O aleitamento materno (AM) é fortemente recomendado devido aos seus benefícios bem estabelecidos para lactentes e suas mães. No entanto, muitas díades enfrentam dificuldades na amamentação que, infelizmente, podem levar à sua interrupção precoce. Uma das potenciais causas de desmame é a presença de anquiloglossia sintomática. A condição tem recebido crescente atenção, embora seu diagnóstico permaneça controverso devido à falta de critérios padronizados, particularmente para a anquiloglossia posterior.
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Por que o diagnóstico do freio lingual ainda é controverso?
Diante desses desafios, uma revisão sistemática publicada no periódico Pediatric Dentistry avaliou as evidências disponíveis sobre os critérios diagnósticos para o freio lingual restritivo e sua associação com dificuldades no AM. O artigo Diagnostic Assessment of Ankyloglossia and Association With Infant Feeding Challenges: A Systematic Review and Meta-Analysis–Part 1 consiste na primeira parte dessa revisão.
Como a revisão sistemática foi conduzida
As bases de dados utilizadas foram CINAHL, Cochrane Library, Embase e Ovid MEDLINE, abrangendo o período de 1946 a maio de 2025.
Os critérios de inclusão foram estudos que avaliaram díades mãe-bebê com ou sem dificuldades de alimentação, nas quais os bebês apresentavam freio lingual restritivo; ensaios clínicos randomizados (ECR), estudos não randomizados (ENR), estudos de coorte, caso-controle e transversais, documentos de consenso e séries de casos. Os dados extraídos dos ECR foram referentes à exposição, e não à intervenção randomizada.
Os critérios de exclusão foram artigos de opinião, capítulos de livros, cartas aos editores, editoriais, estudos de revisão e relatos de caso, além de artigos publicados em idiomas diferentes do inglês.
Os desfechos avaliados incluíram a associação entre anquiloglossia e dificuldades de alimentação e a acurácia diagnóstica de instrumentos de avaliação da anquiloglossia.
Ferramentas avaliadas para o diagnóstico de anquiloglossia
Nessa primeira revisão sistemática, foram incluídos 20 estudos. Desses, 14 avaliaram os critérios diagnósticos para anquiloglossia e 10 avaliaram a associação entre o freio lingual restritivo e os desfechos da alimentação de binômios mãe-bebê. Os estudos foram realizados em seis países: Alemanha (n = 1), Brasil (n = 7), Estados Unidos (n = 6), Israel (n = 2), Reino Unido (n = 2) e Tailândia (n = 2).
Os estudos avaliaram cinco instrumentos de avaliação distintos:
- Bristol Tongue Assessment Tool (BTAT)/Tongue-tie and Breastfed Babies Assessment Tool (TABBY; n = 4 estudos);
- Hazelbaker Assessment Tool for Lingual Frenulum Function (HATLFF)/Assessment Tool for Lingual Frenulum Function (ATLFF; n = 4 estudos);
- Neonatal Tongue Screening Test (NTST)/Lingual Frenulum Evaluation Protocol (LFPI) for Infants, ou teste de anquiloglossia (n = 5 estudos), conhecido como teste de Martinelli;
- Classificação de Coryllos (n = 2 estudos);
- New York University Tongue-Tie Case Definition (NYU-TTCD; n = 1 estudo).
As populações dos estudos incluíram neonatos com até 30 dias de vida, sendo que a maioria se concentrou em díades mãe-bebê em fase de AM que apresentavam dificuldades na amamentação.
O que os estudos mostraram sobre dificuldades na amamentação
Para o diagnóstico de anquiloglossia, a BTAT/TABBY demonstrou alta acurácia discriminativa (AUC ROC = 0,95; > 2.000 casos clínicos), consistência interna aceitável (α = 0,708) e forte correlação com a HATLFF (r = 0,89).
Além disso, uma tendência favorável à associação com o freio lingual restritivo foi observada em dez dos estudos incluídos que analisaram dificuldades no AM. Embora o efeito não tenha atingido significância estatística (P = 0,18) e a heterogeneidade tenha sido substancial (I² = 96%), os bebês com anquiloglossia apresentaram maior chance de dificuldades relatadas pela mãe (odds ratio [OR] combinado = 5,57; intervalo de confiança de 95% [IC 95%]: 0,44–70,02).
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Nenhuma ferramenta deve ser usada de forma isolada
O estudo concluiu que, dentre as cinco ferramentas diagnósticas avaliadas, nenhuma demonstrou validação suficiente para servir como critério isolado na determinação de freio lingual restritivo em lactentes. Embora o grau de certeza tenha permanecido muito baixo, a BTAT/TABBY apresentou o maior número de evidências de validação entre as ferramentas avaliadas.
Além disso, o estudo mostrou evidências de certeza muito baixa que apontam para uma direção consistente de associação entre anquiloglossia e dificuldades no AM. No entanto, a heterogeneidade foi substancial e as estimativas combinadas não atingiram significância estatística.
Por fim, os resultados corroboram a necessidade de padronização dos critérios diagnósticos. Para os pesquisadores, é necessário incorporar tanto a anatomia quanto a função (mobilidade) da língua, em conjunto com uma avaliação padronizada de desfechos críticos da alimentação, como dor no mamilo materno e pega do bebê.
Mensagem prática: triagem não equivale a indicação cirúrgica
Considero esse estudo de muita relevância para a prática pediátrica. Ele nos mostra que a triagem para anquiloglossia continua sendo importante, mas a conduta deve ser individualizada e não baseada apenas no resultado da triagem. Nos últimos anos, uma triagem com resultado alterado acabou levando muitos bebês a serem submetidos à frenotomia, apesar das evidências limitadas de que o frênulo lingual fosse a verdadeira causa das dificuldades no AM.
A frenotomia é, em geral, um procedimento simples e seguro. No entanto, é uma intervenção cirúrgica que causa dor e envolve riscos potenciais, como sangramento, infecção e lesão de estruturas adjacentes. Portanto, a triagem deve ser vista como uma peça do quebra-cabeça clínico, ou seja, como uma ferramenta valiosa para embasar a tomada de decisão. Ela não deve ser uma indicação isolada para cirurgia.
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Autoria

Roberta Castro
Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Faculdade de Medicina de Valença, com residência em pediatria e medicina intensiva pediátrica. Mestrado (UFF). Doutorado (UERJ). Além da atuação na Afya, atua como professora de pediatria (UERJ), rotina da enfermaria de pediatria (UERJ) e consultório particular.
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