Há mais de 80 anos, a testosterona vem sendo utilizada no tratamento da redução do desejo sexual em mulheres pós-menopáusicas. Entretanto, permanece incerto se mulheres com dificuldades sexuais apresentam concentrações séricas mais baixas de testosterona e, consequentemente, se a dosagem hormonal poderia identificar aquelas que se beneficiariam da terapia androgênica.
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Estudos que avaliam este desfecho apresentaram importantes limitações metodológicas, incluindo métodos de análise da testosterona, como imunoensaios, que são pouco sensíveis para baixas concentrações encontradas em mulheres, sobretudo na pós-menopausa. Além disso, vários estudos empregaram questionários de função sexual inadequados para mulheres sem parceiro, sexualmente inativas ou não heterossexuais, e frequentemente não consideraram o estágio menopausal nas análises.
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Para ajudar nessa avaliação, foi publicado na Fertility and Sterility um estudo de base populacional australiana que faz parte do Australian Women’s Midlife Years Study (AMY), que buscou avaliar a associação entre testosterona e seus precursores androgênicos com desejo sexual, excitação, orgasmo e responsividade sexual em mulheres de meia-idade, considerando separadamente o estado menopausal.
Como o estudo avaliou mulheres de meia-idade
O AMY incluiu 731 participantes, sendo 136 mulheres pré-menopáusicas e 595 peri ou pós-menopáusicas. Foram excluídas mulheres em uso de terapia hormonal, gestantes, lactantes, com endocrinopatias como hiperprolactinemia e disfunção tireoidiana, ooforectomizadas bilateralmente, com sintomas depressivos moderados ou graves ou em uso de psicotrópicos.
A avaliação da função sexual foi realizada por meio do Profile of Female Sexual Function (PFSF), que separa claramente desejo, excitação, orgasmo e responsividade, e é mais inclusivo para mulheres sexualmente inativas ou com parcerias não heterossexuais. As dosagens laboratoriais dos androgênios foram obtidas por cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas (LC-MS/MS).
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Desejo, excitação e orgasmo: o que foi observado?
Após ajuste para idade, IMC, local de residência, ancestralidade, escolaridade, status de relacionamento, tabagismo, consumo de álcool, pertencimento à população LGBTQIA+, ressecamento vaginal moderado a grave e histórico de abuso sexual, não foi observada associação entre qualquer dosagem hormonal e o desejo sexual ou dificuldade de desejo.
A testosterona e a androstenediona apresentaram associação não linear com o orgasmo em mulheres na pré-menopausa e no grupo peri-pós-menopausa, respectivamente. A androstenediona também esteve associada à excitação sexual em ambos os grupos.
Pontos fortes e limitações do estudo
A maior força do estudo é o uso de LC-MS/MS, considerado padrão-ouro para dosagem de testosterona feminina. Muitos estudos anteriores utilizaram imunoensaios pouco confiáveis em baixas concentrações. Em relação ao instrumento, o grupo da Susan Davis costuma preferir o PFSF justamente porque ele avalia melhor os aspectos relacionados ao desejo sexual feminino e pode ser aplicado em populações heterogêneas, incluindo mulheres sem parceiro ou LGBTQIA+.
No entanto, o estudo apresenta limitações importantes, como o desenho transversal, que não permite inferir causalidade, apenas associação. A presença de poucas pacientes no grupo pré-menopausa pode superestimar modelos cúbicos.
Mensagem prática para o consultório
Este estudo reforça fortemente uma mensagem que já aparece no Global Consensus Position Statement on Testosterone Therapy for Women (2019): não existe um nível sérico de testosterona capaz de diagnosticar insuficiência androgênica feminina. Apesar da eficácia da testosterona como tratamento para mulheres selecionadas com transtorno do desejo sexual hipoativo, as concentrações séricas basais de testosterona não constituem um biomarcador confiável de desejo sexual ou de disfunção sexual feminina.
Autoria

Sérgio Okano
Conteudista médico na Afya. Formado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), com residência médica em Ginecologia e Obstetrícia e na área de atuação em Sexologia. Possui mestrado e doutorado pela mesma instituição. Atende no serviço público, particular e trabalha com graduação médica e residência.
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