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Ginecologia e Obstetrícia30 setembro 2026

TDAH e ciclicidade hormonal feminina: da fisiopatologia ao diagnóstico

Como as oscilações hormonais podem modificar a expressão do TDAH e dificultar seu reconhecimento ao longo da vida da mulher?

Este conteúdo foi produzido pela Afya em parceria com Apsen de acordo com a Política Editorial e de Publicidade do Portal Afya.

O transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) é uma condição do neurodesenvolvimento que pode comprometer diferentes domínios do funcionamento.1 Tradicionalmente associado à infância e à hiperatividade mais evidente, o reconhecimento do TDAH em mulheres adultas apresenta desafios particulares, porque nelas predominam sintomas de desatenção, como dificuldades de organização, gerenciamento do tempo e manutenção do foco, enquanto sintomas hiperativos e impulsivos podem ser menos evidentes.²,³ Estratégias compensatórias, como elevado esforço para organização, e a sobreposição com sintomas internalizantes, como ansiedade e depressão, podem dificultar o reconhecimento do transtorno e contribuir para diagnósticos tardios.²,³

A possível influência das oscilações dos hormônios sexuais sobre a expressão dos sintomas de TDAH em mulheres tem recebido crescente atenção da pesquisa científica nos últimos anos. Puberdade, ciclo menstrual, contracepção hormonal, gestação, puerpério e transição menopausal podem coincidir com modificações na expressão clínica dos sintomas de TDAH.4 A literatura mais recente sugere uma possível relação entre hormônios sexuais e sintomas de TDAH, embora ainda existam limitações importantes na qualidade, tamanho e heterogeneidade dos estudos disponíveis.1 Compreender essa interação pode contribuir para uma avaliação mais precisa da mulher com TDAH, especialmente nos períodos em que mudanças hormonais e alterações nas demandas de vida podem modificar a expressão clínica do transtorno.

Hormônios sexuais e TDAH: uma relação em investigação

O TDAH envolve alterações relacionadas à atenção, motivação, controle inibitório e funções executivas, com participação importante dos sistemas dopaminérgico e noradrenérgico.4 O córtex pré-frontal e os circuitos frontoestriatais estão entre as regiões envolvidas nesses processos.4

O estradiol, por sua vez, apresenta efeitos sobre diferentes sistemas neurotransmissores. Estudos experimentais sugerem que o estrogênio pode modular a síntese, liberação, recaptação e degradação da dopamina, além de influenciar vias serotoninérgicas e noradrenérgicas.5 Essas interações são particularmente relevantes, porque regiões como o córtex pré-frontal e os gânglios da base, envolvidas na atenção e no controle executivo, são sensíveis à ação dos hormônios sexuais.4

A partir desse modelo, uma hipótese fisiopatológica consideraria que a rápida queda do estradiol poderia diminuir uma modulação dopaminérgica com impacto no funcionamento cognitivo e executivo.4,5 Entretanto, essa hipótese não permite estabelecer uma relação causal simples entre concentração hormonal e intensidade dos sintomas. A revisão sistemática de Osianlis et al. sobre TDAH e hormônios sexuais encontrou apenas 11 estudos e concluiu que as evidências são sugestivas, mas limitadas pelas amostras reduzidas e heterogeneidade metodológica.1

Portanto, a relação entre TDAH e hormônios deve ser compreendida como uma interação neuroendócrina complexa, e não como uma explicação exclusivamente hormonal para os sintomas.

Ciclo menstrual: variação dos sintomas ao longo do mês

A complexa interação hormonal pode ser observada de forma mais evidente, por exemplo, durante o ciclo menstrual. Durante a fase folicular, o estradiol apresenta elevação progressiva até o período periovulatório. Após a ovulação, ocorre a formação do corpo lúteo e aumento da progesterona, seguido por queda dos hormônios ovarianos, quando não há gestação.4 Justamente nesse período de fase lútea tardia e pré-menstrual, algumas mulheres com TDAH referem piora de atenção, impulsividade, regulação emocional e funcionamento executivo.6,7

