
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Indicação do Cenobamato e posicionamento clínico
A base mais sólida de evidência disponível sustenta o uso dessa medicação como terapia adjuvante em adultos com epilepsia focal farmacorresistente. A revisão sistemática Cochrane de 2024 incluiu dois ensaios clínicos randomizados, totalizando 659 participantes adultos, e avaliou o Cenobamato adicionado ao tratamento de base em comparação com placebo. Nessa síntese, o fármaco mostrou benefício consistente sobre os desfechos centrais de eficácia, com aumento da taxa de resposta ≥ 50% e também da liberdade de crises durante o período de manutenção.
Há, portanto, uma convergência entre o racional regulatório e a evidência clínica disponível: o Cenobamato surge como opção particularmente relevante para o adulto com crises focais persistentes apesar de múltiplas tentativas terapêuticas. Ao mesmo tempo, ainda não há base robusta para extrapolar automaticamente seu papel para epilepsias generalizadas, síndromes epilépticas específicas ou população pediátrica, campos em que os dados permanecem limitados ou em desenvolvimento.
Eficácia: o que os estudos mostram de forma objetiva?
Na revisão Cochrane, o risco relativo para obtenção de redução ≥ 50% na frequência de crises com Cenobamato adjuvante foi de 2,17 versus placebo, correspondendo a 52% de respondedores no grupo ativo contra 24% no grupo placebo. Para liberdade de crises, o risco relativo foi de 4,45, com 16% no grupo Cenobamato versus 5% no grupo placebo. A certeza da evidência foi considerada moderada para ambos os desfechos principais.
Esses resultados já são clinicamente relevantes por si só, mas o interesse maior em torno do fármaco decorre do fato de que taxas de liberdade de crises, mesmo que em subgrupos e janelas temporais específicas, parecem mais altas do que as tradicionalmente relatadas com muitos fármacos adjuvantes usados em epilepsia focal refratária. No artigo de Klein, são destacados dados de estudos randomizados em que a liberdade de crises na fase de manutenção foi de 28,3% com alvo de 200 mg/dia por 6 semanas e de 21% com 400 mg/dia por 12 semanas, contra 9% e 1% com placebo, respectivamente.
Em longo prazo, o medicamento mostrou manutenção de eficácia em uma parcela relevante dos pacientes. Em extensão aberta com seguimento de pelo menos 4 anos, observaram-se taxas persistentes de liberdade de crises e de redução ≥ 90% da frequência de crises. Além disso, análises pós hoc e dados de vida real sugerem benefício também em populações de maior complexidade, como pacientes com elevada carga basal de crises e aqueles previamente submetidos à cirurgia para epilepsia.
Apesar de promissores, esses achados devem ser interpretados com cautela, por derivarem principalmente de extensões abertas, análises exploratórias e estudos observacionais.
Segurança e efeitos adversos
A boa notícia em eficácia vem acompanhada de um ponto inevitável: o Cenobamato aumenta a ocorrência de eventos adversos em comparação com placebo. Na metanálise Cochrane, a ocorrência de qualquer evento adverso foi de 77% com Cenobamato versus 67% com placebo, com RR de 1,14. Os autores observam ainda que o aumento de eventos foi mais evidente nas doses de 200 mg/dia e 400 mg/dia do que em 100 mg/dia.
Entre os eventos adversos mais frequentemente relatados nas publicações recentes, destacam-se tontura, sonolência e fadiga. Em populações mais idosas, o espectro pode incluir também queda, distúrbio de equilíbrio e alteração de marcha, o que tem implicações práticas importantes na titulação e no ajuste de medicações concomitantes.
Há ainda um aspecto particularmente importante para a prática clínica: as interações medicamentosas. O cenobamato inibe CYP2C19 e induz CYP3A4 e CYP2B6, o que pode alterar concentrações plasmáticas e tolerabilidade de outros fármacos anticrise e também de fármacos usados para outras comorbidades. O artigo de Klein destaca, em especial, o risco de interação com clobazam, fenitoína e fenobarbital por aumento de exposição, além de interações farmacodinâmicas com bloqueadores de canal de sódio como lacosamida, lamotrigina e carbamazepina, potencializando tontura, ataxia e sonolência.
Populações especiais: o que já sabemos e o que ainda falta saber?
Embora a aprovação brasileira esteja direcionada ao adulto com epilepsia focal, o debate científico já se expandiu para populações especiais. O special report de 2025 resume dados sugerindo benefício em pacientes com epilepsia farmacorresistente mais grave, inclusive após falha cirúrgica, e descreve resultados encorajadores em idosos.
Na população pediátrica, porém, os dados ainda são preliminares. Há relatos retrospectivos sugerindo eficácia e tolerabilidade razoáveis, inclusive com respostas comparáveis às observadas em adultos em algumas séries pequenas, mas ainda faltam ensaios robustos que sustentem uso amplo. Tanto a revisão Cochrane quanto o artigo de Klein convergem ao apontar a necessidade de estudos adicionais em crianças, outras síndromes epilépticas e epilepsias não focais.
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Comercialização no Brasil: quais são os próximos passos?
A aprovação da Anvisa é apenas a primeira etapa para acesso efetivo. O registro sanitário já foi concedido, mas a comercialização depende da definição do preço máximo pela CMED. Em paralelo, a incorporação ao SUS exigirá submissão e análise pela Conitec, seguida de decisão ministerial. Em termos empresariais, a Eurofarma informou, em comunicado institucional, que a expectativa é colocar o produto no mercado brasileiro ainda em 2026.
Mensagem Final: o que a aprovação do Cenobamato significa na prática?
A chegada do Cenobamato ao Brasil é relevante porque amplia o repertório terapêutico exatamente em uma área de maior necessidade não atendida: a epilepsia focal farmacorresistente do adulto. O fármaco combina sinal robusto de eficácia, inclusive com taxas de liberdade de crises incomuns para esse cenário, com um perfil de segurança que exige experiência clínica, titulação lenta e atenção cuidadosa a interações.
Em outras palavras, trata-se menos de uma “solução universal” e mais de uma nova ferramenta com potencial real de mudar a trajetória de pacientes selecionados, desde que usada com critério.
No horizonte futuro, os pontos decisivos serão três: preço e acesso no mercado brasileiro, eventual incorporação em sistemas públicos e suplementares, e consolidação da evidência em uso prolongado, monoterapia, epilepsias generalizadas e população pediátrica. Até aqui, o Cenobamato chega ao Brasil cercado de expectativa justificada, mas também da necessidade de uso racional, monitorização e leitura crítica da evidência.
Autoria

Johnatan Felipe Ferreira da Conceicao
Revisor médico do Portal Afya. Graduado em Medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Contato: [email protected] Instagram: @johnatanfelipef
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