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Infectologia2 abril 2026

Neutropenia febril: atualizações da ECIL-10 e o manejo na era da multirresistência

A neutropenia febril pode levar a infecções com risco de vida em pacientes com neoplasias hematológicas ou após transplante de medula óssea
Por Camila Rangel

A neutropenia febril é uma emergência infecciosa crítica em pacientes com neoplasias hematológicas ou submetidos ao transplante de medula óssea (TMO). Recentemente, a 10ª Conferência Europeia sobre Infecções em Leucemia (ECIL-10), publicada no The Lancet Infectious Diseases (2025), atualizou as recomendações para o manejo empírico e direcionado, focando no desafio global da resistência bacteriana e na necessidade de uma medicina personalizada.

Metodologia

O painel de experts da ECIL-10, formado por infectologistas, hematologistas e microbiologistas, revisou evidências sobre epidemiologia bacteriana e fatores de risco para resistência, propondo uma abordagem personalizada. O manejo da neutropenia febril foi dividido em grupo de baixo risco e alto risco, de acordo com os critérios:

  • Prevalência local de bactérias gram-negativas (BGN) resistentes;
  • Colonização;
  • Infecção prévia por germe multirresistente;
  • Estabilidade hemodinâmica.

Resultados

Para pacientes hemodinamicamente estáveis e sem colonização por BGN resistentes em cenários de baixa prevalência, recomenda-se monoterapia com β-lactâmicos, com atividade contra ESBL (betalactamase de espectro estendido), como Piperacilina+Tazobactam, Cefepime e Ceftazidima, evitando uso de carbapenêmicos de forma desnecessária.

Em pacientes críticos, instáveis hemodinamicamente ou com alto risco/resistência, indicam-se combinações como β-lactâmico + aminoglicosídeo, carbapenêmico ± inibidor de betalactamase, cefalosporina antipseudomonas + inibidor de betalactamase ou cefiderocol (este não está disponível no Brasil), adaptadas à epidemiologia local.

A adição de terapia antimicrobiana contra bactérias gram-positivas (como a  Vancomicina) empiricamente não é recomendada de rotina, pois não demonstrou reduzir a mortalidade quando associada ao esquema inicial para todos os pacientes neutropênicos febris. Seu uso deve ser avaliado em situações específicas, como mucosite grave, choque séptico, colonização prévia por MRSA (Staphylococcus aureus resistente à meticilina) e infecções de pele e partes moles.

A diretriz enfatiza a janela de 72 a 96 horas para reavaliação obrigatória:

  • Terapia direcionada: ajustar o esquema conforme o teste de sensibilidade (antibiograma) assim que o patógeno for identificado;
  • Descalonamento: reduzir o espectro antimicrobiano ou suspender precocemente se o paciente estiver estável e as culturas forem negativas;
  • Piora clínica: investigar etiologias não bacterianas (fúngicas ou virais) e ampliar o espectro conforme o histórico de riscos.

Mensagem Prática

Adote uma abordagem personalizada para cada paciente com diagnóstico de neutropenia febril: o padrão de resistência do seu hospital é o fator mais importante na escolha inicial. Pacientes colonizados devem receber cobertura direcionada.

Priorize stewardship com descalonamento precoce e descontinuação do tratamento (se necessário), monitorando recorrência febril com recoleta das culturas. As diretrizes devem ser consultadas para tratamento de BGN resistentes, otimizando os resultados em centros brasileiros com perfis de resistência crescentes.

Autoria

Foto de Camila Rangel

Camila Rangel

Médica graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 2018. Infectologista pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais de 2019 a 2022. Mestra pela Faculdade de Medicina da UFMG em 2025. Infectologista do Controle de Infecção Hospitalar do HC-UFMG e Auditora Médica da Unimed Federação Minas.

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Referências bibliográficas

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