Na prática clínica, a avaliação deve considerar não apenas a natureza dos sintomas apresentados, mas também os períodos em que se manifestam. Um diário de sintomas pode ajudar a identificar padrões individuais e a diferenciar sintomas persistentes de exacerbações relacionadas ao ciclo. Esse acompanhamento longitudinal e sensível às fases hormonais vem sendo proposto como ferramenta clínica, embora ainda não exista um protocolo padronizado validado para essa finalidade.7,8

Contracepção hormonal: um fator importante na interpretação do quadro clínico

O uso de contracepção hormonal deve ser considerado na interpretação da história sintomática, porque modifica a exposição hormonal e pode dificultar a leitura da relação entre sintomas e ciclo espontâneo. Nesse contexto, a possível associação entre contracepção hormonal e sintomas de saúde mental também merece consideração clínica.

A relação entre contracepção hormonal e sintomas de saúde mental tem sido investigada na população geral, mas os resultados permanecem heterogêneos. Uma revisão sistemática e metanálise de 22 estudos observou que a maioria não identificou associação significativa entre o uso de contraceptivos orais e sintomas de transtornos mentais, embora alguns estudos tenham sugerido maior ocorrência de sintomas depressivos em determinados subgrupos, especialmente adolescentes.9

Em mulheres com TDAH, um estudo de coorte baseado em registros nacionais suecos, que incluiu 29.767 mulheres com TDAH, entre 15 e 24 anos, identificou maior risco de depressão nesta população, independentemente do uso de contracepção hormonal. Entre as usuárias de contraceptivos hormonais, o risco de depressão também foi maior entre aquelas com TDAH quando comparadas às mulheres sem o transtorno, embora o delineamento observacional não permita estabelecer uma relação causal entre o uso do contraceptivo e o desenvolvimento de depressão.10

Puerpério: período de transformação hormonal

O puerpério constitui uma fase de importantes mudanças hormonais, marcada pela queda abrupta dos níveis de estradiol e progesterona e por alterações significativas no sono, rotina e demanda cognitiva e emocional. Em mulheres com TDAH, esse contexto pode contribuir para a intensificação percebida de dificuldades de atenção, organização e regulação emocional.1 Entretanto, sintomas como fadiga, dificuldade de concentração, irritabilidade, alterações do sono e do humor também podem estar relacionados à privação de sono, ansiedade ou depressão pós-parto.1 Assim, o puerpério deve ser considerado uma possível janela de exacerbação dos sintomas, sem atribuir essas manifestações exclusivamente às mudanças hormonais.

Perimenopausa: quando sintomas antigos podem ganhar nova intensidade

Durante a perimenopausa, ocorre maior variabilidade dos níveis de estradiol e progesterona, acompanhada de alterações do padrão menstrual. Ondas de calor, sudorese noturna, alterações do sono, sintomas de humor e queixas cognitivas são frequentes nessa fase. Entre essas queixas, estão dificuldade de concentração, esquecimento, sensação de “mente lenta”, dificuldade para encontrar palavras, redução da capacidade de organização e dificuldade para realizar múltiplas tarefas.5 Muitas dessas manifestações também fazem parte do espectro sintomático do TDAH, o que pode tornar o diagnóstico diferencial particularmente complexo.5,11

Uma coorte populacional, publicada em 2025, avaliou 5.392 mulheres, entre 35 e 55 anos, das quais 535 tinham TDAH. As mulheres com TDAH apresentaram maior carga de sintomas perimenopausais e maior prevalência de sintomas classificados como graves em comparação às mulheres sem o transtorno.12 Esses achados demonstram uma associação entre TDAH e maior carga de sintomas perimenopausais, mas não permitem estabelecer causalidade nem determinar em que medida as alterações hormonais contribuem para a expressão da condição nessa fase.

A relação entre sintomas de TDAH e períodos de intensa oscilação hormonal, como a transição menopausal, é complexa e ainda insuficientemente compreendida, constituindo um tema que merece atenção tanto na prática clínica quanto na pesquisa científica.

