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Ginecologia e Obstetrícia15 agosto 2026

Disbiose seminal e intestinal: associação com desfechos reprodutivos

Estudo prospectivo avalia disbiose seminal e intestinal em casais com infertilidade ou perda gestacional recorrente.

A falha reprodutiva é um desafio global que afeta milhões de casais, manifestando-se tanto na dificuldade de concepção quanto na perda gestacional recorrente. Historicamente, a investigação do microbioma na saúde reprodutiva concentrou-se quase exclusivamente no nicho vaginal, buscando entender como a predominância de Lactobacillus favorece a gestação. No entanto, os resultados têm sido inconsistentes, sugerindo que o foco isolado na mulher pode ser insuficiente. 

Evidências emergentes indicam que o microbioma influencia a fisiologia reprodutiva por meio de vias endócrinas, imunológicas e metabólicas. Assim, comunidades microbianas em locais distantes, como o trato gastrointestinal, ou o compartilhamento de microrganismos entre parceiros podem desempenhar papéis cruciais na manutenção da gravidez. 

O estudo publicado na revista Lancet Obstetrics & Gynaecology em 2026 teve por objetivo determinar se a disbiose na vagina, no intestino ou no sêmen está associada a desfechos reprodutivos em casais com infertilidade (coorte Mi-IVF) e com perda gestacional recorrente (coorte Mi-RPL). 

Saiba mais: Simpósio Afya no CBGO 2025 — Entendendo a microflora vaginal 

fertilidade/reprodução do casal

Como o estudo avaliou casais com falha reprodutiva 

Este estudo prospectivo multicêntrico utilizou sequenciamento metagenômico shotgun profundo para analisar duas coortes independentes recrutadas entre 2018 e 2023. A coorte Mi-IVF incluiu 249 mulheres (18-41 anos) e seus parceiros em tratamento de fertilização assistida, enquanto a coorte Mi-RPL contou com 104 mulheres e 96 parceiros com histórico de três ou mais perdas consecutivas. Foram coletadas amostras vaginais, retais/fecais e seminais. 

Os critérios de exclusão abrangeram rearranjos cromossômicos parentais, malformações uterinas graves, uso de antimicrobianos recentes e infecções virais (HIV, hepatite). O desfecho primário analisado foi o tempo até o nascimento vivo (nascido após 22 semanas), enquanto os desfechos secundários incluíram a taxa de estabelecimento de gravidez e a taxa de perda gestacional. 

Saiba mais: Novo guideline sobre perda gestacional recorrente da ESHRE 

Disbiose seminal e intestinal e os desfechos observados 

Os resultados revelaram que a disbiose seminal (denominada “V-dysbiosis” por sua similaridade com perfis vaginais disbióticos) foi um preditor robusto de desfechos negativos. Na coorte Mi-IVF, essa alteração foi associada a um tempo significativamente mais longo para o nascimento vivo e a um risco elevado de perda gestacional (OR 3,31; IC 95% 1,17–9,32). Na coorte Mi-RPL, a disbiose seminal também aumentou o risco de nova perda (OR 2,17; IC 95% 1,05–4,49). 

Quanto ao microbioma intestinal feminino, cada aumento de um desvio padrão na pontuação de disbiose foi associado a uma redução na probabilidade de estabelecer gravidez tanto no grupo de fertilização assistida (OR 0,74) quanto no de perda recorrente (OR 0,54). A disbiose vaginal não apresentou associações consistentes com o nascimento vivo ou o estabelecimento de gravidez, reforçando que o impacto sistêmico e seminal pode ser mais determinante.

Saiba mais: Endometrite crônica e a falha reprodutiva recorrente  

Como os autores interpretaram os achados 

A discussão destaca que o sêmen atua como uma exposição microbiana direta e repetida ao trato reprodutivo feminino, podendo transmitir patobiontes que interferem na implantação ou induzem inflamação. O estudo possui limitações, como o desenho observacional, que impede inferência causal direta, e a ausência de um grupo controle de casais comprovadamente férteis. Contudo, a robustez dos dados metagenômicos sugere que a avaliação do “holobionte” (o casal como unidade biológica) é superior à análise isolada da mulher. 

Implicações clínicas apontadas pelo estudo 

Esta pesquisa agrega valor clínico ao demonstrar que fatores microbianos potencialmente modificáveis no homem e no trato intestinal feminino estão associados ao sucesso reprodutivo. 

Na prática, os achados levantam a possibilidade de que a propedêutica da infertilidade seja ampliada para além do espermograma convencional, que não reflete a composição microbiana, com a consideração futura do rastreamento da disbiose seminal e intestinal. 

Intervenções futuras baseadas em probióticos direcionados ou tratamentos antimicrobianos para o parceiro poderão ser avaliadas quanto ao potencial de melhorar as taxas de nascidos vivos em casais com falhas prévias. 

Autoria

Foto de Roberta Furtado Stivanin Rachid Novais

Roberta Furtado Stivanin Rachid Novais

Conteudista médica na Afya. Formada em medicina pela Faculdade Souza Marques, com residência médica em Medicina de Família pela Universidade Federal Fluminense e especialização em Ginecologia e Obstetrícia pela SOGIMA-RJ, Mestre em Saúde Materno Infantil pela UFF e Doutoranda em Ciências Médicas pela UFF. Além da atuação na Afya, é professora de Obstetrícia na UFF.

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Referências bibliográficas

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