A infecção pelo Helicobacter Pylori é classicamente descrita como um causador de doença ulcerosa do estômago e sem nenhuma dúvida a descoberta dessa infecção mudou drasticamente o tratamento da doença péptica do estômago. Por muitos anos, a relação do H. pylori era exclusivamente relacionada à dispepsia; e hoje, apesar de persistirem diversas dúvidas, o cenário mudou com outras atribuições danosas sendo também relacionadas.
Já está estabelecido a relação direta do H. pylori com as neoplasias do estômago. Em alguns linfomas gástricos, o tratamento oncológico pode ser inclusive a erradicação da bactéria com antibióticos. A lesão crônica provocada pelo H. pylori também influencia na incidência dos adenocarcinomas.
O trabalho publicado na Surgical Endoscopy analisa mais um fator deletério em relação ao H. pylori, qual seria a relação da infecção com sangramento gástrico, durante as ressecções de tumores precoces por endoscopia.
Desenho do estudo
Estudo retrospectivo analisou os dados dos pacientes submetidos à ressecção endoscópica de tumores precoces em um centro de referência. Pacientes em uso de antiagregantes ou drogas antitrombóticas, foram excluídos do estudo.
Todos os pacientes, foram pesquisados para infecção por H. pylori e classificados como positivos ou negativos. O sangramento durante o procedimento foi classificado em quatro níveis: 0- nenhum sangramento; 1- sangramento controlado facilmente com eletrocoagulação ; 2- necessidade de uso de hemostáticos (ex. hemoclipe); 3- hemotransfusão. Para fins estatísticos sangramento 0 e 1 foram classificados com sem sangramento e os grupos 3 e 4 classificados com sangramento.
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Resultados
No total, foram analisados 726 pacientes sendo necessário algumas exclusões e, ao final, 634 pacientes foram considerados aptos para a análise. Destes, 360 apresentavam infecção para o H. pylori e 274 não apresentavam. Em relação ao desfecho primário, houve sangramento em 17,5% do total de casos, sendo que na análise específica de cada grupo foi 28,8% no grupo infectado e 8,9% no grupo não infectado.
Essa diferença representa um valor p menor que 0,001. Além disto os pacientes infectados apresentavam um tempo maior de procedimento com oito minutos a mais (p<0,001), possivelmente podendo estar relacionado ao tempo de hemostasia. Um achado digno de nota, em pacientes que passaram por um processo de erradicação entre as endoscopias diagnóstico e de ressecção, as lesões se tornam mais fácil de serem detectadas com uma razão de chance de 2,82 (95% IC – 1,13-6,86).
Discussão
Alguns outros estudos já haviam documentado que a erradicação do H. pylori facilita a detecção de lesões cancerosas. No entanto, havia pouca literatura demonstrando que com a erradicação haveria um segundo benefício no melhor controle da hemostasia.
Também foram excluídos os agentes confundidores como uso de anticoagulantes pelos pacientes, o que resulta em uma conclusão ainda mais robusta desse trabalho. De certa forma, esse trabalho conseguiu demonstrar que a presença do H.pylori está relacionado a uma chance de 4,84 vezes a mais de apresentar sangramentos importantes durante o procedimento de ressecção endoscópica.
Nesse trabalho, pode-se concluir que a erradicação prévia do Helicobacter pylori ao procedimento de ressecção de submucosa em tumores precoces do estômago proporciona melhores índices de sangramento e detecção.
Para levar para casa
Esse é um estudo com um desenho elegante e com resultados bastante promissores. Cada vez mais estamos caminhando para uma valorização da erradicação do H. pylori antes de qualquer tratamento de patologias gástricas. Ainda não existem dados que sustentem o tratamento indiscriminado, no entanto estamos cada vez mais rigorosos e tratando por diversas patologias e com comprovação na literatura.
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