A doença de Alzheimer (DA) é principal causa de demência neurodegenerativa global. Por muitos anos, o tratamento dessa condição era voltado para medicamentos sintomáticos, isto é, medicamentos com proposta de atenuar manifestações cognitivo-comportamentais da doença apesar de não interferirem no curso progressivamente lento da doença.
O desenvolvimento de biomarcadores na DA proporcionou diagnóstico biológico da doença mais efetivo com avanços em ensaios clínicos para desenvolvimento de drogas modificadoras de doença.
Nesse contexto, o lecanemabe, sob o nome comercial de Leqembi, recebeu aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para doença de Alzheimer no dia 22 de dezembro de 2025. É a segunda droga modificadora de doença aprovada no país, reforçando as novas perspectivas terapêuticas para essa condição.
Quais as evidências sobre o lecanemabe?
O lecanemabe é anticorpo monoclonal direcionado a oligômeros Aβ maiores, ou protofibrilas (precursores na formação das placas amiloides).
A aprovação desse medicamentos por agências regulatórias prévias, como FDA, ocorreu após a publicação de suas evidências com destaque para os resultados do ensaio clínico de fase 3, CLARITY-AD trial, iniciado em 2019, com 1.795 participantes com comprometimento cognitivo leve (CCL) ou demência estágio leve na doença de Alzheimer comprovados através de biomarcadores para DA. Nesse estudo, os participantes foram divididos aleatoriamente em grupo placebo ou grupo intervenção com lecanemabe. Após 18 meses de tratamento, o lecanemabe reduziu o declínio cognitivo-funcional, através de aferição na escala CDR-SB, em 27% comparado ao placebo — equivalendo a uma diferença de 0,45 pontos no CDR-SB.
Ainda que tenha apresentado um resultado positivo em termos de desfecho primário nesse caso, algumas ressalvas são ainda ponderadas quanto à magnitude de seu efeito clínico. Um estudo de 2019 sugeriu que a diferença mínima clinicamente significativa para a escala CDR-SB seria de 0,98 para pessoas com comprometimento cognitivo leve e suposta etiologia de Alzheimer, e de 1,63 para aquelas com doença de Alzheimer leve (uma diferença acima do que foi encontrado no estudo CLARITY-AD).
Quanto aos desfechos de segurança, uma preocupação de eventos adversos dessas terapias antiamiloides é o risco de ARIA (Amyloid Related Imaging Abnormalities), que pode estar relacionada a uma predisposição à inflamação no ambiente extracelular levando à edema (ARIA-E) ou a depósito de hemossiderina (ARIA-H). No CLARITY-AD trial, foi observada presença de ARIA-H em 17,3% no grupo lecanemabe e 9% no placebo e de ARIA-E em 12,6% no grupo lecanemabe e 1,7% no placebo. Considerando eventos sintomáticos relacionados à ARIA, ARIA-E foi encontrada em 2,8% e ARIA-H em 0,7% do grupo intervenção do estudo. Após aprovação do lecanemabe pelo FDA (Food and Drug Administration), dois óbitos ocorreram em pacientes com homozigose para mutação do alelo ApoE ε4 (um deles após receber trombólise venosa como terapia de fase aguda para acidente vascular cerebral).
Compreendendo indicações e contraindicações do medicamento
As terapias antiamiloides, entre elas o Leqembi, não são indicadas para todos os pacientes com doença de Alzheimer. A indicação do Leqembi, de acordo com o ensaio clínico randomizado que demonstrou suas evidências, é direcionado para pacientes adultos com diagnóstico clínico de comprometimento cognitivo leve e/ou demência leve devido à doença de Alzheimer (isto é, apenas indivíduos com doença de Alzheimer em fase inicial) com patologia amiloide confirmada através de biomarcadores. A Anvisa registrou indicação desse medicamento para indivíduos que não são portadores ou são heterozigotos do alelo ApoE ε4 (diante do maior risco de ARIA em pacientes com homozigose).
Entre as principais contraindicações do Leqembi, destaca-se indivíduos com ressonância magnética pré-tratamento apresentando achados sugestivos de angiopatia amiloide cerebral como hemorragia intracerebral prévia, presença de ≥ 4 micro-hemorragias, de siderose superficial ou de edema vasogênico. Ademais, considerando o registro da ANVISA, o Leqembi não deve ser iniciado em pacientes que estejam recebendo terapia anticoagulante contínua.
A dose recomendada é de 10 mg/kg administrada por infusão intravenosa (IV) durante aproximadamente uma hora, uma vez a cada duas semanas.
Comentários finais
A aprovação das terapias antiamiloides por diversas agências regulatórias no mundo representa um novo marco na história do tratamento da doença de Alzheimer e uma nova perspectiva para os pacientes, seus familiares e profissionais de saúde envolvidos. A sua prescrição deve ser embasada criteriosamente de acordo com as indicações e contraindicações do medicamento, assim como o acompanhamento desses pacientes deve ser feito de forma rigorosa.
Em 2024, o Departamento Científico da Academia Brasileira de Neurologia publicou documento com recomendações sobre o uso dessas terapias antiamiloide no Brasil a fim de auxiliar o profissional em termos de prover uma assistência médica segura aos pacientes elegíveis. Confira os detalhes aqui.
Autoria

Danielle Calil
Médica formada pela Universidade Federal Fluminense em 2016. ⦁ Neurologista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em 2020. ⦁ Fellow em Anormalidades do Movimento e Neurologia Cognitiva pelo Hospital das Clínicas da UFMG em 2021. ⦁ Atualmente, compõe o corpo clínico como neurologista de clínicas e hospitais em Belo Horizonte como o Centro de Especialidades Médicas da Prefeitura de Belo Horizonte, Hospital Materdei Santo Agostinho e Hospital Vila da Serra.
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