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Clínica Médica24 abril 2026

Infecção por Helicobacter pylori: revisão 2026 do manejo atual

Revise os principais erros no diagnóstico e tratamento da infecção por H. pylori, com foco em erradicação, resistência antibiótica e prática clínica.

A infecção por H. pylori permanece altamente prevalente, acometendo cerca de 50% da população mundial, com taxas ainda mais elevadas em países em desenvolvimento. Trata-se do principal fator etiológico da gastrite crônica, da úlcera péptica e de uma parcela relevante dos casos de adenocarcinoma gástrico e linfoma MALT. Apesar desse impacto clínico e epidemiológico expressivo, erros diagnósticos, esquemas terapêuticos inadequados e falhas na confirmação de erradicação continuam sendo observados com frequência. 

O artigo-base deste trabalho, publicado em 2026 no portal MedScape, analisa de forma as falhas mais comuns no diagnóstico e tratamento da infecção pela bactéria, apoiando-se em estudos observacionais recentes e, principalmente, nos dados robustos do Registro Europeu de Manejo da H. pylori (Hp-EuReg).  

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Importância clínica  

A relevância da H. pylori transcende a dispepsia funcional. A infecção persistente leva a inflamação crônica da mucosa gástrica, com progressão variável para atrofia, metaplasia intestinal e, em um subconjunto de pacientes, carcinoma gástrico. Estima-se que mais de 85% dos cânceres gástricos estejam associados à infecção pela bactéria. Além disso, a erradicação bem-sucedida reduz de forma significativa a recorrência de úlcera péptica e o risco de sangramento digestivo alto. 

Do ponto de vista populacional, a erradicação da H. pylori é considerada uma estratégia de prevenção primária do câncer gástrico. Assim, falhas no manejo individual têm repercussões que extrapolam o paciente, impactando sistemas de saúde e indicadores epidemiológicos de longo prazo. 

Métodos diagnósticos disponíveis 

Os métodos diagnósticos para H. pylori podem ser divididos em invasivos e não invasivos. Entre os não invasivos, destacam-se o teste respiratório da ureia marcada e o teste de antígeno fecal, ambos com elevada sensibilidade e especificidade para infecção ativa. A sorologia, por sua vez, detecta exposição prévia e não diferencia a infecção ativa de erradicada, devendo ser reservada a contextos muito específicos. 

Os métodos invasivos incluem a biópsia endoscópica, com avaliação histológica, teste rápido da urease e cultura. 

Falhas na indicação do exame 

O artigo-base evidencia que um dos erros mais comuns está na escolha inadequada do método diagnóstico. Em pacientes jovens, sem sinais de alarme, a estratégia recomendada é “testar e tratar” com métodos não invasivos. Ainda assim, observa-se solicitação frequente de endoscopia digestiva alta nesse grupo, enquanto exames indiretos são utilizados em pacientes idosos ou com fatores de risco, nos quais a endoscopia seria mandatória. 

Influência de medicamentos e falsos-negativos 

Outro ponto crítico é a realização dos exames sob uso de inibidores da bomba de prótons, antibióticos ou sais de bismuto. Estes fármacos reduzem a carga bacteriana e aumentam a taxa de resultados falso-negativos. A literatura é consistente ao recomendar a suspensão do IBP por pelo menos 2 semanas e de antibióticos/bismuto por 4 semanas antes da testagem. 

Falha na confirmação da erradicação 

Talvez o erro mais negligenciado seja a ausência de confirmação pós-tratamento. Dados de séries espanholas demonstram que cerca de 2,5% dos pacientes tratados não realizaram exame de controle, percentual que chegou a até 6% no Hp-EuReg. Sem essa etapa, a eficácia real do tratamento permanece desconhecida e falhas terapêuticas passam despercebidas. 

Objetivo terapêutico 

As diretrizes internacionais são claras: o objetivo do tratamento deve ser alcançar taxas de erradicação iguais ou superiores a 90%. Taxas inferiores são consideradas inaceitáveis, sobretudo diante da disponibilidade de esquemas mais eficazes. 

  1. Esquemas terapêuticos  

Apesar das recomendações atuais, o tratamento triplo clássico com claritromicina ainda é amplamente utilizado. No Hp-EuReg, quase 50% dos pacientes receberam esse esquema como primeira linha, mesmo em regiões com alta resistência aos macrolídeos. 

Os esquemas quádruplos, especialmente aqueles contendo bismuto, apresentaram taxas de erradicação significativamente superiores. Regimes de 14 dias aumentaram a taxa de erradicação em aproximadamente 5 a 10 pontos percentuais quando comparados a esquemas mais curtos, reforçando a importância da duração adequada. Outro achado relevante foi a subdosagem de inibidores da bomba de prótons. A supressão ácida inadequada compromete a eficácia dos antibióticos, reduzindo a taxa de cura. 

Após falha terapêutica, o estudo aponta que a repetição dos mesmos antibióticos ainda é uma prática comum, incluindo claritromicina e levofloxacina. Essa conduta vai de encontro às recomendações atuais, que orientam a troca completa do esquema, evitando antibióticos previamente utilizados. 

Taxas de erradicação 

Os dados do Hp-EuReg mostram variações expressivas nas taxas de erradicação conforme o esquema utilizado. O tratamento triplo clássico apresentou taxas frequentemente abaixo de 80%, consideradas inadequadas. Em contraste, esquemas quádruplos bem conduzidos alcançaram taxas superiores a 90%. 

A ausência de teste de controle impediu a avaliação real do desfecho em até 6% dos pacientes, um dado que, embora numericamente pequeno, tem grande impacto clínico e epidemiológico. 

Entre os principais desafios destacam-se a resistência antibiótica crescente, a inércia terapêutica e a falta de adaptação às evidências locais. A resistência à claritromicina, em especial, compromete de forma decisiva a eficácia do tratamento empírico. 

Além disso, fatores relacionados ao paciente, como adesão inadequada e efeitos adversos, também influenciam os resultados, embora frequentemente sejam subestimados na prática clínica. 

Mensagens para casa 

–  A infecção por H. pylori continua sendo altamente prevalente e clinicamente relevante. 

– O diagnóstico deve priorizar métodos que detectem infecção ativa e respeitar a suspensão adequada de medicamentos. 

– O objetivo do tratamento é alcançar taxas de erradicação ≥ 90%. 

– Esquemas quádruplos por 14 dias, com supressão ácida adequada, são atualmente a melhor estratégia empírica. 

– A confirmação da erradicação é etapa obrigatória do manejo. 

Autoria

Foto de Lavínia Barcellos

Lavínia Barcellos

Médica formada pela Faculdade de Ciências Médicas e da Saúde de Juiz de Fora - FCMS/JF. Residência em Clínica Médica pelo Hospital Central da Polícia Militar do Rio de Janeiro - HCPM/RJ. Pós-graduanda em Cuidados Paliativos pelo Américas/Afya - RJ.

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Referências bibliográficas

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