A 26ª Conferência Internacional sobre Aids (AIDS 2026) dedicou um simpósio inteiramente à atualização dos dados de profilaxia pré-exposição (PrEP) injetável, com foco principalmente nas evidências de cabotegravir de longa ação (CAB-LA) e lenacapavir (LEN).
A seguir, veja os principais destaques.
Cabotegravir injetável: eficácia e implementação
A eficácia de CAB-LA como modalidade de PrEP foi comprovada nos estudos HPTN 083, que avaliou homens que fazem sexo com homens e mulheres transgênero, e HPTN 084, que avaliou mulheres cisgênero.
No HPTN 083, CAB-LA reduziu a infecção pelo HIV em 69%, quando comparado com PrEP oral diária. Já no HPTN 084, a redução foi de 68%. Esses resultados foram confirmados mais recentemente em mulheres grávidas.
Apesar de ter aprovação, muitos países da América Latina ainda não incorporaram CAB-LA como modalidade de PrEP, o que mostra heterogeneidade e desigualdade no acesso às novas tecnologias de prevenção.
Em estudos de avaliação de implementação, a incorporação de CAB-LA esteve associada a aumento de 56% na cobertura de PrEP.
Na análise da coorte brasileira do ImPrEP, dos 1.447 participantes, 83% optaram pelo CAB-LA, em comparação com 17,1% de preferência pela PrEP oral.
Preferências dos pacientes e barreiras ao CAB-LA
As principais vantagens do CAB-LA percebidas pelos participantes foram:
- ser mais fácil de lembrar do que pílulas diárias;
- ser mais prático para pessoas com rotinas movimentadas;
- oferecer maior privacidade;
- gerar maior confiança em proteção sustentada;
- aumentar a percepção de efetividade.
As principais barreiras percebidas foram:
- medo de injeções;
- dor no local da injeção;
- necessidade de mais visitas às unidades de saúde;
- preocupações em relação ao desenvolvimento de resistência e aos efeitos em longo prazo.
Já as principais vantagens da PrEP oral percebidas pelos participantes que optaram por essa modalidade foram:
- familiaridade e conhecimento com essa estratégia;
- menos visitas às unidades de saúde;
- facilidade em caso de viagem;
- possibilidade de interrupção imediata;
- ausência de injeções.
As principais barreiras à PrEP oral foram:
- esquecimento;
- eventos adversos gastrointestinais;
- guarda dos medicamentos;
- julgamento de familiares e parceiros.
Cobertura, adesão e mudanças de preferência
O uso de CAB-LA esteve associado a aumento significativo em dias de cobertura pela profilaxia em comparação com a PrEP oral.
Dentre os participantes que optaram por CAB-LA, houve cobertura em 95% dos dias de seguimento, em comparação com 53% dos dias entre os que optaram por PrEP oral e 43% entre os que estavam no grupo controle com PrEP oral.
O estudo PrEP 15-19, conduzido em 644 adolescentes de 3 cidades brasileiras, mostrou alta dinâmica de mudanças nas preferências de modalidades de PrEP, com 24,7% dos participantes que iniciaram PrEP oral migrando para CAB-LA e 10,7% migrando de CAB-LA para PrEP oral.
Os resultados desse estudo mostram que as preferências pelas modalidades de prevenção mudam com o tempo, e as opções disponíveis devem ser discutidas periodicamente com os pacientes.
LEVI e resistência com cabotegravir
Uma preocupação com o uso do CAB-LA é o fenômeno de inibição viral precoce de longa duração (long-acting early viral inhibition, LEVI), em que a replicação viral pode estar parcialmente suprimida pelo efeito de CAB, resultando em atraso no diagnóstico de HIV.
No ImPrEP, foram registrados 4 casos de infecção pelo HIV entre 1.220 participantes em vigência de CAB-LA. Destes, 3 tinham carga viral < 1.000 cópias/mL, e a detecção de anticorpos foi atrasada em 2 a 9 meses.
Além disso, 1 paciente apresentou mutações maiores de resistência a inibidores de integrase. Entretanto, 3 participantes alcançaram supressão viral com outros esquemas de terapia antirretroviral (TARV).
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda o uso dos testes rápidos diagnósticos disponíveis na implementação de CAB-LA.
Uma formulação com intervalo entre doses ainda mais prolongado, a cada 4 meses, está em avaliação, e os primeiros resultados são esperados para o final de 2026 ou início de 2027.