TDAH ou alteração hormonal: a importância da reavaliação diagnóstica

Diante de queixas de desatenção ou disfunção executiva, a avaliação deve considerar a trajetória dos sintomas ao longo da vida, incluindo sua presença desde a infância, persistência em diferentes contextos e possíveis variações relacionadas às mudanças hormonais. A identificação de padrões associados ao ciclo menstrual, gravídico puerperal ou à perimenopausa pode contribuir para compreender a dinâmica dos sintomas, sem deixar de investigar alterações do sono e do humor, ansiedade ou outras condições que possam produzir ou intensificar queixas cognitivas.8

A NICE (do inglês, Instituto Nacional para Saúde e Cuidados de Excelência) recomenda que o diagnóstico de TDAH em adultos seja baseado em avaliação clínica e psicossocial abrangente, incluindo história do desenvolvimento, funcionamento em diferentes contextos e investigação de outras condições coexistentes.8 As oscilações hormonais não substituem os critérios diagnósticos do TDAH, mas acrescentam uma importante dimensão temporal à avaliação clínica.

E o tratamento da mulher adulta?

O tratamento deve partir do diagnóstico correto e ser individualizado de acordo com intensidade dos sintomas, prejuízo funcional, comorbidades e características clínicas de cada fase da vida, considerando tanto intervenções farmacológicas quanto não farmacológicas.8

De forma geral, o tratamento farmacológico do TDAH na mulher adulta pode envolver medicamentos estimulantes e não estimulantes. Entre os estimulantes estão o metilfenidato e os derivados de anfetamina, que atuam predominantemente sobre a neurotransmissão dopaminérgica e noradrenérgica. Já os não estimulantes, como a atomoxetina, agem predominantemente pela inibição seletiva da recaptação de noradrenalina.11

No contexto da ciclicidade hormonal, embora algumas mulheres com TDAH relatem redução da resposta ao tratamento durante a fase pré-menstrual, as evidências sobre a necessidade de ajustes terapêuticos ao longo do ciclo ainda são limitadas.13 Um estudo clínico de pequena escala acompanhou nove mulheres submetidas a aumento individualizado da dose de psicoestimulante nesse período, com melhora relatada dos sintomas.13 Entretanto, o tamanho reduzido da amostra e a ausência de grupo controle limitam a interpretação desses achados e não permitem estabelecer uma recomendação geral para ajuste da dose conforme o ciclo menstrual.

Da mesma forma, na perimenopausa, a evidência específica sobre farmacoterapia do TDAH ainda é limitada. Uma revisão publicada em 2026 destacou que não existem ensaios clínicos randomizados específicos avaliando a farmacoterapia do TDAH em mulheres no climatério.11 A prática atual depende, portanto, de extrapolação de estudos realizados em populações mais jovens ou pequenos estudos observacionais.

O que levar para a prática clínica?

A expressão clínica do TDAH pode variar ao longo da vida da mulher, especialmente em períodos marcados por mudanças na dinâmica dos hormônios sexuais. As oscilações hormonais não definem o diagnóstico, mas podem modificar a expressão de sintomas, o funcionamento cotidiano e a percepção de resposta ao tratamento.

A evidência disponível aponta para uma interação biologicamente plausível entre hormônios sexuais, neurotransmissão e sintomas de TDAH, especialmente em períodos de grande mudança hormonal. Entretanto, a literatura ainda é limitada, e muitos dos achados disponíveis derivam de estudos observacionais, pequenas coortes e relatos clínicos.1,4-7

Dessa forma, para ginecologistas, reconhecer a influência potencial das oscilações hormonais sobre a expressão dos sintomas de TDAH significa incorporar à anamnese uma perspectiva longitudinal, investigando o início dos sintomas, sua evolução e os períodos em que podem se intensificar. Para psiquiatras, implica em reconhecer que mudanças na apresentação dos sintomas ao longo da vida podem refletir a influência das oscilações hormonais, não devendo ser interpretadas exclusivamente como do próprio transtorno.

Em conjunto, a compreensão da interação entre TDAH e ciclos hormonais pode contribuir para uma avaliação diagnóstica mais precisa e para uma abordagem terapêutica mais individualizada em cada fase da vida da mulher.

 

Revisor técnico: Felipe Nobrega (Editor médico)

Autoria

Foto de Milena Martello Cristofalo

Milena Martello Cristofalo

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Referências bibliográficas

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