A anquiloglossia ou “língua presa”, condição em que um freio lingual (tecido que prende a ponta da língua ao assoalho da boca) é anormalmente curto ou espesso, podendo limitar os movimentos da língua e afetar amamentação, fala, mastigação e deglutição, ocorre em 8% da população pediátrica com menos de 1 ano.
O impacto da anquiloglossia pode ser amplo, envolvendo dificuldades na amamentação, tais como pega inadequada e mamadas prolongadas ou frequentes, além de ganho ponderal insuficiente e alteração no desenvolvimento.
As dificuldades na amamentação podem levar ao desmame precoce indesejado. No entanto, o real impacto da anquiloglossia nesse processo ainda não está totalmente esclarecido, visto que os estudos se concentram na população (auto-selecionada) que buscou tratamento devido ao diagnóstico de “língua presa”. O impacto mais amplo na população geral ainda não é conhecido.
O tratamento cirúrgico definitivo da anquiloglossia é a cirurgia de frenotomia lingual. Quando indicada corretamente, demonstrou ser um procedimento valioso com melhora importante na amamentação.
No entanto, é importante ressaltar que a maioria dos estudos até hoje tiveram como base a avaliação pré e pós frenotomia, não havendo comparação com um grupo de pacientes que não foram submetidos ao procedimento cirúrgico, não permitindo esclarecer se pacientes desse grupo teriam apresentado melhora sem tratamento.
Portanto, o impacto da anquiloglossia não tratada nos resultados da amamentação a longo prazo permanecem incertos, como dito anteriormente.
Buscando elucidar melhor esse cenário, foi realizado um estudo para avaliar o impacto da anquiloglossia não tratada nas taxas de manutenção do aleitamento materno exclusivo por 6 meses, em comparação com aqueles sem anquiloglossia.
Além disso, o ganho de peso e a velocidade do ganho ponderal foram avaliados entre as duas coortes, como objetivos secundários.
A hipótese deste estudo publicado em janeiro/2026 era de que a presença da anquiloglossia levaria a taxas mais altas de interrupção precoce da amamentação e lentidão no ganho de peso.

Metodologia
Foi realizado um estudo observacional prospectivo, de métodos mistos (quantitativo e qualitativo), em uma grande unidade hospitalar materno-infantil na Índia.
A amostra foi selecionada através dos pacientes/mães que chegaram para vacinação infantil dentro das 48 horas após o nascimento, no período entre outubro e dezembro/2023.
O seguimento foi realizado até os 6 meses de vida dos bebês.
A escala de avaliação da língua de Bristol foi utilizada para avaliar todos os pacientes selecionados. A escala apresenta uma variação de 0 a 8, sendo 0 a 3 considerada uma redução mais grave da função da língua e 8 indicando ausência de anquiloglossia.
Para este estudo, foi considerado como tendo anquiloglossia todos os bebês com pontuação inferior a 8, sendo uma pontuação de 5 a 8 associada a maior probabilidade de frenotomia.
A mãe (e/ou cuidador adicional) do bebê foi questionada sobre dificuldades de qualquer tipo na amamentação (dificuldade de pega, preocupação com a produção de leite, incerteza quanto a posição adequada, entre outras).
Caso fosse constatada a dificuldade, a equipe de pesquisa iniciava o acompanhamento após a avaliação oral do bebê, e realizava a consultoria de amamentação por um profissional com treinamento específico em medicina da amamentação e lactação.
Além disso, foram coletadas ainda informações demográficas, tais como idade materna, histórico de gravidez e parto, histórico perinatal, tipo de parto, idade gestacional, peso de nascimento e possíveis complicações do parto.
Após a alta, um membro da equipe de pesquisa que não tinha conhecimento sobre a presença ou não da anquiloglossia, entrou em contato com as mães em três momentos pré-definidos (2 a 4 semanas, 3 meses e 6 meses). Em cada contato, foi aplicado um questionário com 7 perguntas sobre amamentação e ganho de peso. Em seguida, a mãe recebeu treinamento e orientações sobre amamentação, dieta, estratégias para aumento da produção de leite e esclarecimento sobre o ganho ponderal esperado para o bebê.
