A infecção pelo HIV permanece um importante problema de saúde pública e, apesar da disponibilidade de estratégias altamente eficazes de prevenção, a profilaxia pré-exposição (PrEP) ainda é subutilizada, particularmente entre mulheres. Nesse cenário, o American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) publicou, em agosto de 2026, uma nova recomendação sobre rastreamento do HIV e uso da PrEP, reforçando o papel dos ginecologistas e demais profissionais envolvidos na saúde reprodutiva na prevenção da infecção.
A utilização da PrEP permanece desproporcionalmente baixa justamente em algumas das populações mais afetadas. As barreiras incluem desconhecimento tanto por pacientes quanto por profissionais, estigma, custo, pobreza, racismo, dificuldades de acesso ao sistema de saúde e desconfiança em relação aos serviços médicos.
ACOG integra rastreamento do HIV e PrEP ao cuidado reprodutivo
O documento substitui duas recomendações anteriores do ACOG, de 2014, que abordavam separadamente o rastreamento rotineiro do HIV e a profilaxia pré-exposição. A nova publicação reúne os dois temas e propõe uma mudança de perspectiva: a prevenção do HIV deve fazer parte da rotina do cuidado em saúde sexual e reprodutiva.
Quais são as recomendações para rastreamento e prevenção?
O ACOG recomenda que os profissionais de saúde realizem, durante as consultas de rotina, uma anamnese sexual abrangente, inclusiva e sem julgamentos para todas as pessoas, independentemente da idade, estado civil ou percepção prévia de risco. A avaliação da saúde sexual não deve, portanto, ser direcionada apenas àquelas pessoas que o profissional considera, a priori, pertencentes a grupos de maior risco.
Em relação ao rastreamento, pelo menos um teste para HIV ao longo da vida deve ser recomendado a todas as pessoas, preferencialmente por meio de uma estratégia de opt-out, na qual a testagem é incorporada ao cuidado habitual e realizada a menos que o paciente opte por não fazê-la.
O documento também destaca que os profissionais devem conhecer a epidemiologia do HIV na população e na região em que atuam, utilizando essas informações para orientar tanto a tomada de decisão clínica quanto o aconselhamento sobre prevenção.
Por fim, a recomendação avança da orientação para a prescrição: a PrEP deve ser prescrita às pessoas com maior risco de aquisição do HIV e também a qualquer indivíduo que solicite a profilaxia. Dessa forma, a ausência de revelação ou identificação de um comportamento específico de risco não deve funcionar como barreira ao acesso à PrEP.
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Por que o ginecologista tem papel na prevenção do HIV?
Em 2024, mais de 38 mil novos diagnósticos de HIV foram registrados nos Estados Unidos, dos quais aproximadamente 20% ocorreram em mulheres. Nesse grupo, o contato heterossexual foi a principal forma de transmissão. Além disso, aconselhamento sexual e reprodutivo já faz parte da rotina ginecológica. Incorporar o rastreamento e a prevenção do HIV seria, portanto, uma extensão natural desse cuidado.
Como ferramenta prática, o documento recupera a estratégia dos “5 Ps” proposta pelo CDC: Partners, Practices, Protection from STIs, Past history of STIs e Pregnancy intention (parceiros, práticas sexuais, proteção contra ISTs, história prévia de ISTs e intenção reprodutiva). A proposta é substituir perguntas genéricas como “vida sexual ativa?” por uma abordagem capaz de compreender efetivamente as práticas, exposições, métodos de prevenção e objetivos reprodutivos da pessoa atendida.
Quais opções de PrEP são contempladas pelo ACOG?
O documento da ACOG contempla três estratégias: PrEP oral diária com emtricitabina/tenofovir disoproxil fumarato (FTC/TDF), cabotegravir injetável de longa duração e lenacapavir injetável semestral. A escolha da estratégia deve ocorrer por decisão compartilhada, considerando preferências, possibilidade de adesão, contraindicações, interações medicamentosas e disponibilidade.
PrEP oral e importância da adesão
A eficácia da PrEP diária depende fortemente da adesão. O ACOG destaca que uma adesão de pelo menos 85% é necessária para manter concentrações protetoras adequadas no tecido vaginal. Esse ponto merece atenção porque os dados de adesão provenientes predominantemente de homens que fazem sexo com homens não podem ser automaticamente extrapolados para exposições vaginais. A farmacocinética no tecido vaginal torna a regularidade da administração particularmente importante.
Cabotegravir de longa duração
Já o cabotegravir de longa duração é administrado por via intramuscular, com doses iniciais e, posteriormente, aplicações a cada dois meses. No estudo HPTN 084 citado pelo ACOG, realizado em mulheres cisgênero, o cabotegravir apresentou 93% de aplicações realizadas dentro do prazo previsto e redução de 88% na incidência de HIV, com resultados superiores aos observados no grupo que recebeu FTC/TDF oral.
Lenacapavir semestral
O lenacapavir semestral é a opção de maior duração. No estudo PURPOSE 1, o lenacapavir semestral apresentou 100% de eficácia, sem novas infecções pelo HIV entre as participantes que receberam o medicamento conforme o esquema estudado. A possibilidade de prevenção com apenas duas aplicações anuais representa uma mudança importante no cenário da PrEP, especialmente para pessoas nas quais a adesão diária constitui uma barreira.
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Avaliação antes da PrEP, contracepção e gestação
Antes de iniciar a PrEP, é preciso excluir a infecção pelo HIV. O ACOG recomenda documentar teste negativo para HIV na semana anterior ao início da PrEP.
Em relação à contracepção, gestação e lactação, o documento afirma que qualquer método contraceptivo pode ser utilizado concomitantemente à PrEP, sem redução da eficácia contraceptiva. Para pessoas que desejam engravidar e apresentam maior risco de aquisição do HIV, a PrEP oral apresenta bons dados de segurança durante a gestação e lactação.
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Como a PrEP é abordada no cenário brasileiro?
O Ministério da Saúde recomenda PrEP oral para pessoas a partir de 15 anos, com peso ≥ 35 kg, sexualmente ativas e em contexto de maior risco de infecção pelo HIV. Para ginecologistas e obstetras, orientação específica publicada em 2026 reforça que a PrEP deve ser abordada também com mulheres cisgênero, incluindo aquelas que planejam engravidar, gestantes, puérperas e lactantes. A principal diferença está nas opções disponíveis: enquanto o ACOG já contempla PrEP oral e estratégias injetáveis de longa duração, como cabotegravir e lenacapavir, o protocolo brasileiro vigente é direcionado à PrEP oral com FTC/TDF.
Autoria

Sérgio Okano
Conteudista médico na Afya. Formado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), com residência médica em Ginecologia e Obstetrícia e na área de atuação em Sexologia. Possui mestrado e doutorado pela mesma instituição. Atende no serviço público, particular e trabalha com graduação médica e residência.
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