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Infectologia14 outubro 2026

H. pylori responde por quase 70% do câncer gástrico no Brasil

No Brasil, 77,7% do câncer gástrico se liga à bactéria e o INCA projeta 22,5 mil casos anuais; resistência antimicrobiana dificulta a erradicação.

Estudo da Universidade de Bolonha cruza prevalência e risco para atribuir ao H. pylori 69,7% do câncer gástrico em 27 países em 2022. A fração indica casos evitáveis sem a infecção, e o peso do H. pylori no Brasil chega a 77,7%. Os dados subsidiam a avaliação da estratégia de rastrear e tratar, segundo os autores.

Publicado na Gastric Cancer, o trabalho obteve a prevalência por metanálise de 40 artigos com dados de 2000 a 2010. O cálculo aplicou risco relativo de 5,9 ao GLOBOCAN 2022, a partir dos 40 anos.

Tratamento do H. pylori em crianças

H. pylori no Brasil está ligado a 17,3 mil casos em 2022

No Brasil, o estudo atribui à infecção 17.327 casos e 13.646 óbitos por câncer gástrico em 2022, potencialmente evitáveis com a erradicação; o maior número entre os países latino-americanos avaliados. O INCA projeta 22.530 casos anuais entre 2026 e 2028, a maioria diagnosticada em estágio avançado.

A estimativa brasileira merece cautela: a prevalência de 70,7% usada no modelo veio de um único estudo com 1.001 adultos de 18 a 45 anos atendidos na atenção primária em Pelotas (RS), em 2006–2007, e não de uma amostra nacional. Segundo os autores, diferenças entre países podem refletir a época das pesquisas e o efeito de coorte. O modelo usou o mesmo risco relativo para todos os países, sem separar tumores cárdicos e não cárdicos e pode ter superestimado levemente os óbitos.

Saiba mais: H. pylori: um verdadeiro vilão do estômago

Estratégia de rastrear e tratar é custo-efetiva fora da Ásia?

Na Ásia, a estratégia parece custo-efetiva, e Japão e Coreia a incluíram no seguro de saúde no início dos anos 2010. Fora da Ásia, o tema segue em debate, embora a União Europeia a recomende em países de alta incidência.

James Ramalho Marinho, da Federação Brasileira de Gastroenterologia, afirma que o SUS não consegue testar a população em larga escala. Segundo o Ministério da Saúde, a Conitec, que avalia incorporações ao SUS, não recebeu nenhum pedido sobre o teste respiratório com carbono 13.

Adicionalmente, o V Consenso Brasileiro sobre Infecção por H. pylori, publicado em agosto de 2026 pela Federação Brasileira de Gastroenterologia/Núcleo Brasileiro para estudo do H. pylori, registra que,  no Brasil, rastreamento populacional de H. pylori para prevenção de câncer gástrico não é atualmente recomendado; a recomendação é rastrear e tratar grupos de alto risco. 

Saiba mais: Infecção por Helicobacter pylori: revisão 2026 do manejo atual

Diretriz do ACG limita claritromicina pela resistência a antibióticos

A diretriz do American College of Gastroenterology (ACG), voltada à América do Norte, adota a quádrupla com bismuto por 14 dias como primeira linha. Com resistência de 31,5% à claritromicina nos EUA, o documento evita claritromicina e levofloxacino sem sensibilidade comprovada.

Diante da resistência a antibióticos, a diretriz pede teste de cura ao menos quatro semanas após o tratamento. Sem essa confirmação, a infecção persistente mantém o risco de câncer gástrico.

Segundo o V Consenso Brasileiro sobre a Infecção por Helicobacter pylori (2026), a erradicação da bactéria é recomendada para todos os pacientes infectados. Para o tratamento de primeira linha, uma das principais opções é a terapia quádrupla com bismuto, tetraciclina, metronidazol e um inibidor da bomba de prótons (IBP) ou bloqueador ácido competitivo de potássio (P-CAB), durante 10 a 14 dias. Outra alternativa é a terapia com amoxicilina e claritromicina por 14 dias, preferencialmente otimizada com a adição de bismuto e/ou substituição do IBP por um P-CAB, como a vonoprazana.

Na indisponibilidade de bismuto, podem ser utilizados esquemas duplos com amoxicilina em altas doses associada a IBP ou P-CAB, por 14 dias. A escolha deve considerar a resistência bacteriana, o histórico de uso de antibióticos, possíveis alergias e a disponibilidade dos medicamentos.

Após o tratamento, é fundamental confirmar a erradicação da bactéria, preferencialmente pelo teste respiratório da ureia marcada com carbono-13 ou pela pesquisa de antígeno fecal.

Autoria

Foto de Giovanna Del Carlo

Giovanna Del Carlo

Editora de Conteúdo da Afya. Jornalista formada pela Universidade Estácio de Sá. Bacharel em Direito pelo Centro Universitário de Volta Redonda - UniFOA Pós-graduada pela PUC Minas

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