É importante destacar que a pesquisadora que realizou os contatos era treinada em pesquisa qualitativa e em técnicas de entrevista, mas não estava envolvida no atendimento médico das pacientes. Todas as entrevistas foram gravadas e transcritas.
As transcrições das entrevistas foram codificadas e submetidas a um programa para gerenciamento de dados qualitativos. A consistência entre os codificadores foi determinada, garantindo que o estudo incluísse todos os aspectos de confiabilidade entre codificadores em pesquisa qualitativa.
Resultados
Foram incluídos no estudo 476 duplas (mãe-bebê), sendo 366 (76,9%) no grupo sem anquiloglossia e 110 (23,1%) no grupo com anquiloglossia.
No grupo com anquiloglossia houve predomínio dos casos leves a moderados, com somente 2 apresentando restrição grave da função da língua (escala entre 0 e 3).
O grupo da anquiloglossia apresentou mais bebês do sexo masculino, compatível com dados de estudos anteriores.
O peso ao nascer foi semelhante entre os dois grupos.
O estudo mostrou que não houve diferença significativa estatisticamente entre bebês com e sem anquiloglossia em relação ao aleitamento materno exclusivo (nos três períodos avaliados).
No período de 2-4 semanas, as taxas de aleitamento materno exclusivo foram de 88,5% no grupo sem anquiloglossia e 92,6% no grupo com anquiloglossia (IC 95% e p=0,39). Nos 3 meses, as taxas foram de 84,6% e 77,7%, nos grupos sem e com anquiloglossia, respectivamente (IC 95% e p=0,18). Nos 6 meses, as taxas foram de 81,4% e 78,6%, também para os grupos sem e com anquiloglossia, respectivamente (IC 95% e p=0,6).
Avaliando somente o grupo com anquiloglossia, não foi observada diferença na gravidade do freio de língua entre os bebês que foram ou não amamentados exclusivamente até os 6 meses de vida (p=0,78).
É importante salientar que o número de participantes em cada período avaliado apresentou variação.
Ao analisar especificamente os pacientes que apresentavam dados completos em todos os períodos avaliados, as taxas de aleitamento materno exclusivo foram semelhantes em todos eles.
Em relação ao ganho de peso e velocidade de crescimento, também não houve diferença significativa entre os dois grupos, assim como na percepção materna de produção insuficiente de leite.
A dor mamilar foi pouco frequente em ambos os grupos e a dificuldade de pega foi pouco relatada, inclusive no grupo com anquiloglossia. Além disso, a dor mamilar apresentou melhora espontânea ao longo do tempo.
Para avaliar melhor a relação entre anquiloglossia e interrupção do aleitamento materno exclusivo, foi realizada uma regressão logística multivariável. A única variável associada a uma probabilidade menor de aleitamento materno exclusivo foi a preocupação materna com a produção de leite (RC 0,22, IC 95% e p=0,003).
A anquiloglossia não foi fator independente para a interrupção precoce do aleitamento materno exclusivo.
As razões para a interrupção precoce do aleitamento materno foram semelhantes nos dois grupos, e incluíam medo de “leite insuficiente”, introdução precoce da fórmula por orientação médica, forte influência de familiares, pouco acesso a orientação qualificada por profissionais treinados em lactação.
Discussão
O estudo evidenciou que a presença de anquiloglossia não foi um fator primário relacionado a manutenção ou não do aleitamento materno exclusivo, assim como a velocidade de crescimento e ganho de peso.
Sendo assim, o estudo sugere que, ao avaliar um bebê com dificuldade de amamentação, uma multiplicidade de fatores deve ser explorada, independentemente da presença ou não de anquiloglossia.
Embora haja claramente benefício da frenotomia nos casos de dificuldade de amamentação em bebês com anquiloglossia sintomática, a falta de um grupo controle para comparação mantém a dúvida se a melhora ocorreria ao longo do tempo, sem a necessidade do procedimento cirúrgico.
Um exemplo é a dor mamilar, sintoma presente nas mães dos dois grupos e considerado resolvido após a frenotomia, e que apresentou melhora com o tempo em ambas as coortes.