Lenacapavir: eficácia, segurança e eventos adversos
Os resultados dos estudos PURPOSE 1, com adolescentes e mulheres cisgênero entre 16 e 25 anos na África do Sul e Uganda, e PURPOSE 2, com homens cisgênero e pessoas com gêneros diversos que fazem sexo com homens nos EUA, América Latina, Tailândia e África do Sul, mostraram 100% e 96% de eficácia, respectivamente, na prevenção de HIV com LEN.
Em ambos os estudos, LEN foi bem tolerado e seguro. Reações no local de injeção foram frequentes, variando de 69% a 83%, mas, em sua maioria, foram classificadas como leves.
Interrupções devido a essas reações foram incomuns: 0,2% no PURPOSE 1 e 1,2% no PURPOSE 2.
As reações de grau 3 mais frequentes foram nódulos no PURPOSE 1 e úlceras, dor e eritema no PURPOSE 2.
Em ambos os estudos, a frequência desses eventos adversos diminuiu ao longo do tempo, com a administração de mais doses, o que provavelmente reflete melhora na técnica de aplicação e/ou aplicação local de gelo antes e depois da injeção.
Após a fase de extensão, a eficácia na prevenção de infecção pelo HIV em ambos os estudos foi comparável à observada na análise primária, e o perfil de segurança manteve-se o mesmo.
As descontinuações por reações no local de injeção continuaram baixas, em aproximadamente 1,2%.
Resistência, gestação e interações medicamentosas com LEN
Os mecanismos de infecção pelo HIV em vigência de LEN permanecem desconhecidos, uma vez que a maioria dos 5 casos identificados tinha as injeções administradas no tempo adequado e concentrações séricas de LEN em níveis adequados. Ao mesmo tempo, em nenhum caso foi identificada síndrome de LEVI.
O estudo CAPELLA, que avaliou LEN como antirretroviral terapêutico, mostrou que a presença de mutação única Q67H ou N74D esteve associada à resistência fenotípica de baixo nível.
As combinações Q67 + K70, K70 + N74 ou a mutação N66I resultaram em padrões de resistência moderada a alta.
Contudo, 50% dos participantes que desenvolveram resistência mantiveram LEN após otimização ou retorno ao esquema de base.
O desenvolvimento de resistência a LEN em casos de soroconversão em vigência de PrEP foi raro, mas pode ocorrer. Entretanto, os benefícios de LEN como PrEP parecem superar os riscos de soroconversão e emergência de resistência.
No PURPOSE 1, foram registradas 510 gestações. Não houve diferenças nos desfechos obstétricos com uso de LEN quando comparado com PrEP oral.
Não houve soroconversões no grupo de LEN, e não foram detectadas alterações nas concentrações séricas de LEN entre participantes gestantes e não gestantes. Com isso, não há necessidade de ajuste de dose durante gestação e puerpério.
LEN foi detectado no leite materno, mas as concentrações séricas foram muito baixas em recém-nascidos amamentados.
Em adolescentes e jovens, LEN foi seguro e bem tolerado, sem diferenças nas concentrações séricas em relação às encontradas em adultos.
Em relação a interações medicamentosas, LEN não afeta as concentrações de hormônios utilizados como anticoncepcional ou como terapia de afirmação de gênero.
Com o uso de rifampicina, é necessária uma dose completa adicional de LEN no momento do início da terapia com rifampicina.
Para estatinas, somente sinvastatina e lovastatina necessitam de ajuste de dose, com doses menores do que as habituais.
Para inibidores de PDE5, como sildenafila, recomenda-se iniciar com doses mais baixas, com titulação posterior.
Uma formulação de LEN intramuscular com aplicação anual está em avaliação em um estudo de fase 3, com finalização esperada em 2028.
Mensagem prática
Os dados apresentados na AIDS 2026 reforçam que a PrEP injetável vem ampliando as possibilidades de prevenção do HIV, especialmente para pessoas que preferem estratégias de longa ação ou têm dificuldade de adesão à PrEP oral diária.
CAB-LA já apresenta evidências robustas de eficácia e dados de implementação relevantes no Brasil, mas ainda há desafios relacionados a acesso, visitas às unidades de saúde, LEVI e monitoramento diagnóstico.
LEN, por sua vez, mostrou alta eficácia nos estudos PURPOSE, perfil de segurança favorável e potencial de uso em populações diversas, incluindo gestantes, adolescentes e jovens. Ainda assim, resistência em contexto de soroconversão, interações medicamentosas específicas e acesso futuro devem ser acompanhados.
Autoria

Isabel Melo
Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com residência médica em Infectologia pela mesma instituição (2020). Além da atuação na Afya, é médica no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ) e no Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria, na Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz.
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