Quando o foco da dificuldade de amamentação é direcionado apenas para a anquiloglossia, uma série de outros fatores podem ser ignorados.
As mães do estudo indicaram a preocupação em relação a produção de leite como um motivo frequente para a interrupção da amamentação, tanto na abordagem qualitativa quanto na abordagem quantitativa dos dados.
Além disso, as mães relataram ainda a recomendação da fórmula infantil por parte dos médicos, sem uma avaliação aprofundada das causas da dificuldade de amamentar.
Quando há avaliação multidisciplinar e aconselhamento por equipe especializada em amamentação, nos casos de anquiloglossia, as taxas de frenotomia diminuem.
A natureza complexa da amamentação sugere que a avaliação dos bebês além da busca pelo diagnóstico de anquiloglossia é a chave para escolher adequadamente os candidatos a frenotomia, assim como para melhorar as taxas de aleitamento materno exclusivo.
O relato frequente das mães sobre a busca de aconselhamento sobre as dificuldades da amamentação com as mulheres mais velhas da família indica a necessidade da incorporação de educação sobre aleitamento também para familiares que cuidam e estão próximos das mães, assim como atendimento de rotina pelos agentes comunitários de saúde.
O estudo deixa claro as suas limitações. A escala escolhida para avaliação da anquiloglossia é uma delas. Apesar da falta de validação pela academia americana de pediatria, a escala foi escolhida devido a facilidade e tempo de aplicação, sendo uma ferramenta comumente utilizada em clínicas de otorrinolaringologia.
Outra limitação está relacionada a falta de representatividade de todo o espectro da patologia, visto que apenas poucos apresentavam anquiloglossia grave.
No entanto, é importante considerar que as incertezas relacionadas a necessidade de tratamento da anquiloglossia envolvem os casos menos graves, que são os mais representados nesse trabalho.
Além das limitações já citadas, temos ainda a perda de seguimento de alguns pacientes, que ocorreu de forma mais significativa no desfecho secundário (velocidade de ganho ponderal). No entanto, ainda assim o estudo apresentou amostra considerável em comparação com estudos anteriores.
Por último, as informações fornecidas pelas mães podem ser imprecisas, além da coorte incluir principalmente mulheres em um contexto social onde não trabalham fora e a cultura do aleitamento materno é a norma e a expectativa.
Mensagem prática
Esse estudo aborda um tema importante e muito pertinente no meio pediátrico. Apesar das suas limitações, ele traz informações importantes e que nos levam a refletir sobre esta patologia e sua abordagem.
Os achados sugerem que, embora a anquiloglossia possa afetar a amamentação, outros fatores desempenham um papel maior no sucesso da amamentação, independente da presença de anquiloglossia.
Novas pesquisas são necessárias e devem incluir ensaios randomizados controlados com grupos submetidos a frenotomia precoce e grupos com apoio e suporte intenso a amamentação, assim como estudos observacionais em diversas culturas.
Na nossa realidade, a anquiloglossia vem sendo amplamente debatida quanto a indicação do tratamento cirúrgico, que apresentou crescimento muito exponencial nos últimos anos, principalmente após a realização do teste da linguinha como rotina.
É inegável o aumento de procedimentos cirúrgicos em todos os cenários, deixando a dúvida quanto à necessidade real deste tratamento para todos os casos.
A abordagem dos pacientes/mães que apresentam dificuldade de amamentação, assim como salientado neste estudo, deve ser multidisciplinar e focar em todas os possíveis fatores envolvidos.
O ato de amamentar, por muitos anos, foi romantizado, deixando a falsa impressão de ser algo fácil e natural, sem expor os desafios e fatores envolvidos no processo. Atribuir todos os casos onde há dificuldade a presença de anquiloglossia apenas, pode levar a inúmeros procedimentos cirúrgicos desnecessários.
Sendo assim, é fundamental a realização de novos estudos, assim como um olhar cuidadoso dos profissionais envolvidos nesse processo, buscando sempre a melhor assistência para as mães e bebês.
Autoria
Vanessa Nascimento
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